Banco novo na praça

No dia 12 de março de 2009 inauguramos o Banco da Poesia, que pretende ser mais um ponto de apoio para essa modalidade literária nem sempre valorizada  em nossa cultura. A essência da poesia está em todas as artes, fundamentais  para a própria vida. Só quem sonha pode criar. Só quem cria faz o mundo evoluir. E quem provoca a evolução da sociedade, gera maior comunicação e reunião solidária entre as pessoas. Fernando Pessoa já vaticinava, há mais de 50 anos: O maior poeta da época moderna será o que tiver mais capacidade de sonho. Para ler mais, clique aqui.

Os encontos de João Defreitas

O tempo da memória

Conheço João Correia de Freitas há muitos anos. Convivemos em Brasília, quando assessoramos o então Ministro da Educação, Ney Braga. Tínhamos filhos ainda pequenos, quase coetâneos, que reforçaram o elo de amizade entre as duas famílias. Depois do exílio planaltino, nos reencontramos em Curitiba. Como diretor pedagógico da Facinter, núcleo inicial do atual grupo Uninter, ele convidou-me para auxiliar na implantação da metodologia de Educação a Distância em sua faculdade, ao lado do fundador Wilson Picler. Ali consolidamos nossa amizade, que perdurou mesmo após meu desligamento da instituição.

Parnanguara nascido e juramentado, Defreitas sempre revelou, em nossas conversas, os momentos de sua vida no litoral paranaense e, mais tarde, nas suas andanças pela Europa, onde viria conhecer a açoriana Alda Aguiar dos Santos Pereira. Por ela apaixonou-se e tiveram uma primeira filha portuguesa, antes de se mudarem definitivamente para o Brasil.

João Correia Defreitas

Com o advento da Internet e das redes sociais, Defreitas, já afastado das lides educacionais, passou a compartilhar suas memórias com amigos reais e virtuais, em croniquetas bem humoradas que sempre mereceram elogios de seus leitores. Historinha vem, historinha vai e a saudade manifesta o desejo de converter-se em texto gravado em letras de forma. O projeto foi entregue às mãos de uma editoria quase familiar. Sua filha, a arquiteta Mônica Defreitas Smythe, responsabilizou-se pela elevação poética dos textos, adornando-os com belas aquarelas. O genro, Nelson Smythe Jr. fez o projeto gráfico, também inspirado nas harmonias das palavras editadas. E não faltou a organização da amiga e antiga colega Profa. Vilma Aguiar, que também prefaciou a obra. A última pincelada foi da Editora Intersaberes, da Uninter, que cumpriu primorosamente o trabalho de editoração.

Como se trata de recordações, o livro tomou, simbolicamente, o formato de álbum de fotografias, daqueles em que as mamães colavam a vida de suas famílias, desde os próprios casamentos, passando pelo nascimento dos filhos, aniversários, férias, casamento dos descendentes. Antes, é claro, da fotografia digital, que encerrou a vida dos retratos revelados em laboratório especializado.A profusão das fotos feitas a cada instante pelos telefones celulares já não alimenta os relicários imagéticos familiares:  são guardados nos arquivos eletrônicos ou nas nuvens celestiais da informática.

Nas primeiras páginas, o altar carinhoso erigido na homenagem a Alda , a companheira que ajudou a fazer de João o mais lusitano dos parnanguaras. É bem possível que, em sua alma, o escritor tenha juntado as paisagens daqui e da península ibérica, modelando-as na memória com imagens comuns, que, sem serem rigorosamente bucólicas, guardam a simplicidade dos costumes, a tranquilidade da vida em contato com as pessoas simples e seus hábitos peculiares.

Li O tempo da memória em uma só assentada. Ou melhor, assentado em uma cadeira envolta no burburinho do público que compareceu ao lançamento. Um verdadeiro refrigério espiritual naquela manhã calorenta de sábado. Saí dali com maior admiração por meu amigo dileto. O único reparo – que tratei de comunicar ao autor – é a inexistência de um glossário, tanta a riqueza dos vocábulos regionais que ele apreendeu em suas andanças pela terrinha. Mas isso serviu de tempero extra para as narrativas minimalistas. E também me fez lembrar de José Paulo Paes (poeta a quem dedicarei, em breve, um lugar no Banco da Poesia), em seu poema Lisboa: Aventuras.



