Arquivo do mês: janeiro 2014

Meninas que escrevem em Curitiba

Convite

Sarau

O grupo “Meninas que escrevem em Curitiba” fará sua primeira apresentação poética neste domingo (Dia de Iemanjá), no agradável espaço do Restobar Dona Doida.

Dona_Doida

Este grupo tem um objetivo: aproximar e divulgar mulheres que exercitam o dom da escrita de alguma forma, em Curitiba, sendo já publicadas ou não.
Durante o sarau, as participantes lerão suas escrituras, algumas pela centésima, algumas pela primeira vez. E este será apenas o primeiro encontro, pois já somamos 80 mulheres na contagem inicial de adesões ao movimento.
Além da poesia, contaremos com a presença da Dona Kina, da Agendarte e com um prato especial, preparado pela chef Aline Tomaz, que estará disponível no cardápio do restaurante.

Quer saber quem somos? Venha conhecer nossa poesia. É pela letra e pela alma que diremos a que viemos.

Data: 02/02/14
Horário: a partir das 17 horas
Local: Restobar Dona Doida – Alameda Princesa Izabel, 704, Curitiba. 041 3029-5676.
Entrada: franca.

________________________

Roubado do FB

Solivan Brugnara

beber_oceanos

Quero ver
mar, estrelas, nebulosas,
qualquer imensidão.
Pastorear êxodos.
Cavalgar manadas.
Beber oceanos.

Morre mais um poeta

Quando morre um poeta, não creio que sua alma migre para qualquer lugar, paraísos, nirvanas, campos elíseos ou qualquer outro endereço. Acredito firmemente que sua alma permanece entre nós. Na obra que deixa, no registro de sua sensibilidade, na criatividade essencial para a formação da alma. Nesse sentido, podemos falar de uma alma imortal, de um espírito imanente ao seu legado literário. Assim também vale para todos os artistas e para todas as pessoas de quem possamos falar – que alma boa ela tem.

Há dois dias morreu um poeta mexicano, da mesma terra que já nos deu um Octavio Paz, um Carlos Fuentes, uma Sor Juana Inés de la Cruz e outros tantos de interminável lista, em todas as épocas da história do México pré e pós-colombiana. Sim, porque houve um Nezahuacóyotl, imperador, arquiteto e poeta asteca, a quem se atribuem vários poemas. (Na nota mexicana de 100 pesos está registrado uma de suas composições poéticas: Amo o canto do zenzontle / Pássaro de quatrocentas vozes, / Amo a cor do jade / E o enervante perfume das flores, / Porém mai amo a meu irmão, o homem) O poeta que nos deixou há pouco se chamava José Emilio Pacheco.

especiales_joseemiliopacheco2_624x351

Nascido em 30 de junho de 1939 e falecido em 26 de janeiro de 2014, José Emilio Pacheco pode ser considerado um artista completo e comprometido, que cultivou quase todos os gêneros literários, além de ter incursionado na edição e na direção de publicações de interesse cultural, tais como a revista Estaciones. Por outro lado, dedicou-se a traduzir diversas obras do inglês, de autores do porte de Oscar Wilde, T.S. Eliot, Samuel Becket e Tennessee Williams. Foi profesor em universidades de muitas partes do mundo, como nos Estados Unidos, Canadá e Grã Bretanha, além de seu país. Não bastasse, são notáveis seus aportes à pesquisa nos campos da antropologia e da história.

Seu trabalho foi sumamente reconhecido em várias oportunidades. Entre outros galardões, recebeu o Prêmio Cervantes (2009); o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2009); os prêmios José Donoso (2001), Octavio Paz (2003), Pablo Neruda (2004) e Ramón López Velarde (2003); o Prêmio Internacional Alfonso Reyes (2004); o José Asunción Silva (1996); o Xavier Villaurrutia (1973); o García Lorca (2005) e o Prêmio Alfonso Reyes, outorgado por El Colegio de México (2011).

Destacou-se pelo impecável uso da linguagem, a magistral destreza com a que plasmava em uma folha as imagens mais variadas e profundas, como é possível apreciar em seu poema “Ecuación de primer grado con una incógnita“. Entre seus livros publicados, encontramos os poemários “Los elementos de la noche” e “Desde entonces“, e as novelas “Morirás lejos” e “Las batallas en el desierto“. Seu poema Alta traición é talvez o mais célebre entre a juventude mexicana.

Carlos Monsiváis, seu compatriota e contemporâneo, assim se referiu sobre o estilo do escritor:

Carlos Monsivaes

Carlos Monsivaes

A paixão pela metáfora, a concentração em umas quantas linhas de um relato quase sempre pesaroso, o gosto pelos relatos inesperados, o desprendimento do poder de síntese, o exercício múltiplo da metáfora, o jogo de analogias como espelhos da devastação, o elogio jubiloso da paisagem. Em poesia, ajusta seus dons melancólicos, seu pessimismo que é resistência ao autoengano, sua fixação do lugar da crueldade no mundo, seu poderio aforístico.

Em  2010 deixou uma série de objetos na Caixa das Letras do Instituto Cervantes a serem abertos 100 anos depois, em 2110. No momento do depósito afirmou:

“Aqui o deixo para que quem abra isto em cem anos saiba quem fui, porque não creio que alguém recorde minha obra”.

Sua morte ocorreu em 26 de janeiro de 2014 devido a uma parada cardiorrespiratória.

(Fontes: Wikipédia e Poemas del Alma)

____________________

Ecuación de primer grado con una incógnita

En el último río
de la ciudad, por error
o incongruencia fantasmagórica, vi
de repente un pez casi muerto. Boqueaba
envenenado por el agua inmunda, letal
como el aire nuestro. Qué frenesí
el de sus labios redondos,
el cero móvil de su boca.
Tal vez la nada
o la palabra inexpresable,
la última voz
de la naturaleza en el valle.
Para él no había salvación
sino escoger entre dos formas de asfixia.
Y no me deja en paz la doble agonía,
el suplicio del agua y su habitante.
Su mirada doliente en mí,
su voluntad de ser escuchado,
su irrevocable sentencia.
Nunca sabré lo que intentaba decirme
el pez sin voz que sólo hablaba el idioma
omnipotente de nuestra madre la muerte.

peixe_agonizante

Equação de primeiro grau com uma incógnita

No último rio
da cidade, por erro
ou incongruência fantasmagórica, vi
de repente um peixe quase morto. Agonizava
envenenado pela agua imunda, letal
como o ar nosso. Que frenesi
o de seus lábios redondos,
o zero móvel de sua boca.
Talvez o nada
ou a palavra inexpressável,
a última voz
da natureza no vale.
Para ele não havia salvação
senão escolher entre duas formas de asfixia.
E não me deixa em paz a dupla agonia,
o suplício da água e seu habitante.
Seu olhar dorido em mim,
sua vontade de ser ouvido,
sua irrevogável sentença.
Nunca saberei o que tentava dizer-me
o peixe sem voz que somente falava o idioma
onipotente de nossa mãe, a morte.

Alta traición

No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos,
fortalezas,
una ciudad deshecha,
gris, monstruosa,
varias figuras de su historia,
montañas
(y tres o cuatro ríos).

Não amo meu país

Alta traição

Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstrato
é inapreensível.
Porém (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques de pinheiros,
fortalezas,
uma cidade desfeita,
gris, monstruosa,
várias figuras de sua história,
montanhas
(e três ou quatro rios).

