Arquivo do mês: julho 2009

O espólio de Fernando Pessoa

Ontem, 30.07.2009, foi aprovado pelo Conselho de Ministros de Portugal o decreto de classificação do Espólio Documental de Fernando Pessoa, tornando-o  bem de interesse nacional.

Na exposição de motivos encaminhada ao Ministro da Cultura, o diretor geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Jorge Couto, propôs a classificação do espólio como bem de interesse nacional ou Tesouro Nacional, “compreendido como a universalidade de fato composta por todos os documentos produzidos ou reunidos por Fernando Pessoa, seja na forma de manuscritos autógrafos, isolados ou integrados em documentos de terceiros, assinados ou não, de datiloscritos ou tiposcritos, com ou sem intervenção autógrafa, assinados ou não, bem como todos os documentos biográficos de Fernando Pessoa, assinados ou não, e os documentos impressos que se reconheça terem pertencido à sua biblioteca e ostentem marcas autógrafas de utilização pelo Poeta”.

O fato é importante porque, até há pouco tempo, o espólio literário de Fernando Pessoa, em sua maior parte por ele arquivado em um baú , em páginas manuscritas ou datilografadas e guardadas em envelopes sem nenhuma classificação ou ordem, estavam sob a guarda dos herdeiros de FP ou espalhado entre amigos ou estudiosos. Agora, além da guarda material, a Biblioteca nacional poderá estabelecer uma classificação mais rigorosa, apesar de ser difícil determinar datas de documentos que o poeta não datou e outros que não assinou.

A famisa arca de Fernando Pessoa. O móvel foi vendido, recentemente, em leilão, para um admirador desconhecido, por mais de 50 mil euros. Ao fundo, a estante delivros de sua biblioteca. Sobrepus as assinaturas dos princpais heterônimos, mais a dele mesmo e a de Alxader Searh, um semi=heterônimo de sua juventude.

A famosa arca de Fernando Pessoa. O móvel foi vendido, recentemente, em leilão, para um admirador desconhecido, por mais de 50 mil euros. Ao fundo, a estante de livros de sua biblioteca. Sobrepus as assinaturas dos principais heterônimos, mais a dele mesmo e a de Alexander Searh, um semi-heterônimo de sua juventude.

O conhecimento mundial em um clique


Biblioteca Digital Mundial

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lançou no último mês de abril a Biblioteca Digital Mundial, que permite consultar gratuitamente pela internet o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países, entre eles o Brasil.

Dezenas de milhares de livros, imagens, manuscritos, mapas, filmes e gravações de bibliotecas em todo o mundo foram digitalizados e traduzidos em diversas línguas para a abertura do site da Biblioteca Digital da Unesco (www.wdl.org). A nova biblioteca virtual terá sistemas de navegação e busca de documentos em sete línguas, entre elas o português, e oferece obras em várias outras línguas.

O mapa 'Uma descrição moderna e bastante precisa da América', feito por Diego Gutierrez em 1562, está no acervo da BDM (O Globo)

O mapa 'Uma descrição moderna e bastante precisa da América', feito por Diego Gutierrez em 1562, está no acervo da BDM (O Globo)

Entre os documentos, há tesouros culturais como a obra da literatura japonesa O Conde de Genji, do século 11, considerado um dos romances mais antigos do mundo, e também o primeiro mapa que menciona a América, de 1507, realizado pelo monge alemão Martin Waldseemueller e que se encontra na Biblioteca do Congresso estadunidense.

Entre outras preciosidades do novo site estão as primeiras fotografias da América Latina, que integram o acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, o maior manuscrito medieval do mundo, conhecido como a Bíblia do Diabo, do século 12, que pertence à Biblioteca Real de Estocolmo, na Suécia, e manuscritos científicos árabes da Biblioteca de Alexandria, no Egito.

Até o momento, o documento mais antigo da Biblioteca Digital da Unesco é uma pintura de oito mil anos com imagens de antílopes ensanguentados, que se encontra na África do Sul.

Manteremos o link da BDM em nossa página de Bibliotecas Digitais de Poesia.

