Arquivo do mês: novembro 2009

Mário Quintana: o Tempo é invenção da Morte

Ah! Os relógios


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida — a verdadeira —
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém — ao voltar a si da vida —
acaso lhes indaga que horas são…

De: A Cor do Invisível

__________

Ilustração: C. de A.

As visões poéticas de Emily Dickinson

Emily Dickinson nasceu em Amherst, Massachusetts, nos Estados Unidos da América do Norte, a 10 de Dezembro de 1830. Foi a segunda filha de Edward e Emily Norcross Dickinson.

Emily teve uma ótima formação escolar e chegou a cursar, durante um ano, o South Hadley Female Seminary. Abandonou o seminário após se recusar, publicamente, a declarar sua fé. Quando findou os estudos, Emily retornou à casa dos pais para deles cuidar, juntamente com a irmã Lavínia que, como ela, nunca se casou.

Em torno de Emily, construiu-se o mito acerca de sua personalidade solitária. Tanto que a denominavam de a “Grande Reclusa”. É importante que se diga que o comportamento de Emily era próprio do modelo feminino que imperava naquela parte dos EUA, à época. Emily deixou sua vida reclusa em raras vezes. Em toda sua vida, apenas fez viagens para a Filadélfia, para tratar de problemas de visão, outras duas para Washington e Boston. Foi numa destas viagens que Emily conheceu Charles Wadsworth e Thomas Wentworth Higginson, que teriam marcada influência em sua vida e inspiração poética.

Charles Wadsworth, um clérigo de 41 anos, conheceu Emily quando ela viajou à Filadélfia. Alguns críticos dizem que grande parte dos poemas de amor escritos por Emily dirigiam-se a ele. Mas quase tudo que se sabe sobre sua vida tem como fonte as correspondências que ela manteve com algumas pessoas, como Susan Dickinson, sua cunhada e vizinha. Colegas de escola, familiares e alguns intelectuais, como Samuel Bowles, o Dr. e a Sra. J. G. Holland, T. W. Higginson e Helen Hunt Jackson, também se corresponderam com ela. Nestas cartas, além de tecer comentários sobre a sua vida, também costumava remeter alguns poemas.

Por volta de 1858, Emily começou a confeccionar seus livros manuscritos e encadernados à mão, que ela chamava de fascículos. De1860 a 1870 sua produção foi intensa e chegou a compor centenas de poemas a cada ano. Em 1862, remeteu quatro poemas ao crítico Thomas Higginson que, por não compreender inteiramente sua poesia, aconselhou-a a não publicá-los.

A partir de 1864, já com problemas de visão, diminuiu um pouco o ritmo de seu trabalho literário. E, apesar de sua prolífica obra, Emily Dickinson, autora de cerca  de 1800 poemas e quase 1000 cartas, não chegou a a ver publicado nenhum livro , enquanto viveu. Há apenas registros de algumas publicações anônimas de alguns poemas. Toda a sua obra foi editada após sua morte, ocorrida em 15 de maio de 1886, na mesma cidade em que nasceu.

A edição crítica completa, , com 1775 poemas, foi organizada por Thomas H. Johnson e ocorreu somente em 1955, após a transferência de seu acervo para a Universidade de Harvard. Posteriormente acrescida de outros poemas, em 1999. Outra edição, feita em 1999, com 1769 poemas, foi organizada por R. W. Franklin.

A casa onde ela nasceu e viveu, construída por seus avós   Samuel Fowler e Lucretia Gunn Dickinson , que ficou conhecida como “The Homestead” (A Casa Rural) permanece aberta para visitação, no período de março a dezembro.

Segundo Augusto de Campos, um de seus tradutores para a língua portuguesa, a poesia de Emily Dickinson se aproxima, de certa forma, ao Hai-Kai: “Emily é muito sintética, seus poemas são, em geral, muito breves, e ela é capaz de captar um momento insubstituível de observação ou de reflexão poética com um mínimo de palavras. ‘Um romance num suspiro’, como disse Schoenberg a propósito de Webern. Seus poemas são pequenas ‘iluminações’. Mas não são poemas circunstanciais. São muito elaborados e ao mesmo tempo surpreendentes”.