Não vi a casa de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga

Gabriela Mistral, outra glória do Chile

Monumento a Gabriela Mistral, Monte Grande, Valle del Elqui, La Serena, no Chile

Monumento a Gabriela Mistral, Monte Grande, Valle del Elqui, La Serena, no Chile

Enganei-me ao fazer o roteiro de visita ao Chile. Tinha visto, na Internet, um Centro Cultural Gabriela Mistral e imaginei tratar-se de um memorial dedicado à ganhadora do Nobel de Literatura de 1945, primeiro a ser concedido a um escritor da América Latina. O Centro foi construído em 1972 para abrigar a sede da Terceira Conferencia Mundial de Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Terminada a conferência, o edifício foi transferido para o Ministério da Educação e passou a tomar o nome de “Centro Cultural Metropolitano Gabriela Mistral”. Um ano depois, porém, ocorreu o golpe militar liderado pelo General Augusto Pinochet. O Centro foi readaptado e passou a ser sede do governo militar, pois o Palácio de La Moneda foi bombardeado durante a tomada de poder. Em novembro de 2009 a presidente Michele Bachelet reinaugurou o centro, que passou a ser conhecido como Centro GAM, ou simplesmente GAM, com a finalidade de perpetuar a memória da poeta “e honrar seu nome e sua contribuição na conformação do patrimônio cultural do Chile e das letras hispano-americanas”. No entanto, quase nada existe na instituição, em forma material, que lembre Gabriela Mistral, nem mesmo uma placa ou efigie. O local é utilizado para exposições variadas e como um centro de convenções.

Mas existe, sim, uma casa dedicada a ela, em sua cidade natal. É o Museu Gabriela Mistral, no Chile, localizado na cidade de Vicuña, na região de Coquimbo, ao norte de Santiago. Infelizmente não pude conhecê-lo, desta vez. Mas reuni informações para os leitores do Banco da Poesia.

O museu mantém diversas exposições dedicadas a difundir a vida e a obra da poeta. A mostra permanente apresenta uma coleção de cerca de um mil e100 objetos pessoais da escritora. Uma biblioteca está aberta ao público, com um acervo de aproximadamente dois mil volumes, a maioria pertencente à coleção particular de Gabriela, anteriormente doados ao município para criar sua primeira biblioteca pública.

museoGM_21

Interior do Museu Gabriela Mistral

O museu possui duas salas especiais, a Albricias e a Lagar. Na primeira estão apresentadas, em forma didática, as principais obras da poeta e, na segunda, são realizadas atividades de extensão. Além disso, no interior do museu há uma réplica da casa onde nasceu Gabriela Mistral e um parque com espécies autóctones, como cactos, laranjeiras, chañares e palmeiras.

Vista externa do Museu

Vista externa do Museu

O Museu Gabriela Mistral foi aberto ao público em 18 de setembro de 1957, a poucos meses da morte da poeta, em Nova Iorque . Atualmente a administração do museu está em mãos de da Direção de Bibliotecas, Arquivos e Museus do Chile.

Em  setembro de 1971 foi inaugurado o atual edifício do museu, desenhado pelo arquiteto Oscar Mac-Clure. Em 2008, o museu recebeu uma importante doação, consistente em cerca de três mil objetos pessoais da poeta enviados dos Estados Unidos, que se encontravam em mãos de Doris Atkinson, testamenteira de Doris Dana, amiga íntima de Mistral.

Gabriela Mistral, que, na realidade, se chamava Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, nasceu em 7 de abril de 1889 e teve uma intensa atividade profissional, como educadora, diplomata, líder feminista e poeta, cuja obra é reconhecida em todo o mundo.

Para que quiser conhecer melhor sua biografia, aí vão alguns endereços:

http://es.wikipedia.org/wiki/Gabriela_Mistral

http://www.los-poetas.com/e/biomist.htm

http://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-3429.html

__________________________

Quatro poemas de Gabriela Mistral

LA CASA

La mesa, hijo, está tendida,
en blancura quieta de nata,
y en cuatro muros azulea,
dando relumbres, la cerámica.

Esta es la sal, éste el aceite
y al centro el Pan que casi habla.
Oro más lindo que oro del Pan
no está ni en fruta ni en retama,
y da su olor de espiga y horno
una dicha que nunca sacia.

Lo partimos, hijito, juntos,
con dedos duros y palma blanda,
y tú lo miras asombrado
de tierra negra que da flor blanca.

Baja la mano de comer,
que tu madre también la baja.

Los trigos, hijo, son del aire,
y son del sol y de la azada;
pero este pan “cara de Dios”
no llega a mesas de las casas;

y si otros niños no lo tienen,
mejor, mi hijo, no lo tocarás,
y no tomarlo mejor sería
con mano y mano avergonzadas.

* En Chile, el pueblo llama
al pan “cara de Dios.

La_Casa

A CASA

A mesa, filho, está posta,
em brancura quieta de nata,
e em quatro muros azuleja,
reluzindo, a cerâmica.

Este é o sal, este o óleo
e, ao centro, o Pão que quase fala.
Ouro mais lindo que ouro do Pão
não está nem em fruta nem em giesta,
e dá seu cheiro de espiga e forno
uma sorte que nunca sacia.

Partamo-lo, filhinho, juntos,
com dedos duros e palma branda,
e tu o olhas assombrado
de terra negra que dá flor branca.

Baixa a mão de comer,
que tua mãe também a baixa.

Os trigos, filho, são do ar,
e são do sol e da fornada;
mas este pão “face de Deus”*
não chega a mesas das casas;

e se outras crianças não o têm,
melhor, meu filho, não o tocarás,
e não tomá-lo melhor seria
com mão e mão envergonhadas.

* No Chile, o povo chama 
o pão como “face de Deus.”

Ausencia

Se va de ti mi cuerpo gota a gota.
Se va mi cara en un óleo sordo;
se van mis manos en azogue suelto;
se van mis pies en dos tiempos de polvo.

¡Se te va todo, se nos va todo!

Se va mi voz, que te hacía campana
cerrada a cuanto no somos nosotros.
Se van mis gestos que se devanaban,
en lanzaderas, debajo tus ojos.
Y se te va la mirada que entrega,
cuando te mira, el enebro y el olmo.

Me voy de ti con tus mismos alientos:
como humedad de tu cuerpo evaporo.
Me voy de ti con vigilia y con sueño,
y en tu recuerdo más fiel ya me borro.
Y en tu memoria me vuelvo como esos
que no nacieron ni en llanos ni en sotos.

Sangre sería y me fuese en las palmas
de tu labor, y en tu boca de mosto.
Tu entraña fuese, y sería quemada
en marchas tuyas que nunca más oigo,
¡y en tu pasión que retumba en la noche
como demencia de mares solos!

¡Se nos va todo, se nos va todo!

Ausencia

Ausência

Vai-se de ti meu corpo gota a gota.
Vai-se minha faca em um óleo surdo;
Vão-se minhas mãos em azougue solto;
Vão-se meus pés em dois tempos de polvo.

Vai-te tudo, se nos vai tudo!

Vai-se minha voz, que era para ti um sino
fechada a quanto não somos nós mesmos.
Vão-se meus gestos que se enrolavam
em lançadeiras, sob teus olhos.
E te vai o olhar que entrega,
quando te vê, o medronheiro e o olmo.

Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sonho,
e em tua lembrança mais fiel já me apago.
E em tua memória me torno como esses
não descendentes de planícies ou de bosques.

Sangue seria e me fora nas palmas
de teu labor, e em tua boca de mosto.
Tua entranha fosse, e seria queimada
em tuas marchas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite
como demência de solitários mares!

Vai-se-nos tudo, vai-se-nos tudo!