Clique no logo abaixo e veja uma apresentação da BDM no Youtube

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Biblioteca Digital da Europa

LogoEuropeanaA biblioteca multimidia online da Europa, Europeana, está acessível desde o dia  20 de novembro de 2008. Por meio da Internet, podemos acessar a mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia. A biblioteca virtual conta com livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos Estados-membros, como, por exemplo, a Carta plana de parte da Costa do Brasil, um mapa de 1784 arquivado em Portugal.

Acessível em todas as línguas da UE, a biblioteca multimidia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objetos das suas coleções.

Segundo a Comissão Europeia, que lançou esta iniciativa em 2005, este é “apenas o começo”, pois a ideia é expandir a biblioteca, envolvendo também o setor privado, e o objetivo é que, em 2010, a Europeana dê acesso a pelo menos dez milhões de obras” representativas da riqueza da diversidade cultural da Europa. Ela terá zonas interativas, principalmente para comunidades com interesses especiais”.

“Com a Europeana, conciliamos a vantagem competitiva da Europa em matéria de tecnologias da comunicação e de redes com a riqueza do nosso patrimônio cultural. Os europeus poderão agora acessar com rapidez e facilidade, num único espaço, os formidáveis recursos das nossas grandes coleções”, comentou o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

Segundo dados da Comissão, já no início de seu funcionamento, no ano passado, foram registrados cerca de dez milhões de visitas por hora, o que fez cair o sistema e obrigou seus adminstradores a duplicar imediatamente a capacidade do portal.

Incluímos a Europeana em nossa página de Bibliotecas Digitais de Poesia.

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Vem lá de Angola

Conheci Vera Lúcia Kalahari por meio dos amigos J.B. Vidal e Manoel de Andrade. Disseram-me que ela, além de poeta, era uma agitada jornalista que se aventurava pelas terras da África e do Oriente Médio. Entrei em contato com ela pela Internet, mas sua resposta demorou a chegar, pois durante logo tempo ela esteve em lugares longínquos, onde nem sempre a modernidade da rede eletrônica está presente.

Dias atrás, recebi rápida comunicação, com a promessa de que maiores notícias logo viriam . E chegaram, em simpática mensagem na qual ela relembra amigos comuns brasileiros e aceita colaborar com o Banco da Poesia. Para sua estréia aqui, publicamos dois poemas seus.

Vera Lúcia Kalahari ou Vera Lúcia Pimentel Teixeira Carmona, jornalista, poeta e escritora portuguesa, nasceu no Namibe, em Angola. Trabalhou nos jornais “O País”, “O Dia” e “Diário de Notícias”, e nas revistas “África Hoje”, “Família Cristã”, “Gazeta das Aldeias” e “País Agrícola”. Foi também copywriter no Departamento Comercial da Rádio Renascença (Intervoz). Após alguns anos de dedicação à poesia e à literatura juvenil “refugiou-se” na aldeia de Sortelha, do conselho de Sabugal, onde, em ambiente pleno de serenidade e misticismo se inspirou para escrever o romance A Casa do Vento que Soa que concluiu recentemente. Terminou também a série juvenil Os Primos (O Diamante Real, O Incendiário Tenebroso, O Quadro Misterioso e O Enigma da Aldeia das Broas). Quem quiser conhecer melhor seus trabalhos, acesse http://infinito-kalahari.blogspot.com/

Bem vinda seja, Vera Lúcia!

Livre

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Ser livre…
Deixar para trás os meus desejos
e todos estes loucos preconceitos
e partir,
partir e ter o ensejo
de ser aquilo que não sou
e que sempre ansiei ser.
Poder caminhar sem um destino
como errante, pobre peregrino
tendo apenas como amigas as estrelas,
contando os meus sonhos só a elas.
Misturar-me com os negros nas sanzalas
comendo sem rodeios do seu pão,
ver dançar as chamas das fogueiras
e dormir na dureza duma esteira.
Poder saber por onde vou
e marcar a cada hora o meu dia
sem sentir a cada passo o grilhão
de se seguir apenas a razão.
Poder provar de cada fruto
que encontrasse nascendo nos pomares
e poder misturar-me com os miúdos
descalços, livres, vagabundos,
que vagueiam às portas dos casais
sem vãos temores e sem barreiras.
Por este vida simples mas verdadeira,
eu daria a minha vida só de incertezas
e todos os meus sonhos de grandeza.