Obras

  • Poems by Emily Dickinson – Organização de Mabel Loomis Todd & T. W. Higginson. Boston: Robert Brothers, 1890.
  • The poems of Emily Dickinson, 3 volumes. Organização de Thomas H. Johnson. Cambridge: The Belknap Press, Harvard University Press, 1955.
  • The letters of Emily Dickinson, 3 volumes. Organização de Thomas H. Johnson & Theodora Ward. Cambridge: The Belknap Press, Harvard University, 1958.
  • The complete poems of Emily Dickinson. Organização de Thomas H. Johnson. Boston e Toronto: Little, Brown and Company, 1960.
  • The manuscript books of Emily Dickinson, 2 volumes. Organização de R. W. Franklin. Cambridge e Londres: The Belknap Press, Harvard University Press, 1981.
  • The masters letters of Emily Dickinson. Organização de R. W. Franklin. Amherst: Amherst College Press, 1986.
  • The poems of Emily Dickinson. Organização de R. W. Franklin. Cambridge e Londres: The Belknap Press, Harvard University Press, 1999.

Alguns livros editados no Brasil

  • Poemas EscolhidosTrad. Ivo Cláudio Bender. L&PM Editores.
  • Um Livro de HorasTrad. Ângela Lago. Editora Scipione.
  • Não Sou NinguémTrad. Augusto de Campos. Editora Unicamp.
  • Alguns PoemasTrad. José Lira. Editora Iluminuras.

Alguns Poemas de Emily Dickinson

Tradução de João Ferreira Duarte, em “LEITURAS, poemas do inglês”, Relógio de Água, 1993

I

It was not Death, for I stood up,
And all the Dead, lie down —
It was not Night, for all the Bells
Put out their Tongues, for Noon.

It was not Frost, for on my Flesh
I felt Siroccos —rawl —
Nor Fire — for just my Marble feet
Could keep a Chancel, cool —

And yet, it tasted, like them all,
The Figures I have seen
Set orderly, for Burial,
Reminded me, of mine —

As if my life were shaven,
And fitted to a frame,
And could not breathe without a key,
And ‘twas like Midnight, some —

When everything that ticked — has stopped —
And Space stares all around —
Or Grisly frosts — first Autumn morns,
Repeal the Beating Ground —

But, most, like Chaos — Stopless — cool —
Without a Change, or Spar —
Or even a Report of Land —
To justify — Despair.

Não era a Morte, pois eu estava de pé
E todos os Mortos estão deitados —
Não era a Noite, pois todos os Sinos,
De Língua ao vento, tocavam ao Meio-Dia.

Não era a Geada, pois na minha Carne
Sentia Sirocos – rastejarem —
Nem Fogo — pois só por si os meus pés de Mármore
Podiam manter frio um Presbitério —

E contudo sabia a tudo isso ao mesmo tempo;
As Figuras que eu vi,
Preparadas para o Funeral,
Faziam-me lembrar a minha –

Como se me tivessem cortado a vida
E feito à medida de moldura,
E eu não pudesse respirar sem chave,
E foi um pouco como a Meia-Noite —

Quando todos os relógios — pararam —
E o Espaço olha à volta —
Ou Terríveis geadas — nas primeiras manhãs de Outono,
Revogam o Palpitante Solo —

Mas foi sobretudo com o Caos — frio — Sem-Fim —
Sem Ensejo nem Mastro —
Nem mesmo Novas de Terra —
A justificar — o Desespero.

II

Bloom — is Result — to meet a Flower
And casually glance
Would scarcely cause one to suspect
The minor Circumstance

Assisting in the Bright Affair
So intricately done
Then offered as a Butterfly
To the Meridian —

To pack the Bud — oppose the Worm —
Obtain its right of Dew —
Adjust the Heat — elude the Wind —
Escape the prowling Bee

Great Nature not to disappoint
Awaiting Her that Day —
To be a Flower, is profound
Responsibility —


Florescer — é Resultar — quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente
Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano —

Encher o Botão — opor-se ao Verme —
Obter o que de Orvalho tem direito —
Regular o Calor — escapar ao Vento —
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza
Que A espera nesse Dia —
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade —

III

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June* —
To an admiring Bog!