Adiós

En costa lejana
y en mar de Pasión,
dijimos adioses
sin decir adiós.
Y no fue verdad
la alucinación.
Ni tú la creíste
ni la creo yo ,
“y es cierto y no es cierto”
como en la canción.
Que yendo hacia el Sur
diciendo iba yo :
“Vamos hacia el mar
que devora al Sol”.
Y yendo hacia el Norte
decía tu voz:
«Vamos a ver juntos
donde se hace el Sol».
Ni por juego digas
o exageración
que nos separaron
tierra y mar, que son
ella, sueño y el
alucinación.
No te digas solo
ni pida tu voz
albergue para uno
al albergador.
Echarás la sombra
que siempre se echó,
morderás la duna
con paso de dos…
Para que ninguno,
ni hombre ni dios,
nos llame partidos
como luna y sol;
para que ni roca
ni viento errador,
ni río con vado
ni árbol sombreador,
aprendan y digan
mentira o error
del Sur y del Norte,
del uno y del dos!

ADIÓS

Adeus

Na costa distante
e no mar de Paixão,
dissemos adeuses
sem dizer adeus.
E não foi verdade
a alucinação.
Nem tu acreditaste
nem o cri eu ,
“e é certo e não é certo»
como na canção.
Que indo rumo ao Sul
dizendo ia eu :
“Vamos até o mar
que devora o Sol”.
E indo rumo ao Norte
dizia tua voz:
“Vamos ver juntos
onde se faz o Sol”.
Nem por brincadeira digas
ou exageração
que nos separaram
terra e mar, que são
ela, sonho e ele
alucinação.
Só não digas
nem peça tua voz
albergue para um
ao albergador.
Jogarás fora a sombra
que sempre se jogou,
morderás a duna
com passo de dois…
Para que ninguém,
nem homem nem deus,
nos chame partidos
como lua e sol;
para que nem rocha
nem vento errante,
nem rio com vau
nem árvore sombreadora,
aprendam e digam
mentira ou erro
do Sul e do Norte,
do um e do dois!

COSAS

A Max Daireaux

1
Amo las cosas que nunca tuve
con las otras que ya no tengo.

Yo toco un agua silenciosa,
parada en pastos friolentos,
que sin un viento tiritaba
en el huerto que era mi huerto.

La miro como la miraba;
me da un extraño pensamieto,
y juego, lenta, con esa agua
como con pez o con misterio.

2
Pienso en umbral donde dejé
pasos alegres que ya no llevo,
y en el umbral veo una llaga
llena de musgo y de silencio.

3
Me busco un verso que he perdido,
que a los siete años me dijeron.
Fue una mujer haciendo el pan
y yo su santa boca veo.

4
Viene un aroma roto en ráfagas;
soy muy dichosa si lo siento;
de tan delgado no es aroma,
siendo el olor de los almendros.

Me vuelve niños los sentidos;
le busco un nombre y no lo acierto,
y huelo el aire y los lugares
buscando almendros que no encuentro…

5
Un río suena siempre cerca.
Ha cuarenta años que lo siento.
Es canturía de mi sangre
o bien un ritmo que me dieron.

O el río Elqui de mi infancia
que me repecho y me vadeo.
Nunca lo pierdo; pecho a pecho,
como dos niños, nos tenemos.

6
Cuando sueño la Cordillera,
camino por desfiladeros,
y voy oyéndoles, sin tregua,
un silbo casi juramento.

7
Veo al remate del Pacífico
amoratado mi archipiélago
y de una isla me ha quedado
un olor acre de alción muerto…

8
Un dorso, un dorso grave y dulce,
remata el sueño que yo sueño.
Es el final de mi camino
y me descanso cuando llego.

Es tronco muerto o es mi padre
el vago dorso ceniciento.
Yo no pregunto, no lo turbo.
Me tiendo junto, callo y duermo.

9
Amo una piedra de Oaxaca
o Guatemala, a que me acerco,
roja y fija como mi cara
y cuya grieta da un aliento.

Al dormirme queda desnuda;
no sé por qué yo la volteo.
Y tal vez nunca la he tenido
y es mi sepulcro lo que veo…

Cordillera_cosas

COISAS

Para Max Daireaux

1
Amo as coisas que nunca tive
como as outras que já não tenho.

Eu toco uma água silenciosa,
parada em pastos friorentos,
que sem um vento tiritava
na horta que era minha horta.

A vejo como a via;
vem-me um estranho pensamento,
e brinco, lenta, com essa água
como com peixe ou com mistério.

2
Penso em umbral onde deixei
passos alegres que já não levo,
e no umbral vejo uma chaga
cheia de musgo e de silêncio.

3
Busco um verso que perdi,
que aos sete anos me disseram.
Foi uma mulher fazendo o pão
e eu sua santa boca vejo.

4
Vem um aroma rompido em rajadas;
sou muito venturosa se o sinto;
de tão delgado não é aroma,
sendo o odor das amendoeiras.

Tornam-se crianças meus sentidos;
busco um nome e não o acerto,
e cheiro o ar e os lugares
buscando amendoeiras que não encontro…

5
Um rio soa sempre perto.
Há quarenta anos que o sinto.
É cantoria de meu sangue
ou melhor um ritmo que me deram.

Ou o rio Elqui de minha infância
por onde eu subo e vadeio.
Nunca o perco; peito a peito,
como duas crianças, nos temos.

6
Quando sonho a Cordilheira,
caminho por desfiladeiros,
e vou ouvindo-lhes, sem trégua,
um silvo quase juramento.

7
Vejo no remate do Pacífico
da cor amora meu arquipélago
e de uma ilha me restou
um odor acre de martim-pescador morto…

8
Um dorso, um dorso grave e doce,
arremata o sonho que eu sonho.
É o final de meu caminho
e descanso quando chego.

É tronco morto ou é meu pai
o vago dorso cinzento.
Eu não pergunto, não o turbo.
Estendo-me junto, calo e durmo.

9
Amo uma pedra de Oaxaca
ou Guatemala, a que me acerco,
rubra e fixa como minha face
e cuja greta dá um alento.

Quando durmo fica desnuda;
não sei por que eu a volteio.
E talvez nunca a tenha tido
e é meu sepulcro o que vejo…

Versões ao Português e ilustrações de Cleto de Assis

_____________________

Ouça “La Casa” na voz da autora

Finalmente, a casa predileta

A casa … Não sei quando nasceu… Era a meio da tarde, chegamos a cavalo por aquelas solidões … Don Eladio ia adiante, vadeando o banhado de Córdoba que havia aumentado… Pela primeira vez senti como uma pontada este cheiro de inverno marinho, mescla de boldo e areia salgada, algas e cardos… Aqui, disse don Eladio Sobrino (navegante) e ali ficamos. Logo a casa foi crescendo, como a gente, como as árvores.

Manuscrito_isla_negra

Em 1937, de volta ao Chile, obrigado a sair da Espanha pela ocorrência da Guerra Civil Espanhola, Neruda procurava um lugar onde pudesse se dedicar a um novo projeto literário, uma obra portentosa que viria a se chamar Canto General (Canto Geral), na qual o poeta reuniu os mais diversos temas, usando vários gêneros e técnicas para contar e cantar a sua América Latina, no princípio – como na gênesis bíblica – puro paraíso, sem nomes e sem homens. Depois, revive a história humana da América Latina, que começa nos pináculos de Machu Pichu e se espraia pelo continente, primeiro em sua origem indígena, depois atropelada pelos conquistadores.

