Arquivo do mês: junho 2009

Prêmio Internacional de Poesia

Premio_Nosside

O Prêmio NÓSSIDE é um Projeto global  fundado em 1984 e dedicado à poetisa Nósside de Locri, do III séc. a.C.. Promovido pelo Centro Studi Bosio de Reggio Calabria e reconhecido pela UNESCO, por meio de seu programa Aliança Global UNESCO PARA A DIVERSIDADE CULTURAL

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XXV PRÊMIO NÓSSIDE
INTERNACIONAL – 2009
Plurilinguístico e Multimedial

Único Prêmio Global de Poesía
sem fronteiras de línguas e de formas de expressão
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Cinco línguas oficiais
(italiano, espanhol, inglês, francês, português)
e todas as outras línguas do mundo
(nacionais, originárias, minoritárias, dialetos)
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Poesia escrita, em vídeo e em música (Canção)

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Para o Vencedor Absoluto:
2.000 €uros e a Placa em prata, de Gerardo Sacco

Para cada um dos 4 Vencedores:
1.000 €uros e a Placa Nósside, de UmbertoBoccioni

Para cada uma dos 10 Mencionados Especiais:
600 €uros e a Placa Nósside, de Boccioni

Para cada um dos 20 Mencionados Distintos:
Medalha Nósside e Atestato

Três Poemas do Vencedor Absoluto e uma poesia de cada
Vencedor, Mencionado Especial, Mencionado Distinto e Mencionado
na Antologia Plurilinguística e Multimedial “Nósside 2009”

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O Prêmio Internacional Nósside, Plurilinguístico e Multimedial,  é o único concurso global de poesia para obras inéditas e jamais premiadas no mundo,  sem confins de línguas e de formas de comunicação e faz parte da Unesco World Poetry Directory.

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O prazo de incrição termina em 30 de junho. Regulamento e mais informações, clique aqui:

http://www.nosside.com/

Canção para Isabela, a pequenina

Recém-nascida

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxde Manoel da Andrade para Isabela

Isabela

Teus olhos,
abrem o mundo…
inauguram o destino…
Teu ser…
luz que escavou o ventre em busca do amanhecer,
é a véspera de toda ventura
o talvez de tudo
uma aurora retirada do mistério.

Passo a passo… e encantada…
ressurgiste na semente peregrina
caminhando como seiva palpitante.
Penetraste nos segredos da criatura
decifrando os idiomas do encanto.
Atravessaste as fronteiras do impasse
e de forma em forma, de reino em reino,
pelas fácies primordiais da vida,
gestada pelo código das espécies
pelo tempo imensurável dos enigmas
e por esse umbilical território da beleza… tu chegaste!

Retomas com o véu do esquecimento desterrando sombras
e anunciando a esperança.

E agora já és promessa e reencontro,
um botão se entreabrindo num parto de louvores
e assim… eis a rosa…
a rosa amanheci da
a flor… enfim…
a flor imprescindível.

Teus olhos
corolas cristalinas de ternura
âncoras da luz e do silêncio,
são retratos adormecidos de outras eras
sóis que acordarão novas primaveras
cantiga antecipada de lirismo
invadindo a aldeia da minha melancólica poesia.

Dádiva perfeita
viandante de todos os caminhos
filha milenar do tempo e das estrelas…
o meu amor apenas germinou teus passos
e construirá contigo um caminho para o sol.

Curitiba, esboçado em junho de 1980
e reescrito em junho de 2004
Do livro Cantares, Escrituras Editora, 2007
Ilustração: Cleto de Assis

Alfonsina Storni: a palavra debulhada em cinza

alfonsina1Alfonsina Storni nasceu em Sala Capriasca, Suíça, em 29 de maio de 1892. Imigrou com os seus pais para a província de San Juan na Argentina em 1896. Em 1901, muda-se para Rosario (Santa Fé), onde tem uma vida com muitas dificuldades financeiras. Trabalhou para o sustento da família como costureira, operária, atriz e professora.

Descobre-se portadora de câncer no seio em 1935. O suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, em 1937, abala-a profundamente.

Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto Voy a Dormir, que aqui reproduzimos.