Eu sou Ninguém! E tu quem és?
Também tu és — Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar — sabes!

Como é aborrecido — ser — Alguém!
Como é público — qual rã —
Dizer-se o nome — Junho fora* —
A um Charco admirador!

* Com todo respeito ao tradutor, a frase assinalada parece soar melhor com outra versão, mais apropriada ao termo utilizado pela autora: “the livelong June”,  ou seja, “o interminável Junho” (C. de A.)

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Ilustrações: C. de A.

Vicente Gerbasi viaja a Petra

Petra

Petra, cinceladas fueron tus montañas de piedra multicolor,
y de tus montañas surgieron columnas,
escalinatas, viviendas, bancos, templos, panaderías.
En ti los siglos reverberan en el sol ardiente.
En ti la noche suena con aullidos de chacales.
En ti los aerolitos caen como serpentinas en un cementerio.
Tu Palacio de Justicia es una tumba.
Cada una de tus casas
perforaradas en los colores es una tumba.
Petra, eres un cráneo de piedra abierto al azul caliente.
Petra, eres semejante a la tumba de la muerte.
Tus aposentos, tus cocinas, tus columnas, tus estatuas
siguen muriendose en tu imantada intemperie.
(Viajero, si vas a Petra,
cuidate de la muerte.)

En Petra está muerto el tiempo.

Petra, cinzeladas foram tuas montanhas de pedra multicor,
e de tuas montanhas surgiram colunas,
escadarias, vivendas, bancos, templos, padarias.
Em ti os séculos reverberam no sol ardente.
Em ti a noite soa com uivos de chacais.
Em ti os aerólitos caem como serpentinas em um cemitério.
Teu Palácio da Justiça é uma tumba.
Cada uma de tuas casas
perfuraradas nas cores é uma tumba.
Petra, és um crânio de pedra aberto ao azul escaldante.
Petra, és semelhante à tumba da morte.
Teus aposentos, tuas cozinhas, tuas colunas, tuas estátuas
continuam a morrer em tua imantada intempérie.
(Viajante, se vais a Petra,
cuida-te da morte.)

Em Petra está morto o tempo.

Do livro De Otras Geografías, em Los Colores Ocultos. Caracas: Monte Avila Editores, 1985

Ler mais Gerbasi aqui.

Tradução e ilustração: C. de A.

Artur Alonso faz um depósito, bucolicamente

Bucólico


seria muito pedir ser em ti o último

com tantas pedras a cair
tantos sapatos nos caminhos
que se deitam

e a morte que não recupera razões
pelos séculos dos séculos

seria muito pedir uma tarde
só para mim
na que estivesses atenta

ao boiar do rio no berço
de teu ventre,
ao nadar da folha
na lágrima da tua pupila cheia
com esmeraldas frescas

e ser feliz como algo simples
tal o suor na humanidade
da sombra dum salgueiro
triste

amor
contra caminhos ainda por descobrir,
feitos pela lama, o pó, o pé que pisa
ruídas cerimônias invisíveis

seria muito pedir
ganhar, contigo, um dia ao impossível…

Ilustração: C. de A.

O atualíssimo Gregório de Matos

Poeta barroco brasileiro, Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador/BA, em 23/12/1636, embora alguns biógrafos digam que seu natalício é março de 1623.  Morreu no Recife/PE, em 1696. Estudou em Portugal e foi contemporâneo do Pe. Antônio Vieira. Amado e odiado, é conhecido por muitos como Boca do Inferno ou Boca de Brasa, em função de suas poesias satíricas, muitas vezes trabalhando o chulo em violentos ataques pessoais. Influenciado pela estética, estilo e sintaxe de Gôngora e Quevedo, é considerado o verdadeiro iniciador da literatura brasileira.

Sua poesia faz crítica mordaz da sociedade da época, distante de nós mais de 330 anos. Mas nota-se muita semelhança entre o que criticava e os costumes (princpalmente os políticos) de nossa atualidade. (C. de A.)