A sonhada tarefa, porém, somente foi concluída mais tarde, depois de longa peregrinação do poeta pelas rotas políticas de seu país. Na década seguinte ao início de construção da casa de Isla Negra, eleito senador e envolvido em intensa discussão política, que lhe valeram a cassação da função senatorial, Neruda sofreria grande perseguição política do governo do então presidente González Videla e foi obrigado até mesmo a sair do país, refugiando-se na Argentina.

Sua amada Matilde Urrutia, nas memórias que deixou (Minha vida com Pablo Neruda) relata que ele “havia sonhado e lutado toda a vida pela erradicação da pobreza; queria que em seu país houvesse justiça social, um pouco de igualdade. Colocou sua pena e sua vida a serviço desta causa nobre. Muitas vezes arriscou sua integridade física perseguido por González Videla, que considerávamos um tirano. É que não conhecíamos a tirania de fato. (…) Sempre animado, entusiasta, alegre, falando às massas, tentando despertar a consciência adormecida e fatalista dos pobres que se contentam com as esmolas do nada!” O poeta sofre com o que chamava de opressão dos povos latino-americanos e sua altissonância poética o leva a concluir a obra quase enciclopédica, formada por 15 seções e 231 poemas, finalmente publicada em 1950, no México.

Apesar de se voltar quase que inteiramente à saga dos povos latino-americanos, no final de seu Canto Geral Neruda assina a extensa obra falando sobre sua morte e deixa dois testamentos e disposições gerais, à guisa de um estatuto da América nerudiana.

Adquirida a casa do marinheiro espanhol, entre 1943 e 1945, e com a ajuda do arquiteto catalão Germán Rodríguez Arias, Neruda fez no novo refúgio uma série de ampliações. Quis domesticar o Pacífico, mas não conseguiu. Como já registrei em outro texto, ele um dia escreveu: “Não sei que fazer com ele, ele saía do mapa. Não sabia onde colocá-lo. Era tão grande, desordenado e azul que não cabia em nenhuma parte. Por isso o deixaram frente a minha janela”. Para não se desmentir, Neruda colocou janelas em quase todas as paredes que olham para o mar. Janelas que dominam todo o Pacífico que, por sua vez, domina a casa predileta do poeta.

mascaron-isla-negra

O início da construção da residência de Isla Negra foi acompanhada por Delia del Carril, que desfrutou-a intensamente. Já casado com Matilde Urrutia, Neruda fez ampliações na casa, em 1965, que tornaram ainda mais fantástico o poema de pedra e madeira que continuamente rearranjava.  Já na sala de estar foram colocadas carrancas, ou figuras de proa, adquiridas em várias do mundo. Duas medusas estão voltadas permanentemente para o Pacífico e, ainda, um grande chefe comanche, uma sereia e outras tantas figuras emblemáticas. Todas as figuras contam suas histórias, carregadas de amores e de enfrentamento de naufrágios e de lutas oceânicas. Quadros e mais quadros, alguns trecos que se transformaram em relíquias.

Living_isla_negra

Mascarones

Da sala de estar passamos aos demais ambientes, construídos à maneira do arquiteto de sonhos e de casas sonhadoras. Em meio à infinidade de objetos reunidos pelo colecionista descobrimos relíquias folclóricas doadas pelo amigo Jorge Amado, como a coleção de garrafas com areias coloridas das praias do Nordeste brasileiro e pequenas esculturas religiosas também engarrafadas. Coleções de cachimbos, de aparelhos náuticos, de esculturas da Ilha de Páscoa, o telescópio doado pela Embaixada da França que chegou a Isla Negra depois da morte do poeta, os bares, as louças, uma profusão de máscaras africanas e fotografias de seus ídolos, entre os quais Whitmann e Rimbaud.

Cama de Neruda, onde ele passou seus últimos dias de Isla Negra. Sobre a cabeceira, a ovelhinha de pano comprada na França, que lhe recordava a infância

Cama de Neruda, onde ele passou seus últimos dias de Isla Negra. Sobre a cabeceira, a ovelhinha de pano comprada na França, que lhe recordava a infância

Na parte íntima da casa, conservam-se roupas e objetos pessoais de Pablo e Matilde. A cama, de onde ditou os seus últimos textos. E, na extremidade da construção, que se alonga como o mapa do Chile, o seu escritório, onde guardava uma escrivaninha de madeira – única recordação que conseguiu conservar de seu pai. Em uma pequena sala contígua, o cavalo em tamanho natural, admirado pelo menino de Temuco e adquirido, anos mais tarde, quando o poeta recebeu a notícia de que o armazém que o mantinha como objeto de propaganda tinha se incendiado. (Neruda o levou, ainda chamuscado, para Isla Negra, e providenciou uma festa, na qual exigiu que os convidados levassem presentes para o cavalo, o que possibilitou uma completa restauração.) Ao final do conjunto, uma sala com a coleção do malacólogo amador Pablo Neruda – conchas recolhidas em várias partes do mundo e que foram classificadas, mais tarde, por especialistas.

O cavalo de Temuco, restaurado por presentes de amigos do poeta. Neruda dizia que era o único cavalo do mundo com rabo de três cores. A porta à esquerda, acima, é de um pequeno banheiro "só para homens" e decorado com postais eróticos antigos.

O cavalo de Temuco, restaurado por presentes de amigos do poeta. Neruda dizia que era o único cavalo do mundo com rabo de três cores. A porta à esquerda é de um pequeno banheiro “só para homens”, decorado com postais eróticos antigos.

Calcula-se que são mais de três mil e 500 objetos, ou coisas, como dizia o poeta, cobrindo todas os recintos da residência. Mas a variedade das coleções sempre tem cheiro de mar: “Eu sou um amador do mar, e há muito tempo coleciono conhecimentos que não me servem muito porque navego sobre a terra”.  Perguntado sobre sua especialização como colecionista, ele respondeu: “Sou ‘coisista’, gosto de colecionar coisas”…

No extremo sul da casa de Isla Negra, o escritório de Neruda. A mesa foi feita com uma porta de navio encontrada no mar. Sobre ela, utensílios de trabalho do poeta e a réplica da mão de Matilde, em bronze. Na parede à esquerda, uma escrivaninha que pertenceu a seu pai - único objeto paterno que conseguiu recuperar - e onde teria escrito o seu primeiro poema, dedicado a sua mãe.

No extremo sul da casa de Isla Negra, o escritório de Neruda. A mesa foi feita com uma porta de navio encontrada no mar. Sobre ela, utensílios de trabalho do poeta e a réplica da mão de Matilde, em bronze. Na parede à esquerda, uma escrivaninha que pertenceu a seu pai – único objeto paterno que conseguiu recuperar – e onde teria escrito seu primeiro poema, dedicado a sua mãe.

O escritório, visto da parte externa. Conta-se que foi por esta janela que o poeta teria avistado, boiando nas ondas, a porta de um navio que seria convertida em mesa de trabalho.

O escritório, visto da parte externa. Conta-se que foi por esta janela que o poeta teria avistado, boiando nas ondas, a porta de um navio que seria convertida em mesa de trabalho.

As maiores emoções são recolhidas no exterior, hoje transformado em santuário, desde que foram atendidas as disposições gerais do poeta: “Enterrai-me em Isla Negra…”. Numa espécie de castelo de proa natural, voltado para o oceano, foi construído um jardim onde repousam Pablo e Matilde, após o estranho trânsito de seu corpo por diversos cemitérios e laboratórios.

Neruda em um banco de pedra, voltado para o mar. Naquele momento ele não podia imaginar que bem à frente daquele banco seria colocado seu próprio túmulo, no qual a ele se juntaria, mais tarde, o corpo de Matilde.