Consta que suicidou-se andando para dentro do mar — o que foi poeticamente registrado na canção Alfonsina y el mar, gravada por Mercedes Sosa (veja abaixo). Seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938. Alfonsina tinha 46 anos. (extrato de Wikipédia)

Deixou dez livros de poesia, duas peças teatrais e um volume de ensaios. Toda sua obra reflete dramatismo, luta e uma audácia inusual para a época. Sua temática é, sobretudo, amorosa, feminista e profunda, onde se nota um caráter singular, muitas vezes marcado pela neurose.

Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido…

Vou dormir

Dentes de flores, touca de de orvalho,
mãos de ervas, tu, fâmula fina,
deixa-me prontos os lençóis terrosos
e o cobertor de musgos cardados.

Vou dormir, aia minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
uma constelação; a que mais gostes;
todas são boas; baixa-a um pouquinho.

Deixa-me só: ouves romper os brotos…
te nina um pé celeste lá de cima
e um pássaro te traça alguns compassos

para que esqueças… Obrigada. Ah, um encargo:
se ele novamente chamar por telefone
tu dirás que não insista, que eu saí…

passosNaAreia

¡Adiós!

Las cosas que mueren jamás resucitan,
las cosas que mueren no tornan jamás.
¡Se quiebran los vasos y el vidrio que queda
es polvo por siempre y por siempre será!

Cuando los capullos caen de la rama
dos veces seguidas no florecerán…
¡Las flores tronchadas por el viento impío
se agotan por siempre, por siempre jamás!

¡Los días que fueron, los días perdidos,
los días inertes ya no volverán!
¡Qué tristes las horas que se desgranaron
bajo el aletazo de la soledad!

¡Qué tristes las sombras, las sombras nefastas,
las sombras creadas por nuestra maldad!
¡Oh, las cosas idas, las cosas marchitas,
las cosas celestes que así se nos van!

¡Corazón… silencia!… ¡Cúbrete de llagas!…
¿de llagas infectas? ¡cúbrete de mal!…
¡Que todo el que llegue se muera al tocarte,
corazón maldito que inquietas mi afán!

¡Adiós para siempre mis dulzuras todas!
¡Adiós mi alegría llena de bondad!
¡Oh, las cosas muertas, las cosas marchitas,
las cosas celestes que no vuelven más! …

Adeus!

As coisas que morrem jamais ressuscitam,
as coisas que morrem não voltam jamais.
Quebram-se os vasos e o vidro que resta
é pó para sempre e por sempre será!

Quando os botões despencam dos ramos
duas vezes seguidas não florecerão…
As flores mutiladas pelo vento ímpio
se esvaem para sempre, jamais voltarão!

Os dias acabados, os dias perdidos,
os dias inertes não mais tornarão!
Que tristes as horas que se debulharam
sob os ásperos golpes da solidão!

Que tristes as sombras, as sombras nefastas,
as sombras criadas por nossa maldade!
Oh, as coisas idas, as coisas murchadas,
as coisas celestes que nos abandonam!

Coração… silencia!… Cobre-te de chagas!…
De chagas infectas? Cobre-te de mal!…
Que tudo o que chegue faleça ao tocar-te,
coração maldito que inquietas minha ânsia!

Adeus para sempre, ó delícias todas!
Adeus alegria plena de bondade!
Oh, as coisas mortas, as coisas murchadas,
as coisas celestes que não voltam mais! …

Alfonsina e o Mar

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Tradução e foto-grafismos: C. de A.

Poemas encadeados

Manoel de Andrade costuma dizer que não existem coincidências. Tudo estaria mais ou menos encadeado e grande parte dos eventos deste mundo estão programados em outra parte, aguardando apenas que possamos confirmá-los ou modifícar o fado, segundo nosso livre arbítrio. Mas há coincidências significativas, como a que ocorreu hoje.

Ao fazer um comentário sobre o poema Espera-me, de Konstantin Simonov (ver abaixo),  Deborah O’Lins de Barros lembrou que ele combinaria com Unchained Melody (Melodia desencadeada ou desacorrentada) , música de Alex North e letra de Hy Zaret, cantada por Elvis Presley.

E onde está a coincidência? Diz sua biografia: “Em 16 de Agosto de 1977, Elvis chega a Graceland (a casa onde vivia) alguns minutos após a zero hora. No portão há vários fãs, um deles é Robert Call, que tira uma foto de Elvis. A última foto de Elvis em vida. Às 15:30 deste mesmo dia Elvis é declarado morto vitíma de um ataque cardíaco. A necrópsia revelou a ingestão de oito ou mais drogas (entre outras, morfina, valium e valmid), responsáveis por sua morte“.