Ilustração de Cleto de Assis

Ilustração de Cleto de Assis

Viagem

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Criei o meu mundo irreal e distante…
É lá que vivo, calma e sozinha,
isolada de tudo, no tempo que parou,
como se andasse pelos vales silentes da lua,
nas crateras d’algum astro ignorado,
nas vertigens dum meteoro
uu vagueasse nas paisagens submersas de Ís…
Não chegam lá o ruído, o movimento
dos mares e dos ventos, das cidades e dos campos.
Tudo é silencioso, calmo e sobrenatural,
na sombra do mistério que m’envolve e qu’esconde
como numa ilha de bruma, o meu mundo à parte…
Será terra? Ou céu? Ou mar? Ou astro? Ou nebulosa?
Não sei, não vejo, não sinto
o cenário impalpável e informe que me cerca.
Vivo em mim, tudo sou eu, em mim mesma…
só as minhas mãos estendidas, a minha boca muda,
meus cabelos esparsos que m’envolvem como algas,
como nuvens, e ocultam meus seios,
frementes d’amor, palpitantes e ardentes…
a ânsia duns braços num abraço sem fim…
Meu coração pulsando junto a outro, tão confundidos
como nosso hálito, nossa epiderme, nossas almas…
Tudo sou eu, nesse mundo que criei, perdido,
rolando pelo espaço, entre poeiras de astros,
turbilhões de estrelas, ondas de azul, harmonias…
O meu mundo fulgurante e longínquo
a milênios de luz da terra desprezível,
de onde sairei de mim, sozinha e forte
e pararei a vida, num instante imortal.

Aos avós de ontem, de hoje e de sempre

Avós de alguém, em alguma parte do mundo, encontrados na Internet

Avós de alguém, em alguma parte do mundo, encontrados na Internet

Hoje comemoramos o Dia dos Avós, marcado pela Igreja Católica por ser o dia consagrado a São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. Independentemente da religião de cada um, sempre é bom relembrarmos a importância dos avós no seio familiar, em geral a significar renovação de carinho e solidariedade. Quem tem pais e avós vivos tem três mães e três pais para lhe proteger. Alguém já disse que neto é um filho com açúcar. Assim, avós são pais com açúcar, chocolate, sorvete, atenção, proteção extra e cumplicidade. Em homenagem a todos os vovôs e vovós do planeta, publicamos uma música (Return to Innocence) do grupo Enigma, gravada em 1994. O grupo foi criado pelo romeno Michael Cretu e sua esposa, a cantora Sandra Lauer. A música faz parte do seu segundo álbum, The Cross of Changes.

O Retorno à Inocência (homenagem a meus avós)

O Retorno à Inocência (Return To Innocence )

Amor — devoção
Sentimento — emoção
Não tenha medo por ser fraco
Não tenha tanto orgulho por ser forte

Apenas olhe dentro de seu coração, meu amigo
Esse será o retorno a você mesmo
O retorno à inocência

Se você quer, então comece a rir
Se você deve, então comece a chorar
Seja você mesmo, não se esconda
Apenas acredite no destino

Não se importe com o que os outros dizem
Apenas siga seu próprio caminho
Não desista e use a chance
Para retornar à inocência

Esse não é o começo do fim
Esse é o retorno a você mesmo
O retorno à inocência

Cleto que leu Deborah, que leu Marina…

Deborah O’Lins de Barros (http://mocadeitadanagrama.blogspot.com/)
diz que se inspirou em Marina Colasanti para escrever seus minicontos.
Eu me inspirei em Deborah. Qual gordota inspirou Fernando Botero?

Lia

xxxxDeborah O’Lins de barros

Com medo de lembrar, ela lia. Viajava por histórias diferentes das suas.
Até que um dia, a desatenção a fez cochilar. Dormindo, sonhou com sua
própria história. Acordou arrependida, mas não quis ir a um padre se confessar
só para não ter que lembrar tudo de novo. E voltou para sua eterna leitura.

Botero – Mujer leyendo - 1998 - Óleo sobre tela - 48,26 x 37,46 cm

Botero – Mujer leyendo - 1998 - Óleo sobre tela - 48,26 x 37,46 cm

Lia

xxxxCleto de Assis

Ler e viajar nas leituras. Eis Lia, a ledora. E a Lia por outros lida? Liam-na a
outras lidas, bem menos livrescas, bem mais livres. Liaisons dangereuses.
Liames libidinosos. Estripulias. Depois, melancolias.