Neruda em um banco de pedra, voltado para o mar. Naquele momento ele não podia imaginar que bem à frente daquele banco seria plantado seu próprio túmulo, no qual a ele se juntaria, mais tarde, o corpo de Matilde.

Túmulo de Pablo e Matilde, em Isla Negra

Túmulo de Pablo e Matilde, em Isla Negra

Da tumba do poeta e sua amada avista-se, altaneira, a casa idílica, a primeira a ser construída, a preferida, a que lhe recebeu em seus últimos dias e onde repousa com Matilde e o Oceano Pacífico.

Da tumba do poeta e sua amada avista-se, altaneira, a casa idílica, a primeira a ser construída, a preferida, a que lhe recebeu em seus últimos dias e perto da qual repousa com Matilde e o Oceano Pacífico.

Resta ao visitante menos preguiçoso uma visita às pedras e areias de Isla Negra, já fora dos limites da residência, hoje toda cercada por um muro de madeira. Como sei que o Oceano Pacífico não mudará sua forma nem sua força em razão de minha iconoclastia ambiental, guardei dois bons punhados de areia da praia do poeta para levar ao Brasil, com certeza de que tenho licença e a benção de Pablo Neruda. Uma troca justa, pois já contei que, na casa de Isla Negra, existem várias garrafas com areias de praias brasileiras.

Pelo portão de madeira Neruda tinha acesso à praia e às pedras que o protegiam do furor oceânico e, simultaneamente, emolduravam o mundo líquido que tanto amou. simultaneamente o l

Pelo portão de madeira Neruda tinha acesso à praia e às pedras que o protegiam do furor oceânico e, simultaneamente, emolduravam o mundo líquido que tanto amou. 

DSC01466

El hombre en el océano

*****

PoR QUE ISLA NEGRA?

Continua Neruda em sua narrativa do libro “Una casa en la arena”: “Don Eladio morreu, mais tarde. Era andaluz o capitão Sobrino. A última vez que veio nos ver cantou durante toda a tarde canções serranas e marinhas. No mesmo dia que deixou de cantar e navegar para sempre, subi em uma escada e, na grande escuna veleira pendurada sobre a lareira, escrevi seu nome em letras maiúsculas. Assim se chama ‘Eladio Sobrino’(…) sobre a lareira de pedra de Isla Negra navega ‘Don Eladio’. Que bem denominada foi!”

Eladio Sobrino, o primeiro proprietário de Isla Negra

Eladio Sobrino, o primeiro proprietário de Isla Negra

Antes de comprar uma pequena casa de pedra que havia sido construída por Eladio Sobrino, o marinheiro espanhol que, um dia, chegou ao sul do Chile, subiu por sua costa e estacionou seus sonhos de navegador em uma região ao sul de Valparaíso, mais propriamente na província de San Antonio, comuna, ou município de El Quisco. Ali montou residência e família, comprou terras e, em um de suas extensões, colocou o nome de Córdoba, em homenagem à cidade onde nascera. Mais tarde, construiu casinhas de veraneio e foi por uma delas que Neruda o procurou, quando o acesso à costa acidentada da região ainda era difícil.

A praia onde estava a casinha original se chamava Las Gaviotas (Gaivotas), mas a criatividade do poeta logo divisou uma grande pedra escura e passou a chamar o local de Isla Negra, que, de fato, não é ilha nem é negra. O meio ambiente não foi alterado. Ao contrário, o desenvolvimento da residência da Isla Negra deu paisagem mais encantadora ao terreno, uma elevação a poucos metros da praia cheia de pedras que retém os sargaços vindos do mar e com povoação permanente de ruidosas gaivotas. Sua areia é grossa e forma uma pequena praia, ao sul da residência. Em frente à casa, uma muralha de pedras a protege, como um dique natural que tenta acalmar o agitado mar do Pacífico.

Eladio Sobrino também passou a fazer parte da história local. Seus descendentes criaram uma fundação, com seu nome, destinada a trabalhar pela cultura da região. A partir da restauração da casa de Neruda, nos anos 80, todo o município teve rápido desenvolvimento, em razão de ter sido transformado em rota obrigatória dos turistas. E as iniciativas culturais se multiplicam, como foi o caso das bordadeiras protegidas por Neruda, que tiveram uma das filhas de Eladio Sobrino como principal articuladora de suas atividades.

_________________

El Mar

(de Memorial de Isla Negra)

Memorial_islanegra

Necesito del mar porque me enseña:
no sé si aprendo música o conciencia:
no sé si es ola sola o ser profundo
o sólo ronca voz o deslumbrante
suposición de peces y navios.
El hecho es que hasta cuando estoy dormido
de algún modo magnético circulo
en la universidad del oleaje.
No son sólo las conchas trituradas
como si algún planeta tembloroso
participara paulatina muerte,
no, del fragmento reconstruyo el día,
de una racha de sal la estalactita
y de una cucharada el dios inmenso.

Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire,
incesante viento, agua y arena.

Parece poco para el hombre joven
que aquí llegó a vivir con sus incendios,
y sin embargo el pulso que subía
y bajaba a su abismo,
el frío del azul que crepitaba,
el desmoronamiento de la estrella,
el tierno desplegarse de la ola
despilfarrando nieve con la espuma,
el poder quieto, allí, determinado
como un trono de piedra en lo profundo,
substituyó el recinto en que crecían
tristeza terca, amontonando olvido,
y cambió bruscamente mi existencia:
di mi adhesión al puro movimiento.

O Mar

Necessito do mar porque me ensina:
não sei se aprendo música ou consciência:
não sei se é onda só ou ser profundo
ou somente rouca voz ou deslumbrante
suposição de peixes e navios.
O fato é que até quando estou dormido
de algum modo magnético círculo
na universidade da ondulação.
Não são somente as conchas trituradas
como se algum trêmulo planeta
participara paulatina morte,
não, do fragmento reconstruo o dia,
de uma rajada de sal a estalactite
e de uma colherada o deus imenso.

O que antes me ensinou o guardo! É ar,
incessante vento, água e areia.

Parece pouco para o homem jovem
que aqui chegou a viver com seus incêndios,
e no entanto a pulsação que subia
e baixava a seu abismo,
o frio do azul que crepitava,
o desmoronamento da estrela,
o terno desdobra-se da onda
desperdiçando neve com a espuma,
o poder quieto, ali, determinado
como um trono de pedra no profundo,
substituiu o recinto em que cresciam
tristeza teimosa, amontoando esquecimento,
e mudou bruscamente minha existência:
de minha adesão ao puro movimento.

De Canto General

Capa_Canto_general

XXIII

LA MUERTE

He renacido muchas veces, desde el fondo
de estrellas derrotadas, reconstruyendo el hilo
de las eternidades que poblé con mis manos,
y ahora voy a morir, sin nada más, con tierra
sobre mi cuerpo, destinado a ser tierra.

No compré una parcela del cielo que vendían
los sacerdotes, ni acepté tinieblas
que el metafísico manufacturaba
para despreocupados poderosos.

Quiero estar en la muerte con los pobres
que no tuvieron tiempo de estudiarla,
mientras los apaleaban los que tienen
el cielo dividido y arreglado.

Tengo lista mi muerte, como un traje
que me espera, del color que amo,
de la extensión que busqué inútilmente,
de la profundidad que necesito.

Cuando el amor gastó su materia evidente
y la lucha desgrana sus martillos
en otras manos de agregada fuerza,
viene a borrar la muerte las señales
que fueron construyendo tus fronteras.