Cronologia da vida de Gregório de Matos e Guerra

1636 – A data comumente aceita para o nascimento de Gregório de Matos e Guerra é a
de 23 de dezembro de 1636, mas alguns biógrafos podem apresentar a possibilidade de
ter ocorrido em março de 1623. O poeta nasceu em Salvador, Bahia, e era filho de Gregório de Matos (natural de Guimarães, Portugal) com Maria da Guerra. Os Matos da Bahia eram uma família abastada, formada por proprietários rurais, donos de engenhos, empreiteiros e funcionários da administração da colônia.

1642 – Devido à condição financeira de sua família, Gregório teve acesso ao que havia
de melhor em educação na época e pôde estudar no Colégio dos Jesuítas, em Salvador.

1650 – Viaja para Portugal, onde irá completar seus estudos.

1652 – Ingressa na Universidade de Coimbra.

1661 – Formatura em Direito. Nesse mesmo ano, casa-se com D. Michaela de Andrade,
proveniente de uma família de magistrados.

1663 – É nomeado Juiz de Fora de Alcácer do Sal, Alentejo, por D. Afonso VI.

1665-66 – Exerce a função de Provedor da Santa Casa de Misericórdia no mesmo local.

1668 – No dia 27 de janeiro é investido da incumbência de representar a Bahia nas Cortes,
em Lisboa.

1671 – Assume o cargo de Juiz do Cível, em Lisboa.

1672 – Torna-se Procurador da Bahia em Lisboa por indicação do Senado da Câmara.

1674 – Novamente representante da Bahia nas Cortes, em Lisboa. Nesse mesmo ano, é destituído da Procuradoria da Bahia e batiza uma filha natural, chamada Francisca, na Freguesia de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa.

1678 – Fica viúvo de D. Michaela com quem sabe-se que teve um filho do qual não há registros históricos.

1679 – É nomeado Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia.

1681 – Recebe as Ordens Menores, tornando-se clérigo tonsurado.

1682 – É nomeado Tesoureiro-Mor da Sé, por D. Pedro II. Como magistrado de renome, tem sentenças de sua autoria publicadas pelo jurisconsulto Emanuel Alvarez Pegas. Isto viria a acontecer novamente em 1685.

1683 – No início do ano, depois de 32 anos em Portugal, está de volta a Bahia, Brasil. Meses após seu retorno, é destituído de seus cargos eclesiásticos pelo Arcebispo D. Fr. João da Madre de Deus, por se recusar a usar batina e também por não acatar a imposição das Ordens maiores obrigatórias para o exercício de suas funções. É nessa época que surge o poeta satírico, o cronista dos costumes de toda a sociedade baiana. Ridiculariza impiedosamente autoridades civis e religiosas.

1685 – É denunciado à Inquisição, em Lisboa, por seus hábitos de “homem solto sem modo de cristão”.

168(?) – Ainda na década de 1680, casa-se com Maria de Póvoas (ou “dos Povos”). Desta união, nasce um filho chamado Gonçalo.

1691 – É admitido como Irmão da Santa Casa de Misericórdia da Bahia.

1692 – Paga uma dívida em dinheiro à Santa Casa de Lisboa.

1694 – Seus poemas satíricos contra o Governador Antonio Luiz Gonçalves da Câmara Coutinho faz com os filhos deste o ameacem de morte. O Governador João de Alencastro, amigo de Gregório, e outros companheiros do poeta armam uma forma de prendê-lo e enviá-lo à força para Angola, sem direito a voltar para a Bahia. Isto causa profundo desgosto a Gregório. Ainda nesse mesmo ano, envolve-se em uma conspiração de militares portugueses. Interferindo neste conflito, Gregório colabora com a prisão dos cabeças da revolta e tem como prêmio seu retorno ao Brasil.

1695 – Retorna para o Brasil e vai para o Recife, longe de seus desafetos na Bahia. Morre no dia 26 de novembro, antes de completar 59 anos, de uma febre contraída em Angola.