Coisas de Lia…

A Lua e o Dia do Amigo

O dia de hoje tem dois significados e uma só origem. Comemoranos os 40 anos da chegada do homem à Lua, nosso satélite, que cirandeia solitariamente em torno da Terra e, à diferença das luas de outros planetas, não tem nome. Só é Lua. Mas quanta beleza espalha pelo mundo terrenal, não só por sua luz refletida em várias fases, como também pela força de sua atração magnética, capaz de realizar o milagre das marés. E — dizem — influir na paixão dos enamorados ou na fúria dos lobisomens.

Também comemoramos o Dia do Amigo (já lembrei dele no post de Anair Weirich, abaixo). E o que tem uma coisa a ver com a outra?

Ocorre que o Dia do Aimgo foi idéia do argentino Enrique Ernesto Febbraro. Quando, em 20 de julho de 1969, ele testemunhou a viagem da Apolo 11, viu no fato não apenas a vitória da ciência e da tecnologia, mas a ampliação da solidariedade humana e a possibilidade de se fazer amigos em outras partes do Universo. De 1969 a 1970 ele divulgou, em toda a Argentina, o lema “Meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro”. O Dia do Amigo, no país vizinho, foi instituído por decreto governamental e passou a ser comemorado a partir de 1970.

A idéia foi difundida em todo o mundo e, hoje, quase todos os países comemoram o Dia do Amigo. No Brasil também, mas há quem defenda o dia 18 de abril como a data oficial dos brasileiros para o Dia do Amigo. Assim, 20 de julho seria apenas o Dia Internacional da Amizade. Faz alguma diferença? Afinal, Dia do Amigo não deveria ser todos os dias do ano? Ou os demais são apenas Dias dos Inimigos ou dos Mais ou Menos Amigos?

Para reforçar ainda mais a data e as duas comemorações, escolhi um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre a inquietação do homem, sempre aventurando-se em suas viagens, alargadoras de fronteiras do planeta e, a partir de 1969, do próprio Cosmos. Para os amigos, republico um poeminha de minha lavra, dedicado a um amigo que também não via há 40 anos.

O homem, as viagens

xxxxxxxxxxxxxxCarlos Drummond de Andrade
Ilustração: C. de A.

Ilustração: montagem de C. de A. - fotos recolhidas na Internet

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Amigos *

xxxxxxxxxxxxxxAo Manoel de Andrade, com a emoção do reencontro.
xxxxxxxxxxxxxxApós 40 anos de saudades.
xxxxxxxxxxxxxxO poema é de antes. A ilustração saiu agora do forno
xxxxxxxxxxxxxxda imaginação, com axmãozinha (ou mãozinhas…)
xxxxxxxxxxxxxxde Michelangelo.

xxxxxxxxxxxxxxCleto de Assis
Amigos1

Tem gente que a gente conhece e esquece.
Tem gente que é parte da gente e não merece.
Tem gente de todo tipo: perto da gente e tão longe,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxlonge da gente e bem perto.

Tem gente que ainda nem sabemos,
mas já deixou saudades.

Ai,ai, se eu pudesse escolher
esconderia a pouca gente que me deixa contente
no bolso de tesouros do piá que ainda corre dentro de mim
e que sempre pensou: ter amigos é a melhor coisa que existe.

xxxxxxxxxxxxxxCuritiba
xxxxxxxxxxxxxxJaneiro/2008
______________________
* Publicado anteriormente em Palavras, Todas Palavras

Atentai, senhoras e senhores de casacos quentes: há uma criança na rua

ATG01Armando Tejada Gómez nasceu em Mendoza, Argentina, no seio de uma família de trabalhadores rurais bastante pobre. Foi o penúltimo de 24 irmãos. Ficou órfão de pai, aos quatro anos, e sua mãe teve que dividir a família, colocando os filhos sob a guarda de parentes. Armando foi criado por uma tia, que se transformou em mãe e professora, ensinando-lhe a ler. Quase não frequentou a escola e começou a trabalhar aos seis anos como jornaleiro e, depois, como engraxate. Ele mesmo conta, de sua infância, que as outras crianças “não queriam brincar comigo, porque eu era a forma do pânico e da fome e da mais descarada miséria do mundo”.