tomei um expresso
                                                           cheguei de foguete
subi num bonde
                                                           desci de um elétrico
pedi cafezinho
                                                           serviram-me uma bica
quis comprar meias
                                                           só vendiam peúgas
fui dar à descarga
                                                           disparei um autoclisma
gritei “ó cara!”
                                                           responderam-me “ó pá!”
                                                           positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá


                                        ******

Sem pretender roubar dos próximos leitores do Prof. Defreitas as surpresas e os sabores de seus textos, não posso deixar de transcrever, à guisa de amostra grátis, as palavras dedicadas à sua Avó:

“A única lembrança que tenho de minha avó é essa historinha que ela contava: ‘Da morte ninguém escapa, nem o rei nem o papa. Mas hei de escapar eu: compro uma panela, que me custa um vintém. Meto-me dentro dela e tapo-me muito bem… Então, a morte passa e diz: Huum… quem está aí? Eu digo: aqui. Aqui não tem ninguém!!!’ Enfim, nunca a entendi muito bem, mas nunca esqueço da avó e dessa história. Foi a herança que ela me deixou.”

FotoLivro.png

Finalmente, também a serviço dos próximos leitores, devo dizer-lhes que não esperem contos ou crônicas de aprofundada reflexão. João Defreitas nos regala belos e poéticos momentos de sua memória. Encontros com a vida. Encantos. Encontos. Cleto de Assis/dez.2018

                                                          


Não perca!

Compareça ao lançamento

Palavras_anuncio

No dia 25, quarta-feira, 19h30, nas Livrarias Curitiba
Av. 7 de Setembro (Shopping Estação)
Manoel de Andrade lança seu novo livro
As palavras no espelho

***

Socorro!

Help!

“Help me if you can, I’m feeling down

And I do appreciate you being round

Help me, get my feet back on the ground

Won’t you please, please help me?”

 

Paul McCartney / John Lennon

Se quiser me ajudar…

…sussurre palavras suaves e doces em meus ouvidos.

Derrame sons de roçar de mãos na relva úmida de seu corpo.

Faça-me esquecer que vivemos no país da simulação

onde a mentira vira imediata verdade.

Se quiser me ajudar…

… brinque comigo com bolinhas de búrico.

Mas tem que ser búrico. Nada de búlica,

gude, fubeca, borroca, berlinde ou ximbra:

essas todas estrangeiras para minha infância.

Se quiser me ajudar…

… empine sua pandorga até as nuvens

e leve-me nela pendurado

para que eu conheça de perto

os rebanhos em constante dispersão.

PandorgaBR
Ilustração: C. de A.

Se quiser me ajudar…

… conte-me onde foi parar a minha coleção de pedras

que eu juntei com tanto carinho em uma mochila de lona,

e um dia foi-se de meus cuidados

levada pelos cuidados de alguém mais esperto.

Se quiser me ajudar…

… diga-me para onde seguiram meus amigos

cujos sonhos eram iguais aos meus

mas que se perderam em curvas inesperadas

sem olhar para trás e sem acenos de adeus.

Se quiser me ajudar…

…explique-me o que é essa tal liberdade

pela qual os homens prendem e matam

e inventam paraísos e nirvanas e outras utopias

e queimam vilas inocentes e sonhos de crianças.

Se quiser me ajudar…

… prove-me que este menino grande e pobre

chamado Brasil tem futuro e que a palavra

esperança ainda encontra sentido no presente

vilipendiado por tantos mal-eleitos.

Cleto de Assis

Curitiba/17.07.2018

Manoel de Andrade novamente nas livrarias

As palavras no espelho

“Así es la verdad – respondió don Quijote -, y si no me quejo del dolor, es porque no es dado a los caballeros andantes quejarse de herida alguna, aunque se le salgan las tripas por ella.”
Don Quijote de la Mancha, por Miguel de Cervantes

Faltava ao cavaleiro andante que atende pelo nome de Manoel de Andrade, poeta cataranaense[*] de alto coturno, abrir seu baú e expor as suas relíquias ainda não publicadas, ou editadas esparsamente por ele e diversos observadores de sua obra. Aberta a arca literária, surgiram as palavras agora refletidas em um espelho mágico, que refletem não só reflexões sobre o mundo em transformação em que cresceu, sobreviveu e ainda vive, mas também entrevistas concedidas, comentários, referências de outros escritores. E alguns poemas novos, porque a poesia sempre está presente diante do espelho do autor:

         “E agora, eis-me diante da poesia,
         Assistindo desabar as velhas torres do encanto…
         Perplexo, que posso ainda?
         Sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.”