Poemas de Gregório de Matos

Queixa-se o poeta em que o mundo vai errado e, querendo emendá-lo, o tem por empresa dificultosa

Carregado de mim ando no mundo,
e o grande peso embarga-me as passadas,
que como ando por vias desusadas,
haço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
que as bestas andam juntas mais ornadas,
do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
erra, quem presumir, que sabe tudo,
se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
que é melhor neste mundo o mar de enganos
ser louco cos demais, que ser sisudo.

Disparates na lingua brazilica a huma cunhãa, que ali galanteava por vicio

1.

Indo à caça de tatus
encontrei Quatimondé
na cova de um Jacaré
tragando treze Teiús:
eis que dous Surucucus
como dous Jaratacacas
vi vir atrás de umas Pacas,
e a não ser um Preá
creio, que o Tamanduá
não escapa às Gebiracas.

2.

De massa um tapiti,
um cofo de Sururus,
dous puçás de Baiacus,
Samburá de Murici:
Com uma raiz de aipi
vos envio de Passé,
e enfiado num imbé
Guiamu, e Caiaganga,
que são de Jacaracanga
Bagre, timbó, Inhapupê.

3.

Minha rica Cumari,
minha bela Camboatá
como assim de Pirajá
me desprezas tapiti:
não vedes, que murici
sou desses olhos timbó
amante mais que um cipó
desprezado Inhapupê,
pois se eu fora Zabelê
vos mandara um Miraró.

Epílogos

Que falta nesta cidade?… Verdade
Que mais por sua desonra?… Honra
Falta mais que se lhe ponha… Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?… Negócio
Quem causa tal perdição?… Ambição

E o maior desta loucura?… Usura.

Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?… Pretos
Tem outros bens mais maciços?… Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?… Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos

Quem faz os círios mesquinhos?… Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?… Guardas
Quem as tem nos aposentos?… Sargentos

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos

E que justiça a resguarda?… Bastarda
É grátis distribuída?… Vendida
Que tem, que a todos assusta?…Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?…. Simonia
E pelos membros da Igreja?… Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?… Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?… Freiras
Em que ocupam os serões?… Sermões
Não se ocupam em disputas?… Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?… Baixou
E o dinheiro se extinguiu?… Subiu
Logo já convalesceu?… Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?… Não pode
Pois não tem todo o poder?… Não quer
É que o governo a convence?… Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Glossário

xxxxxSocrócio – aperto, ambição; furto.
xxxxxCírios – sacos de farinha (a grafia correta é sírios)
xxxxxSimonia – venda de coisas sagradas.
xxxxxUnha – roubalheira; avareza; tirania, opressão.
xxxxxSazonada caramunha – Experimentada lamentação! (Soares Amora).
xxxxxA expressão tem sentido ambíguo. Sazonada é derivado de sazonar
xxxxxe equivale a amadurecida. Caramunha pode ser “a cara das crianças
xxxxxquando choram” ou a “lástima pelo próprio mal que se causou”.
xxxxxManqueiras – Vícios, defeitos; doença infecciosa no homem e em
xxxxxcertos animais.

Descreve o que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa


A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
odos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.

O editor deste blog não resistiu à semelhança de costumes e fez uma paródia do soneto, dedicada a uma outra urbe brasileira famosa


A cada canto um probo deputado,
ou senadores com suas palavrinhas,
Não sabem dirigir suas cozinhas,
Mas querem governar por atacado.

Em cada porta um vivo araponga,
Que a vida do caseiro e do ministro
Revolve, escuta, espreita, faz registro,
Em prol do chefe, cheio de candonga.

Há assessores desavergonhados,
Deitados aos pés do homem nobre,
Tentando alcançar sua braguilha.

Dizem lutar pelos desgraçados,
eleitos, esquecem do mais pobre,
E eis aqui a cidade de Brasília.

(C. de A.)

A Criança é Pai do Homem?

 

“A infância deixa rastros em nossa memória, como sulcos num rosto ou num campo lavrado”.

A frase é do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850), que gerou outro belo achado: “A criança é pai do homem”, registrado por muitos como de autoria de Sigmund Freud, mas que teria apenas sido por ele citado em seus trapalhos de psicologia.