XXIII

A MORTE

Renasci muitas vezes, do fundo
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com terra
sobre meu corpo, destinado a ser terra.

Não comprei una parcela do céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.

Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo para estudá-la,
enquanto os golpeavam os que têm
o céu dividido e arrumado.

Tenho pronta minha morte, como um traje
que me espera, da cor que amo,
da extensão que busquei inutilmente,
da profundidade que necessito.

Quando o amor gastou sua matéria evidente
e a luta descaroça seus martelos
em outras mãos de agregada força,
vem apagar a morte os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.

XXIII

TESTAMENTO
(1)

Dejo a los sindicatos
del cobre, del carbón y del salitre
mi casa junto al mar de Isla Negra.
Quiero que allí reposen los maltratados hijos
de mi patria, saqueada por hachas y traidores,
desbaratada en su sagrada sangre,
consumida en volcánicos harapos.

Quiero que al limpio amor que recorriera
mi dominio, descansen los cansados,
se sienten a mi mesa los oscuros,
duerman sobre mi cama los heridos.

Hermano, ésta es mi casa, entra en el mundo
de flor marina y piedra constelada
que levanté luchando en mi pobreza.
Aquí nació el sonido en mi ventana
como en una creciente caracola
y luego estableció sus latitudes
en mi desordenada geología.

Tu vienes de abrasados corredores,
de túneles mordidos por el odio,
por el salto sulfúrico del viento:
aquí tienes la paz que te destino,
agua y espacio de mi oceanía.

XXIII

TESTAMENTO
(1)

Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar de Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados filhos
de minha pátria, saqueada por achas e traidores,
desbaratada em seu sagrado sangue,
consumida em vulcânicos farrapos.

Quero que ao limpo amor que recorrera
meu domínio, descansem os cansados,
sentem-se a minha mesa os obscuros,
durmam sobre minha cama os feridos.

Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que levantei lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como em um crescente caracol
e logo estabeleceu suas latitudes
em minha desordenada geologia.

Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço de minha oceania.

XXIV

TESTAMENTO
(2)

Dejo mis viejos libros, recogidos
en rincones del mundo, venerados
en su tipografía majestuosa,
a los nuevos poetas de América,
a los que un día
hilarán en el ronco telar interrumpido
las significaciones de mañana.

Ellos habrán nacido cuando el agreste puño
de leñadores muertos y mineros
haya dado una vida innumerable
para limpiar la catedral torcida,
el grano desquiciado, el filamento
que enredó nuestras ávidas llanuras.
Toquen ellos infierno, este pasado
que aplastó los diamantes, y defiendan
los mundos cereales de su canto,
lo que nació en el árbol del martirio.

Sobre los huesos de caciques, lejos
de nuestra herencia traicionada, en pleno
aire de pueblos que caminan solos,
ellos van a poblar el estatuto
de un largo sufrimiento victorioso.

Que amen como yo amé mi Manrique, mi Góngora,
mi Garcilaso, mi Quevedo:
fueron
titánicos guardianes, armaduras
de platino y nevada transparencia,
que me enseñaron el rigor, y busquen
en mi Lautréamont viejos lamentos
entre pestilenciales agonías.
Que en Maiakovsky vean cómo ascendió la estrella
y cómo de sus rayos nacieron las espigas.

XXIV

TESTAMENTO
(2)

Deixo meus velhos livros, recolhidos
em rincões do mundo, venerados
em sua tipografia majestosa,
aos novos poetas da América,
aos que um dia
fiarão no roufenho tear interrompido
os significados da amanhã.

Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos e mineiros
tenha dado uma vida inumerável
para limpar a catedral torcida,
o grão descomposto, o filamento
que enredou nossas ávidas planícies.
Toquem eles inferno, este passado
que aplastou os diamantes, e defendam
os mundos cereais de seu canto,
o que nasceu na árvore do martírio.

Sobre os ossos de caciques, distante
de nossa herança atraiçoada, em pleno
ar de povos que caminham sozinhos,
eles vão povoar o estatuto
de um longo sofrimento vitorioso.

Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora,
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram
titânicos guardiões, armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
em meu Lautréamont velhos lamentos
entre pestilenciais agonias.
Que em Maiakovsky vejam como ascendeu a estrela
e como de seus raios nasceram as espigas.

 XXIV

DISPOSICIONES

Compañeros, enterradme en Isla Negra,
frente al mar que conozco, a cada área rugosa
de piedras y de olas que mis ojos perdidos
no volverán a ver.
Cada día de océano
me trajo niebla o puros derrumbes de
turquesa,
o simple extensión, agua rectilínea, invariable,
lo que pedí, el espacio que devoró mi frente.

Cada paso enlutado de cormorán, el vuelo
de grandes aves grises que amaban el
invierno,
y cada tenebroso círculo de sargazo
y cada grave ola que sacude su frío,
y más aún, la tierra que un escondido herbario
secreto, hijo de brumas y de sales, roído
por el ácido viento, minúsculas corolas
de la costa pegadas a la infinita arena:
todas las llaves húmedas de la tierra marina
conocen cada estado de mi alegría,
saben
que allí quiero dormir entre los párpados
del mar y de la tierra . . .
Quiero ser arrastrado
hacia abajo en las lluvias que el salvaje
viento del mar combate y desmenuza,
y luego por los cauces subterráneos, seguir
hacia la primavera profunda que renace.

Abrid junto a mí el hueco de la que amo, y
un día
dajadla que otra vez me acompañe en la
tierra.

 XXIV

DISPOSIçõES

Companheiros, enterrai-me em Isla Negra,
frente ao mar que conheço, a cada área rugosa
de pedras e de ondas que meus olhos perdidos
não voltarão a ver.
Cada dia de oceano
trouxe-me névoa ou puros desmoronamentos de
turquesa,
ou simples extensão, água retilínea, invariável,
o que pedi, o espaço que devorou minha fronte.

Cada passo enlutado de cormorão, o voo
de grandes aves cinzentas que amavam o
inverno,
e cada tenebroso círculo de sargaço
e cada grave onda que sacode seu frio,
e mais ainda, a terra que um oculto herbário
secreto, filho de brumas y de sais, roído
pelo ácido vento, minúsculas corolas
da costa coladas à infinita areia:
todas as chaves úmidas da terra marinha
conhecem cada estado de minha alegria,
sabem
que ali quero dormir entre as pálpebras
do mar e da terra …
Quero ser arrastado
para baixo nas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e esmiúça,
e logo pelos leitos subterrâneos, seguir
até a primavera profunda que renasce.

Abri junto a mim a cova da que amo, e
um dia
deixai-a que outra vez me acompanhe na
terra.

Neruda_matilde_islanegra

*****

Versões ao Português de Ceto de Assis

Nova edição de “Canto General”, de Neruda

O livro e todos os seus manuscritos

Canto_geral_mercurio

O jornal O Mercurio, de Santiago do Chile, em sua edição dominical de 19 de janeiro de 2014, anuncia a edição do livro Canto General, de Pablo Neruda, em uma composição inédita: foram reunidos todos os manuscritos da obra do poeta, feitos a mão ou datilografados. O autor da proeza é o bibliófilo César Soto Gómez, que levou mais de 30 anos para coletar todos os documentos. O livro, escrito entre 1938 e 1949, traça uma saga da América Latina, a partir de sua natureza edênica, o desenvolvimento dos povos pré-colombianos até o tempo criticado pelo poeta, passando pela rota dos conquistadores espanhóis.