Aos quinze anos comprou um exemplar de Martín Fierro (um poema narrativo de José Hernández, considerado exemplar do gênero gauchesco na Argentina e no Uruguai) que lhe despertou a paixão pela leitura e a poesia. Ao mesmo tempo, as injustiças sociais despertaram-lhe a inquietação e se tornou um ativista político.

Movimento do Novo Cancioneiro

Mais tarde, em 11 de fevereiro de 1963, no Círculo de Jornalistas de Mendoza, como integrante do trio Sosa-Matus-Tejada Gómez, associado a outros artistas como Eduardo Aragón e Tito Francia, participou da publicação do manifesto de fundação do Movimento do Novo Cancioneiro, que propõe a busca de uma música nacional de conteúdo popular, como um dos mais caros objetivos do povo argentino. Nesse contexto, o Manifesto questiona a falsa oposição tango-folclore. Sustenta, ainda, a necessidade de um cancioneiro integrado comum: há país para todo o cancioneiro. Somente falta integrar um cancioneiro para todo o país.

O MNC destaca, ainda, o auge que estava vivendo o folclore argentino e busca definir seu sentido: “Nós afirmamos que este ressurgimento da música popular nativa não é um fato circunstancial, mas uma tomada de consciência do povo argentino… Que não escamoteiem  esta tomada de consciência nem ao artista nem a seu povo, é o que propõe o Novo Cancioneiro”.

Nitidamente nacionalista, o movimento afirmou também defender “a integração da música popular na diversidade das expressões regionais do país… a participação da música típica popular e popular nativa nas demais artes populares… a recusa a todo regionalismo fechado…  a depuração de convencionalismos e tabus tradicionalistas sem concessões… a defesa do patrimônio musical… o descarte de toda produção grosseira e subalterna que, com finalidade mercantil, intente diminuir tanto a inteligência como a moral de nosso povo… a busca da comunicação, o diálogo e o intercâmbio com todos os artistas e movimentos similares do resto da América…”

Caminhada literária e musical

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

En 1950, Armando Tejada obteve um emprego como locutor na Rádio de Cuyo, que alternou com seu trabalho como operário de construção. Comecou a compor canções com o músico Oscar Matus, também de Mendoza e futuro esposo da cantora Mercedes Sosa. Essa seria uma longa sociedade que produziria canções como Los hombres del río, Coplera del viento, Tropero padre (inspirada em seu pai), entre muitas outras.

En 1954, ganhou o segundo prêmio no V Concurso Literário Municipal de Mendoza, por seu primeiro livro de poemas Pachamama: poemas de la tierra y el origen, dedicado a sua mãe e inspirado na cultura huarpe de seus ancestrais. Sobre a obra, o poeta disse ser uma “cosmogonía americana do Universo; entre os conselhos dos adultos e dos índios huarpes, dos quais eu provenho, e das reuniões de fogão, aprendi  a cultura americana, porque não frequentei escolas. Aprendi a voz popular em que acreditávamos”. O prêmio e a edição do livro (ilustrado por Carlos de la Mota), lhe deram considerável reconhecimento, que começou a alargar-se desde então. Em 1957 conquistou o prêmio do 75º Aniversário do jornal diário Los Andes, com o poema La verdadera muerte del compadre.

Foi perseguido na última etapa do governo peronista (1946-1955). Tejada Gómez se opunha às tendências autoritárias do peronismo e, mesmo admirando a Eva Perón, negou-se a aceitar a ordem de usar luto no momento de sua morte, em 1952. Em 1954, devido a uma reportagem sobre o pintor Juan Carlos Castagnino, que havia regressado da China, então imersa em sua revolução comunista, Tejada foi sumariamente despedido da rádio e proibido de continuar trabalhando como locutor. Também se proibiu mencionar seu nome quando eram tocadas suas canções.

En 1955, escreveu seu segundo livro Tonadas de la piel. A obra ganhou um concurso organizado por Gildo D’Accurzio, esforçado  homem de imprensa de Mendoza, obtendo como prêmio a edição do livro, qure recebeu prólogo do poeta saltenho Jaime Dávalos. Nesse mesmo ano, em setembro, um golpe de estado derrubou Perón e Tejada Gómez foi readmitido na rádio.