           Esperança e desencanto, que se transformam, na sequência do poema, em espanto e indignação, a esperança a projetar-se, cada vez mais, aos longínquos horizontes utópicos.

Não se trata, é claro, de um livro de memórias, embora as remembranças auxiliem a entender melhor sua trajetória neste mundinho de deus, no qual o intrépido ginete caçou dragões e perseguiu utopias. Vencedor em todas as liças? Nem sempre, eis que os dragões às vezes se transformavam em legiões e as quimeras se esvaneciam com o passar do tempo e pela força das revoluções silenciosas. Comprovam as palavras no espelho a dicotomia imposta à sua alma honesta e generosa, na qual comungam o ardor da luta social e o fervor da fé no mundo transcendente. Sempre, evidentemente, em benefício da realização do ser humano.

No galhardete de sua lança guerreira, sempre presente a palavra Poesia, também trincheira corajosa, cuja força expressiva opunha-se, por vezes, aos mais fortes gladiadores de plantão. Detalhes dessa saga moderna em seu livro “Nos Rastros da Utopia”, lançado em 2014.

Manoel de Andrade, revisitado em seu novo livro “Palavras no Espelho”, coincide com o jovem de espírito libertário que viveu intensamente o ano de 1968 e agora aproveita o aniversário cinquentão do movimento mundial que construiu uma esquina significativa na história da sociedade contemporânea. Sua mais recente obra inicia com uma revisão daquele ano, marcado, de janeiro a dezembro, pela manifesta insatisfação da sociedade humana em praticamente todos os quadrantes do planeta. Mas atentemos para o artigo precedente, batizado como “Nota do Autor”, no qual M.A. faz uma apologia ao livro impresso e explica porque recorreu à mídia gutenberguiana para publicar essa coletânea de escritos jogados à face de um espelho rútilo. Sem desmerecer sua tese, ele confessa que também utiliza o mundo virtual de tantos amigos e admiradores de sua obra, o novo suporte de registro do conhecimento que veio para democratizar a informação, não mais apanágio das cabeças intelectualizadas ou das bibliotecas físicas. Para encanto de M.A., podemos dizer que o ambiente digital é a verdadeira socialização da palavra, que tem tanta ou mais proteção do que a mídia impressa. (Uso aqui a antítese para comemorar os tantos diálogos que já desenvolvi com o autor de “As palavras no espelho”, eu sempre em defesa nos novos meios de comunicação, hoje ainda conturbados por se situarem em um período de transição e de nítido mau uso de seus processos. Mas benditos os de nossa geração, formados no universo de Gutenberg e ampliados nos sonhos de Bill Gates e Steve Jobs.)

Sem leitura linear obrigatória, o livro é notavelmente prazeroso. Pode-se absorvê-lo sem as cadeias do enredo, sete capítulos a formar uma mesa de sabores e saberes palatáveis ao gosto dos amadores e dos glutões literários.

Palavras_banco

Lançamento marcado para o dia 25 de julho de 2018, às 19h30, Livrarias Curitiba (Av. 7 de Setembro, 2775 – Shopping Estação), em Curitiba

Mas não se pense em uma coleção de retalhos. Registrei, no início, que são relíquias acomodadas pelo tempo em um relicário precioso. Libertos do baú, revelam um patchwork artesanalmente bem formado, delicadamente forrado para o conforto da boa leitura.

Últimas palavras: sou grato a Manoel de Andrade pela inclusão de textos meus em seu novo livro e pelo convite, aceito com o maior prazer, para desenhar a capa.


 [*]Dizia o igualmente ilustre paranaense nascido em Blumenau (SC), Karlos Heinz Rischbieter, que os antepenúltimo e  penúltimo estados do sul brasileiro deveriam ser unidos em um único topônimo, como Cataraná ou Paranarina (união de Paraná e Santa Catarina), em razão de suas origens culturais, semelhanças do processo colonizatório e aproximações econômicas. Daí o gentílico cataranaense usado para identificar M.A., nascido em Rio Negrinho (SC), criado em Itajaí, também naquele estado, e transferido ainda jovem para Curitiba, onde encontrou seus destinos seguintes.