Mas onde está a coincidência? Primeiro na letra, que se assemelha ao tema de Simonov: um homem apaixonado que se vê distante da amada e lamenta essa distância. Vejam a letra, no inglês original, encadeada à tradução em português.

Elvis

xxxxxxUnchained Melody

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered for your touch,
xxxxEu tenho ansiado por seu toque,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto,
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxxEu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

xxxxxxxLonely rivers flow to the sea, to the sea,
xxxxRios solitários seguem para o mar, para o mar,
xxxxxxxTo the open arms of the sea.
xxxxPara os braços abertos do mar.
xxxxxxxLonely rivers sigh,
xxxxRios solitários suspiram,
xxxxxxxWait for me, wait for me,
xxxxEspere por mim, espere por mim,
xxxxxxxI’ll be coming home, wait for me.
xxxxEstarei chegando em casa, espere por mim.

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered, hungered for your love,
xxxxEu tenho ansiado, ansiado por seu amor,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by, so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto.
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxx
Eu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

Notaram a coincidência do espere por mim, por mim grifada? Segundo, porque foi uma das últimas músicas cantadas por Elvis Presley, em show realizado no dia 21 de junho de 1977. O que quer dizer que, no próximo domingo (21/06/2009), a última apresentação daquele concerto, com Unchained Melody – a mesma lembrada por Deborah – estará completando 22 anos.

Mas, ao contrário do que se divulga na Internet, aquele show não foi o último de Elvis. A última vez que ele pisou em um palco foi em Indianápolis,  no dia 26 de Junho de 1977, no Market Square Garden. Portanto, niver na próxima sexta-feira.

De qualquer maneira, junho é a grande coincidência. Não sei se Deborah lembrou a data (ele devia ser muito pequena, na ocasião), mas não deixa de ser significativa a lembrança da música tão próximo a esses aniversários. Abaixo, o vídeo daquela belíssima composição, que pode, de fato, como sugere Deborah, servir de fundo para Espera-me. A seguir, My Way, outra bela canção cantada por Elvis, também considerada a última apresentação do já mítico cantor. A maneira como Elvis encerra essa apresentação e se despede do público dá a impressão de que se trata, realmente, de uma last song. Vejam que ele repete o gesto de dar o seu cachecol branco para alguém do público. Parecia ser parte do roteiro, pois, na segunda música, um auxiliar de palco põe o cachecol no pescoço de Elvis, quando ele termina de cantar e se prepara para sair.

Convocamos os Sherloques da rede para irem atrás de mais informações.

Mas, como diz a televisão, vale a pena ver de novo, pois são duas belas e poéticas canções. Ah, é bom lembar que Unchained Melody foi composta por Alex North para um filme um tanto obscuro feito 1955 chamado também Unchained. E, em 1990, ressurgiu como tema de Ghost (Do Outro Lado da Vida), dirigido por Jerry Zucker e estrelado por Patrick Swayze, Demi Moore e Whoopi Goldberg.

Poema de amor e guerra

KSimonovKonstantin Simonov, poeta, escritor e dramaturgo russo, nasceu em novembro de 1915 na cidade de São Petersbugo (Petrogrado, de 1914 a 1924, e Leningrado, de 1924 a 1991). Em 1931 a sua família mudou-se para Moscou e  Konstantin começou a trabalhar como mecânico numa fábrica. Os primeiros poemas surgem nessa época, publicados em alguns jornais moscovitas. Entra para o Instituto Gorki de Literatura, interrompendo os estudos para cumprir serviço militar como correspondente de guerra. Escreve peças de teatro, romances, reportagens e livros de poemas inspirados na temática da guerra. Depois da guerra, ocupou alguns cargos importantes que abandonou para se dedicar por inteiro à sua obra. Morreu em Moscou no dia 28 de Agosto de 1979.

serova_1Espera por mim, de sua autoria, é um dos mais conhecidos poemas russos. Foi escrito em 1941, logo após a invasão de Hitler na Rússia. No verão daquele ano, Simonov tinha 25 anos e, apesar das suas origens aristocráticas, já era um bem sucedido poeta e dramaturgo soviético. Ele era apaixonado pela jovem atriz Valentina Serova. Quando Hitler atacou, Simonov recebeu ordens imediatas para avançar para a frente como correspondente de guerra. Valentina esteve com ele na estação.