“Hay un niño en la calle”

Logo depois da derrubada de Perón, Tejada Gómez deu uma volta tanto em sua arte como em sua posição política. Ele contou várias vezes que o elemento detonante para a mudança em sua maneira de escrever foi um comentário crítico de seu irmão, operário de construção, que lhe mencionou que seus companheiros de trabalho diziam que ele “escrevia coisas que ninguém entendia”. O comentário influiu notavelmente em Tejada Gómez, que decidiu, então, orientar sua poesia aos problemas sociais e aos temas populares. Um dos primeiros poemas desta nova etapa foi seu conhecido Hay un niño en la calle, que reproduzimos aqui.

Hay un niño en la calle


A esta hora, exactamente,
hay un niño en la calle.

Le digo amor, me digo, recuerdo que yo andaba
con las primeras luces de mi sangre, vendiendo
un oscura vergüenza, la historia, el tiempo, diarios,
porque es cuando recuerdo también las presidencias,
urgentes abogados, conservadores, asco,
cuando subo a la vida juntando la inocencia,
mi niñez triturada por escasos centavos,
por la cantidad mínima de pagar la estadía
como un vagón de carga
y saber que a esta hora mi madre está esperando,
quiero decir, la madre del niño innumerable
que sale y nos pregunta con su rostro de madre:
qué han hecho de la vida,
dónde pondré la sangre,
qué haré con mi semilla si hay un niño en la calle.

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate,
transitar sus países de bandidos y tesoros
poniéndole una estrella en el sitio del hambre,
de otro modo es inútil ensayar en la tierra
la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale si hay un niño en la calle.

Dónde andarán los niños que venian conmigo
ganándose la vida por los cuatro costados,
porque en este camino de lo hostíl ferozmente
cayó el Toto de frente con su poquita sangre,
con sus ropas de fé, su dolor a pedazos
y ahora necesito saber cuáles sonríen
mi canción necesita saber si se han salvado,
porque sino es inutil mi juventud de música
y ha de dolerme mucho la primavera este año.

Importan dos maneras de concebir el mundo,
Una, salvarse solo,
arrojar ciegamente los demás de la balsa
y la otra,
un destino de salvarse con todos,
comprometer la vida hasta el último náufrago,
no dormir esta noche si hay un niño en la calle.

Exactamente ahora, si llueve en las ciudades,
si desciende la niebla como un sapo del aire
y el viento no es ninguna canción en las ventanas,
no debe andar el mundo con el amor descalzo
enarbolando un diario como un ala en la mano,
trepándose a los trenes, canjeándonos la risa,
golpeándonos el pecho con un ala cansada,
no debe andar la vida, recién nacida, a precio,
la niñez, arriesgada a una estrecha ganancia,
porque entonces las manos son dos fardos inútiles
y el corazón, apenas una mala palabra.

Cuando uno anda en los pueblos del país
o va en trenes por su geografía de silencio,
la patria sale a mirar al hombre con los niños desnudos
y a preguntar qué fecha corresponde a su hambre
que historia les concierne, qué lugar en el mapa,
porque uno Norte adentro y Sur adentro encuentra
la espalda escandalosa de las grandes ciudades
nutriéndose de trigo, vides, cañaverales
donde el azúcar sube como un junco en el aire,
uno encuentra la gente, los jornales escasos,
una sorda tarea de madres con horarios
y padres silenciosos molidos en la fábricas,
hay días que uno andando de madrugada encuentra
la intemperie dormida con un niño en los brazos.

Y uno recuerda nombres, anécdotas, señores
que en París han bebido
por la antigua belleza de Dios, sobre la balsa
en donde han sorprendido la soledad de frente
y la índole triste del hombre solitario,
en tanto, sus señoras, tienen angustia y cambian
de amantes esta noche, de médico esta tarde,
porque el tedio que llevan ya no cabe en el mundo
y ellos son los accionistas de los niños descalzos.

Ellos han olvidado
que hay un niño en la calle,
que hay millones de niños
que viven en la calle
y multitud de niños
que crecen en la calle.