A edição, com 496 páginas, leva a chancela da Fundação Pablo Neruda e foi patrocinada pela Corporação Patrimônio Cultural do Chile e doação cultural de uma empresa privada. Na página de El Mercurio há uma foto curiosa: Neruda com barba e bigodes, característica que adotou no período em que sofria perseguição do governo de González Videla.

O próprio poeta define seu livro: “Levado pelo propósito de dar uma grande unidade ao mundo que eu queria expressar, escrevi meu livro mais fervente e mais vasto: Canto Geral”. E mais: “A ideia de um poema central que agrupasse as incidências históricas, as condições geográficas, a vida e a luta de nossos povos, a mim se apresentava como uma tarefa urgente”.

Mas coube ao crítico argentino Saúl Yukievich dar à obra uma sintética e, ao mesmo tempo, mais abrangente visão: “É, simultaneamente, cosmogênese, geografia, rito, crônica, panfleto, fabulação, conversa, sátira, autobiografia, rapto, alucinação, profecia, conjura, testamento”.

Além dos manuscritos, com correções feitas pelo poeta, o livro inclui matéria complementar, como anotações, esboços, ideias soltas e titubeios do autor em relação à estrutura da obra e de poemas que deveria ou não incluir. Finalmente, um apêndice iconográfico documenta a época em que Neruda escreveu o livro (como o disfarce de clandestino com bigodes e barba, em 1948), a visita a Machu Pichu em 1943, o abraço com o xará Picasso em 1949, e as fotos do lançamento de Canto Geral, no México, em 1950.

Visita a outra casa do poeta

LA SEBASTIANA, A CASA DE VALPARAÍSO

Comecemos com um poema de Pablo Neruda.

A ”LA SEBASTIANA”

Yo construí la casa.

La hice primero de aire.
Luego subí en el aire la bandera
y la dejé colgada
del firmamento, de la estrella, de
la claridad y de la oscuridad.

Cemento, hierro, vidrio,
eran la fábula,
valían más que el trigo y como el oro,
había que buscar y que vender,
y así llegó un camión:
bajaron sacos
y más sacos,
la torre se agarró a la tierra dura
— pero, no basta, dijo el constructor,
falta cemento, vidrio, fierro, puertas —,
y no dormí en la noche.

Pero crecía,
crecían las ventanas
y con poco,
con pegarle al papel y trabajar
y arremeterle con rodilla y hombro
iba a crecer hasta llegar a ser,
hasta poder mirar por la ventana,
y parecía que con tanto saco
pudiera tener techo y subiría
y se agarrara, al fin, de la bandera
que aún colgaba del cielo sus colores.

Me dediqué a las puertas más baratas,
a las que habían muerto
y habían sido echadas de sus casas,
puertas sin muro, rotas,
amontonadas en demoliciones,
puertas ya sin memoria,
sin recuerdo de llave,
y yo dije: “Venid
a mí, puertas perdidas:
os daré casa y muro
y mano que golpea,
oscilaréis de nuevo abriendo el alma,
custodiaréis el sueño de Matilde
con vuestras alas que volaron tanto.”

Entonces la  pintura
llegó también lamiendo las paredes,
las vistió de celeste y de rosado
para que se pusieran a bailar.
Así la torre baila,
cantan las escaleras y las puertas,
sube la casa hasta tocar el mástil,
pero falta dinero:
faltan clavos,
faltan aldabas, cerraduras, mármol.
Sin embargo, la casa
sigue subiendo
y algo pasa, un latido
circula en sus arterias:
es tal vez un serrucho que navega
como un pez en el agua de los sueños
o un martillo que pica
como alevoso cóndor carpintero
las tablas del pinar que pisaremos.

Algo pasa y la vida continúa.

La casa crece y habla,
se sostiene en sus pies,
tiene ropa colgada en un andamio,
y como por el mar la primavera
nadando como náyade marina
besa la arena de Valparaíso,
ya no pensemos más: ésta es la casa:
ya todo lo que falta será azul,
lo que ya necesita es florecer.

Y eso es trabajo de la primavera.

La Sebastiana_1

A ”LA SEBASTIANA”

Eu construí a casa.

A fiz primeiro de ar.
Logo subi no ar a bandeira
e a deixei pendurada
do firmamento, da estrela,
da claridade e da obscuridade.

Cimento, ferro, vidro,
eram uma fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
havia que buscar e que vender,
e assim chegou um caminhão:
baixaram sacos
e mais sacos,

a torre se agarrou à terra dura
— mas não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas —,
e não dormi naquela noite.

Porém crescia,
cresciam as janelas
e com pouco,
com colar-lhe ao papel e trabalhar
e arremessá-la com roldana e ombro
iria crescer até chegar a ser,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
pudesse ter teto e subiria
e se agarraria, por fim, à bandeira
que ainda pendurava do céus as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que tinham morrido
e haviam sido retiradas de suas casas,
portas sem muro, rotas,
amontoadas em demolições,
portas já sem memória,
sem lembrança de chave,
e eu disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
vos darei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
custodiareis o sono de Matilde
com vossas asas que voaram tanto.”

Então a  pintura
chegou também lambendo as paredes,
as vestiu de celeste e de rosado
para que se pusessem a dançar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas falta dinheiro:
faltam pregos,
faltam aldravas, fechaduras, mármore.
No entanto, a casa
segue subindo
e algo se passa, um pulsar
circula em suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como aleivoso condor carpinteiro
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo se passa e a vida continua.

A casa cresce e fala,
se sustenta em seus pés,
tem roupa pendurada em um andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como náiade marinha
beija a areia de Valparaíso,
Já não pensemos mais: esta é a casa:
já tudo o que falta será azul,
o que já necessita é florescer.

E isso é trabalho da primavera.

Logo à entrada, deparei-me com um pinheiro, parecido com a nossa araucária, da mesma família mas de outra espécie. É uma araucaria araucana, que nasce na Argentina e no Chile, na região andina. O nosso pinheiro é da espécie araucaria angustifolia.

Logo à entrada, deparei-me com um pinheiro, parecido com a nossa araucária, da mesma família mas de outra espécie. É uma araucaria araucana, que nasce na Argentina e no Chile, na região andina. O nosso pinheiro é da espécie araucaria angustifolia.

A casa de Neruda em Valparaíso passou a fazer parte de sua vida a partir de 1959, quando pediu a duas amigas que procurassem um lugar para ele morar naquela cidade litorânea, pois se sentia cansado de Santiago. “Quero achar em Valparaíso uma casinha para viver e escrever tranquilo. Tem que possuir algumas condições. Não pode ser muito acima nem muito abaixo. Deve ser solitária, mas não em excesso. Vizinhos, oxalá invisíveis. Não devem ver-se nem escutar-se. Original, mas não incômoda. Muito alada, porém firme. Nem muito grande, nem muito pequena. Longe de tudo, mas perto da mobilidade. Independente, mas com comércio perto. Além disso, tem que ser muito barata. Acreditas que posso encontrar uma casa assim em Santiago?”

Suas amigas tiveram alguma dificuldade para encontrar a casa certa, mas apareceu uma construção inacabada, iniciada por certo Sebastián Collado, espanhol de nascimento, situada numa ladeira do bairro Florida. Seu antigo proprietário tinha morrido em 1949 e a casa ficou abandonada por muito tempo.