 

Insomnia

Vem, sono

Vem, sono

Vem, sono vertical e manso,
cerra meus olhos e lança-me às águas dos Oniros
para que eu flutue na inconsciência (quase) absoluta
apenas guiado por Hipnos,
sem perturbar-me pela ilusões de Fantasos ou de Fobetor.
Preciso apenas dormir, dormir simplesmente.
Esquecer-me dos aguilhões da dor
que servem somente para lembrar-me:
“Tu és vivo e em agonia purgarás”.
Retorna-me ao abissal útero de Gaia,
pulsante e acalentador,
onde se encontra o perdido limbus infantum,
no qual pecados ou culpas são inefáveis.
Vem, sono fugidio.
Ensina-me teu ofício apaziguador
e permita que Nix estenda sobre meu corpo
sua colcha diáfana e tépida
untada com essência de papoulas
para que eu possa, finalmente,
alcançar as águas sussurrantes do Lete,
imerso na tranquilidade  do olvido.

Curitiba, madrugada insone de 12 de dezembro de 2017.

O verdadeiro Cine Fenix

Ressurgido das cinzas

Existe, no Paraná, um Cine Teatro Fenix, mantido pela comunidade de Apucarana. Mas o que mereceria assim chamar-se é o Cine Teatro Universitário Ouro Verde, de Londrina, literalmente ressurgido das cinzas, após o incêndio que o atingiu, em fevereiro de 2012. Já totalmente restaurado e atualizado, com relação às suas especificações técnicas, ele retorna para continuar como coração dos eventos os eventos que levaram à sua aquisição, em 1878. A historinha está contada aqui no Banco da Poesia. Retorno com ela porque a memória do povo é curta e a própria UEL, hoje, não a conta inteiramente, quando apenas fala que o cinema foi adquirido pela Universidade em 1978. Não foi. Ney Braga, então Ministro da Educação e, em seguida, governador do Paraná, foi o responsável principal pela compra do cinema e sua doação à UEL, juntamente com Jayme Canet Jr., governador naquela época.

Tenho orgulho por ter participado dessa história, portador que fui da notícia a mim passada por Walmor Macarini, em 1978, sobre a possível venda do cinema pertencente à família Garcia Cid. Abortamos a negociação então em andamento com um banco e. graças à sensibilidade de Ney Braga, o cine Ouro Verde consolidou-se como uma grande centro cultural que hoje também orgulha os londrinenses.

Reflexões do C.A.R.A. na Sexta-feira Santa

Carlos-Alberto-Rodrigues-Al

C.A.R.A. são as iniciais de Carlos Alberto Rodrigues Alves. Mas a coincidência vem a calhar, pois ele é O Cara. Teólogo, pedagogo, Pastor evangélico e professor, porém sua profissão (de fé) verdadeira é ser amigo de muita gente. Quase sempre de bom humor, faz de versos de Vinicius sua máxima de vida: “a alegria é a melhor coisa que existe”. E também verseja, muitas vezes, embora sua melhor expressão artística esteja nas pontas do dedos, bom violonista que é. É casado com Luciana e tem três belos filhos: Giovani, Kauan e Giulia.

Hoje assume sua conta no Banco da Poesia, citando um de nossos poetas maiores, mas expondo uma visão da realidade que bem demonstra sua sensibilidade poética. Virão, em breve, versos seus.

Sobre Eriberto e seu cãozinho

Nesta semana santa, comovi-me diante de um catador de papel e morador de rua. Ele passa todos os dias em frente ao meu trabalho. Detalhe: sempre acompanhado de seu fiel e magérrimo cãozinho. Eriberto disse-me que não aceitou a oferta generosa de uma Ong que queria lhe dar um abrigo com maior dignidade. Razão de não ter aceito a generosidade: “ Eles me disseram que eu não poderia levar o Piloto para morar comigo”.

Vendo esta cumplicidade existencial entre o pequeno animal e seu dono entendi um pouco mais o poema do Drumond:
cao

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas ainda tens um cão…

Interpretei a cena que vi como mais uma lição de que nosso olhar não deve focar as nossas vias-sacras e sim as ressurreições constantes que a vida nos oferece. Noites que se transformam em manhãs, invernos que se tornam primaveras, lagartas que se metamorfoseiam em borboletas… Ou um cãozinho, com seu olhar de amigo, que nos comprova o valor da lealdade. C. A. R. A.