O comboio da tropa levou-o para oeste, em direção à fronteira, como ele imaginava. Mas as tropas alemãs já haviam penetrado na Rússia e o trem nunca chegou a seu destino. Durante horas, Simonov foi exposto à brutal e caótica realidade da guerra. Simonv pensou que não iria sobreviver.

Simonov casou-se com Valentina em 1943. Mas não foram felizes, como poemas posteriores registraram. A personalidade volúvel de Valentina decepcionou Simonov e eles se separaram em 1957. Seus poemas subsequentes continuaram a história de um jovem homem exposto simultaneamente a todos os perigos da guerra, a uma paixão e, finalmente, a um infeliz caso de amor – e à súbita e dramática elevação como celebridade nacional.

O poema de Konstantin Simonov (em outras versões também intitulado Espera por mim) é aqui publicado por sugestão de nosso amigo e colaborador Manoel de Andrade.

Espera-me

xxxxxxxxxxxxxA Valentina Serova

EsperaPorMim
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…

Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!

Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!

xxxxxxxxxxxxxTradução de Hélio do Soveral

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helio do soveralHélio do Soveral Rodrigues de Oliveira Trigo, mais conhecido como Hélio do Soveral , nasceu em Setúbal, Portugal, em 1918, e faleceu a 21 de março de 2001, em Brasília.Foi radialista e escritor infanto-juvenil brasileiro. Hoje não é lembrado nem reconhecido, mas publicou dezenas de livros que se tornaram muito populares nas décadas de 1970 e 1980. É dele a tradução do poema Espera-me para o Português. Sua versão é provavelmente a melhor publicada em nossa língua.

Mais um depósito conquistado de Saramar

Do teu amor, que quisera meu

Beija-flor
Imprevista, os espelhos me mostram
outra mulher, deste teu amor iluminada.
E perdem meus pés, o chão,
passarinho pela casa em cantos desafinados
sem fala, sem medo, sem mais nada
senão o teu vôo riscando meu mundo
em rabiscos delicados de amor.

E sigo, brilhando sob o teu olhar
à quentura do teu beijo e o meu morno ventre
flor e o seu sol presos num instante
antes de todas as primaveras, atrasadas.

Enfim, em alva liberdade, sei e sabes
das palavras em lugar dos nomes
“minha amada”, meu amor
e da mímica dulcíssima de beijos
no silêncio azul das madrugadas.

___________

Ilustração: C. de A.

Renovação de depósito de Artur Alonso Novelhe, direto da Galícia

Intuito

IntuitoIlustração: C. de A., com uma ajudazinha de Francisco José de Goya y Lucientes

No prazer dos dias e das noites
procurei teu corpo

no perdido recanto da memória
achava tua sombra vigorosa

Ficava admirado a cada instante
que eles teu nome nunca adivinhassem

em cada fragrância,
em cada aroma estendido
como palma duma mão
que em milhares de rosas progredisse

estavas
sentada no mais amplo silencio,
contemplando os murmúrios do planeta

insinuando teus perfumes
a luz de todos os aconteceres,
clara e consciente

como quem conserva por dentro
aromas a feno, a cravo, loureiro,
num imenso campo, sempre a céu aberto

estavas
qual essas almas grandes que humildes se reconhecem
entre a paciência de quem aguarda
uma vida do inverno renascer
e a vertigem das palavras na boca do adulador,
falseadas por tanta soberba

Habitavam também
teus lábios frescos querendo apoderar-se
na lua clara de março
quando há quarto minguante,
do primeiro movimento, livre de rotação

ou do ocaso duma borboleta,
que três continentes atravessara,
antes mesmo de no vento ser parte
do candor mais suave, dos campos primaveris

aqueles que na tua pele escrevem segredos,
ou navegam florestas
nas que outros inventam mistérios
como veias que orvalham as fragas
para obter alguma lagrima aderida a sua folhagem

onde também limpa te encontras,
bem sei,
no local onde eu sempre aguardo
a chegada das noites
prazeres que em mim atrasas

com a esperança de que abra o espírito
aprenda ouvir, escute
e dentro de teus olhos meninos
possa ao final saborear,
por primeira e única vez, a essência do amanhecer…