Apesar de achar a casa muito grande, Neruda foi atraída por sua forma incomum. Propôs dividir a propriedade com uma das amigas que a havia encontrado – a escultora Marie Martner – e seu marido Francisco Velasco. O poeta ficaria com os andares terceiro e quarto mais a torre, com uma vista privilegiada para a baía de Valparaíso. As reformas e adaptações demoraram cerca de três anos. Neruda decorou a casa com fotos antigas do porto e um grande retrato de Walt Whitman. Um dos pedreiros contratados para a reforma perguntou se o velho barbudo da foto era o pai de Neruda, ao que ele respondeu: “Sim, na poesia”.

A mesa de trabalho do poeta,em La Sebastiana

A mesa de trabalho do poeta,em La Sebastiana

A casa de Valparaíso, como as demais, foi decorada como um verdadeiro museu e recebeu parte das coleções que o poeta recolheu durante sua vida. Ela contém mapas antigos, pinturas, garrafas coloridas recolhidas em várias partes do mundo. Como em todas as casas, cantinho reservado para o bar, sempre com ar de bar de navio, com pouco espaço atrás do balcão, lugar reservadíssimo para o proprietário.

O bar de La Sebastiana

O bar de La Sebastiana

O decreto pelo qual La sebastiana foi declarada Monumento Nacional, descreve que “o exterior da casa se caracteriza por possuir uma variedade de formas, cores e alturas, desenhos originados em ideias que Pablo Neruda teve para suas diversas partes, incorporando à vivenda elementos como janelas, escadas, claraboias, corrimãos, portas e quinquilharias, que foram outorgando qualidades únicas a cada espaço”.

Desta pequena janela, acima de sua mesa de trabalho, Neruda admirava o por de sol. Na parede, uma parte de sue poema Aves do Caribe.

Desta pequena janela, acima de sua mesa de trabalho, Neruda admirava o por de sol. Na parede, um fragmento de seu poema Aves do Caribe.

Las aves del Caribe

 En esta breve ráfaga sin hombres
a celebrar los pájaros convido,
el vencejo, veloz vela del viento,
la deslumbrante luz del tucusito,
el limpiacasa que bifurca el cielo,
para el garrapatero más sombrío
hasta que la sustancia del crepúsculo
teje el color del aguaitacaminos.
Oh, aves, piedras preciosas del Caribe,
quetzal, rayo nupcial del Paraíso,
pedrerías del aire en el follaje,
pájaros del relámpago amarillo
amasados con gotas de turquesa
y fuegos de desnudos cataclismos:
venid a mi pequeño canto humano,
turpial del agua, perdigón sencillo,
paraulatas de estilo milagroso,
chocorocay en tierra establecido,
mínimos saltarines de oro y aire,
tintora ultravioleta y cola de hilo,
gallo de rocas, pájaro paraguas,
compañeros, misteriosos amigos,
¿cómo la pluma superó a la flor?

Pájaro paraguas / pássaro guarda-chuvas

Pájaro paraguas / pássaro guarda-chuvas

Máscara de oro, carpintero invicto,
qué puedo hacer para cantar en medio
de Venezuela, junto a vuestros nidos,
fulgores del semáforo celeste,
martines pescadores del rocío,
si del Extremo Sur la voz opaca
tengo, y la voz de un corazón sombrío,
y no soy en la arena del Caribe
sino una piedra que llegó del frío?
¿Qué voy a hacer para cantar el canto,
el plumaje, la luz, el poderío
de lo que vi volando sin creerlo
o escuché sin creer haberlo oído?
Porque las garzas rojas me cruzaron:
iban volando como un rojo río
y contra el resplandor venezolano
del sol azul ardiendo en el zafiro
surgió como un eclipse la hermosura:
volaron estas aves desde el rito.
Si no viste el carmín del corocoro
volar en un enjambre suspendido
cuando corta la luz como guadaña
y todo el cielo vuela sacudido
y pasan los plumajes escarlata
y dejan un relámpago encendido,
si tú no viste el aire del Caribe
manando sangre sin que fuera herido,
no sabes la belleza de este mundo,
desconoces el mundo en que has vivido.
Y por eso es que cuento y es que canto
y por todos los hombres veo y vivo:
es mi deber contar lo que no sabes
y lo que sabes cantaré contigo:
tus ojos acompañan mis palabras
y se abren mis palabras en el trigo
y vuelan con las alas del Caribe
o se pelean con tus enemigos.
Tengo tantos deberes, compañero,
que me voy a otro tema y me despido.

Tucusito / colibri

Tucusito / colibri

As aves do Caribe

Nesta breve lufada sem homens
a celebrar os pássaros convido,
o andorinhão, veloz vela do vento,
a deslumbrante luz do colibri,
o rabo-branco-cinza-claro que bifurca o céu,
para o anú-preto mais sombrio
até que a substância do crepúsculo
tece a cor do bacurau.
Oh, aves, pedras preciosas do Caribe,
quetzal, raio nupcial do Paraíso,
pedrarias do ar na folhagem,
pássaros do relâmpago amarelo
amalgamados com gotas de turquesa
e fogos de desnudos cataclismos:
venham a meu pequeno canto humano,
turpial da água, simples perdigão,
caraxuê de estilo milagroso,
corruíra em terra estabelecida,
mínimos corrupiões de ouro e ar,
tintureiro ultravioleta e rabo de fio,
galo da rocha, pássaro guarda-chuva,
companheiros, misteriosos amigos,
como a pluma superou a flor?
Máscara de ouro, pica-pau invicto,
que posso fazer para cantar em meio
da Venezuela, junto a vossos ninhos,
fulgores do semáforo celeste,
martins-pescadores do sereno,
se do Extremo Sul a voz opaca
tenho, e a voz de um coração sombrio,
e não sou na areia do Caribe
senão uma pedra que chegou do frio?
Que vou fazer para cantar o canto,
a plumagem, a luz, o poderio
do que vi voando sem acreditar
ou escutei sem crer haver-lhe ouvido?
Porque as garças vermelhas me cruzaram:
iam voando como um rubro rio
e contra o resplendor venezuelano
do sol azul ardendo na safira
surgiu como um eclipse a formosura:
voaram estas aves desde o rito.

Corocoro / guará

Corocoro / guará

Se não viste o carmim do guará
voar em um enxame suspenso
quando corta a luz como uma foice
e todo o céu voa sacudido
e passam as plumagens escarlate
e deixam um relâmpago aceso,
se tu não viste o ar do Caribe
brotando sangue sem ter sido ferido,
não sabes a beleza deste mundo,
desconheces o mundo em que tens vivido.
E por isso é que conto e é que canto
e por todos os homens vejo e vivo:
é meu dever contar o que não sabes
e o que sabes cantarei contigo:
teus olhos acompanham minhas palavras
e se abrem minhas palavras no trigo
e voam com as asas do Caribe
ou lutam com teus inimigos.
Tenho tantos deveres, companheiro,
que passo a outro tema e me despeço.

Sala de estar do terceiro andar de La Sebastiana. A vaca de porcelana no centro da mesa era usada por Neruda para servir ponches a seus convidados.

Sala de estar do terceiro andar de La Sebastiana. A vaca de porcelana no centro da mesa era usada por Neruda para servir ponches a seus convidados.

Após o golpe de Pinochet, em 1973, La Sebastiana foi saqueada e restaurada somente em 1991. Na ocasião, foi comprada a parte dos amigos de Neruda que eram seus sócios na propriedade, o que possibilitou uma total restauração e ampliação do espaço, com criação de uma praça e de um centro cultural.

Despeço-me de Neruda, em sua praça de La Sebastiana, já a fazer planos para a visita a Isla Negra.

Despeço-me de Neruda, em sua praça de La Sebastiana, já a fazer planos para a visita a Isla Negra.