A esta hora, exactamente,
hay un niño creciendo.

Yo lo veo apretando su corazón pequeño,
mirándonos a todos con sus ojos de fábula,
viene, sube hacia el hombre acumulando cosas,
un relámpago trunco le cruza la mirada,
porque nadie proteje esa vida que crece
y el amor se ha perdido
como un niño en la calle…

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Há uma criança na rua


Nesta hora, exatamente,
há uma criança na rua.

Digo-lhe,  amor, me digo, recordo que eu andava
com as primeiras luzes de meu sangue, vendendo
uma escura vergonha, a história, o tempo, jornais,
porque é quando recordo também as presidências,
urgentes advogados, conservadores, asco,
quando subo à vida juntando a inocência,
minha meninice triturada por escassos centavos,
pela quantidade mínima de pagar a estadia
como um vagão de carga
e saber que a esta hora minha mãe está esperando,
quero dizer, a mãe da criança inumerável
que sai e nos pergunta com seu rosto de mãe:
o que fizeram da vida,
onde porei o sangue,
que farei com minha semente se há uma criança na rua?

É dever dos homens proteger o que cresce,
cuidar que no haja infância dispersa pelas ruas,
evitar que naufrague seu coração de barco,
sua incrível aventura de pão e chocolate,
transitar seus países de bandidos e tesouros
colocando-lhe uma estrela no lugar da fome,
de outro modo é inútil ensaiar na terra
a alegria e o canto,
de outro modo és absurdo
porque de nada vale se há uma criança na rua.

Onde andarão as crianças que vinham comigo
ganhando a vida pelos quatro costados,
porque neste caminho do hostil ferozmente
caiu o Toto de frente com seu pouquinho sangue,
com suas roupas de fé, sua dor feita pedaços
e agora necessito saber quais sorriem
minha canção necessita saber se se salvaram,
porque senão é inútil minha juventude de música
e há de doer-me muito a primavera neste ano.

Importam duas maneiras de conceber o mundo,
uma, salvar-se sozinho,
empurrar cegamente os demais da balsa
e a outra,
um destino de salvar-se com todos,
comprometer a vida até o último náufrago,
não dormir esta noite se há uma criança na rua.

Exatamente agora, se chove nas cidades,
se desce a névoa como um sapo do ar
e o vento não é nenhuma canção nas janelas,
não deve andar o mundo com o amor descalço
ondeando um jornal como uma asa na mão,
subindo aos trens, trocando-nos o riso,
golpeando-nos o peito com uma asa cansada,
não deve andar a vida, recém nascida, a preço,
a meninice, arriscada a um estreito lucro,
porque então as mãos são dois fardos inúteis
e o coração, apenas uma má palavra.

Quando a gente anda nas cidades do país
ou vai por trens em sua geografia de silêncio,
a pátria sai a olhar o homem com as crianças desnudas
e a perguntar que data corresponde à sua fome
que história lhes diz respeito, que lugar no mapa,
porque a gente  do Norte adentro e do Sul adentro encontra
as costas escandalosas das grandes cidades
nutrindo-se de trigo, videiras, canaviais
onde o açúcar sobe como um junco no ar,
encontramos com as pessoas, os jornais escassos,
uma surda tarefa de mães com horários
e pais silenciosos moídos nas fábricas,
há dias que a gente, andando de madrugada, encontra
a intempérie adormecida com uma criança nos braços.

A gente recorda nomes, anedotas, senhores
que beberam em Paris
pela antiga beleza de Deus, sobre a balsa
onde surpreenderam a solidão de frente
e a índole triste do homem solitário,
no entanto, suas senhoras têm angústia e mudam
de amantes esta noite, de médico esta tarde,
porque o tédio que carregam já não cabe no mundo
e eles são os acionistas das crianças descalças.

Eles esqueceram
que há uma criança na rua,
que há milhões de crianças
que vivem na rua
e uma multidão de crianças
que crescem na rua.

A esta hora, exatamente,
há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
olhando-nos a todos com seus olhos de fábula,
vem, vai até o homem que acumula coisas,
um relâmpago truncado cruza seu olhar,
porque ninguém protege essa vida que cresce
e o amor se perdeu
como uma criança na rua…

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Versão em Português: Cleto de Assis
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