Na verdade, somos o que fomos. Nada existe em nossa vida adulta – nossos sentimentos, nosso caráter, nossas aptidões, nossos medos, nosso relacionamento social – que não tenha sido estruturado nos primeiros anos de vida. É por isso que é preciso dar importância primordial à Educação, tanto na fase familiar como no prosseguimento escolar e social.

Mas quando pensamos profundamente nas crianças que fomos, para poder entender os adultos que somos?

Fernando Pessoa pensou nisso com lamentação, em uma composição de dois sonetos e uma quadra. Vale a pena ler seus versos, em homenagem ao Dia Universal da Criança, ontem comemorado.

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

22-setembro-1933

Os azuis de José Dias Egipto

José Dias Egipto é o pseudônimo literário de José Carlos Pacheco Palha, nascido em Braga, Portugal, em 1953, em uma família tradicional da média burguesia. Seu pai, médico polivalente durante as guerras mundiais, influenciou-o desde cedo nos valores da solidariedade e deu-lhe uma visão humanista da vida e do mundo. Formou-se em Medicina na Faculdade do Porto e especializou-se em Pediatria e Neonatologia. Passou a exercer funções no concelho de Vila Nova de Gaia, onde permanece até hoje.

Começou a escrever cedo mas só muito tarde os seus poemas foram conhecidos. O seu primeiro livro, O Silêncio das Palavras, foi editado em 1999 pela Elefante Editores de Espinho. No ano 2000 saíu o seu segundo livro, misto de diário e ensaio, sob o título, Pessoal e Transmissível, pela Plural Edições de Espinho. Um segundo livro de poesia, Soletrando o Azul, surgiu em 2002 e recebeu, nesse ano, a única Menção Honrosa do Prémio António Patrício de poesia, da S.O.P.E.A.M. Em 2008 lançou pela Calígrafo, de Braga, um livro de contos intitulado O Último Passageiro. Já recebeu outras menções honrosas em concursos de poesia em Portugal. Colabora com várias revistas culturais e participou também em várias Antologias em Portugal e no Brasil. Mantém uma crônica semanal, Farpas Lusófonas, no portal da Internet Portugal-em-Linha. É sócio, desde a fundação, da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos ( S.O.P.E.A.M.), bem como é o representante, no Porto, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores ( SOBRAMES ). Também faz parte da Associação de Escritores de Gaia.

O Azul Celestino das Pombas

O cheiro doce
da terra já lavrada
atrai os pássaros
em cada madrugada…

A terra vermelha
foi molhada.
Não há nada a perceber
depois das chuvas…

Só mais tarde
a seara
ondulará ao sol
e haverá mel nas uvas…

Agora,
é o triângulo
que une os braços
da charrua ao solo
que semeia as virtudes.
O querer, o saber e o poder
num olho garço imenso
que ilumina
os desígnios das alfaias.

No fogo já extinto
das tardes calmas,
os frutos maduros
serão por fim
oferecidos
às pombas
e desse azulecer
se fará o pão
das nossas almas!

O Azul-Egipto da Volúpia

A encruzilhada
de todos os enganos
ou de todas as graças…

O banquete maldito
da História.
O jogo de cabra-cega
entre o amor e o poder.

A dança macabra
na cabeça do santo.
O festim de granito
entre a graça e a glória.

Salomé
elevada aos cumes
no rigor do carmelo.
Teresa
abrasada na roda
dos ímpios lumes…

O justo deitado nos coxins
dos gineceus.
A vingança de Eros
que abate
a recusa do mundo.

A serpente erguida
que degola a luxúria…

O amor
que amedronta
o asceta,
a despontar
em flor
no colo da alma
de um poeta !…

O Azul Manganês da Chama


Furou-se a noite
e um poço de luz
abriu-se
no deserto
consciente.

Uma chama
ardente
ilumina agora
o pensamento
e os eleitos
ouvem rubras vozes
e azuis de medo
ganham asas.

Na terra fria
e antiga
nasceu o calor
primordial,
a aurora-boreal
do sopro
do Amor.

E o corpo quente
da sabedoria
desce
suavemente
sobre o pasmo
inato,
alojado no coração
do Homem.

Ilustrações: montagens gráficas de C. de A.