Arquivo do mês: maio 2009

De Cabo Verde, Corsino Fortes

Corsino-Fortes3Corsino António Fortes (São Vicente, 1933) é um escritor e político cabo-verdiano. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa (1966). Integrou vários governos na república de Cabo Verde e foi embaixador de seu país em Portugal. Presidiu à Associação dos Escritores de Cabo Verde de 2003 a 2006). Autor de  Pão & Fonema (1974),  Árvore e Tambor (1986) e A Cabeça Calva de Deus (2001),  a sua obra, segundo seus exegetas,  expressa uma nova consciência da realidade cabo-verdiana e uma nova leitura da tradição cultural daquele arquipélago.

Pecado Original

noite2Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noite brumosa.

MadeiraVelhaOlho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

pé na lama2Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

ExplodeCoracaoE não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito…

xxxxxxxxxxxxxxx(Claridade, 1960)
CaboVerdeEsmeralda de Cabo Verde - foto de Filipe Pombo http://br.olhares.com/AFFP

De boca a barlavento

I

Esta
xxxa minha mão de milho & marulho
Este
xxxo sol a gema E não
xxxo esboroar do osso na bigorna
xxxxxxxxxxxxxxxxxE embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
xxxxxxxesta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
xxxxxxxxxxxxxxxxo
xxxxxxxxxxxxxxxxt
xxxxxxxxxxxxxxxxe
xxxxxxxxxxxxxxxxj
xxxxxxxxxxxxxxxxa
De comarca em comarca
A árvore & o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
xxxxxxxxxxpara dentro das violas

II

Poeta! todo o poema:
xxxxxxgeometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
xxxxxxárvores de fruto
xxxxxxxxxao meio do dia
E tambores
xxxxxxerguem
xxxxxxxxxna colina
xxxxxxUm coração de terra batida
E lon longe
Do marulho à viola fria
xxxxxxReconheço o bemol
Da mão doméstica
xxxxxxxxxQue solfeja

Mar & monção mar & matrimônio
Pão pedra palmo de terra
xxxxxxxxxPão & patrimônio

xxxxxxxxxxxxxxx(Pão & fonema, 1974)
Sopro

Em julho, grande exposição de Paul Garfunkel

EsboçoGarfunkelx

xxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Recebemos comentário de Luca Rischbieter, neto de Paul Garfunkel, no qual, junto ao agradecimento pela homenagem feita pelo Banco a seu avô (https://cdeassis.wordpress.com/2009/05/13/maio-mes-de-paul-garfunkel/), ele nos comunica que:

  • Está em preparação uma grande exposição  de  Garfunkel, a começar em 14 de julho desse ano, no Museu Oscar Niemeyer.
  • O vídeo dos músicos, publicado naquele post, é de autoria de  Mauricio Runno, escritor argentino reponsável pela organização e catalogação de milhares de aquarelas do PG, adormecidas em pastas que ficaram com a família.

Nós é que agradecemos, Luca.

António Gedeão revela os simples mistérios da Pedra Filosofal

antonio_gedeãoAntónio Gedeão , poeta, professor e historiador da ciência portuguesa, é pseudônimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nascido em Lisboa em 1906 e falecido em 1998. Concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a atividade docente. Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, ao colaborar em revistas da especialidade e organizar obras no campo da história das ciências e das instituições, como a Atividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou, ainda, outros estudos, como a História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).
Foi diretor da Sociedade Portuguesa de Química e Física (1957), da qual foi eleito presidente honorário em 1988. Integrou a direção da revista Gazeta de Física (1946), a redação da Palestra (1958), co-dirigiu o Boletim do Ensino Secundário (1973) e foi diretor do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa (1990).

O poeta António Gedeão revela-se em Movimento Perpétuo (1956), onde consta um dos poemas que a versão musicada popularizou, Pedra Filosofal, no final dos anos 60.A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogêneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção.

Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). No seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional e condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’iago de Espada.

O Banco da Poesia faz uma homenagem ao poeta com a publicação de seu poema mais famoso, em letra e música. No vídeo, quem canta é Manuel Freire. A título de curiosidade, publicamos também o autógrafo de Pedra Filosofal.

Agradecimento especial a Manoel de Andrade, que indicou e avalisou este depósito póstumo. E  também a Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, que, com sua Caravela, deu uma mãozinha na ilustração.

Pedra Filosofal

Sonho

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxDe Movimento Perpétuo, 1956

autografo_pedra-filosofal

Mais Eugenio de Andrade

As Palavras

AsPalavras

São como um cristal,
as palavras
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas,

Secretas vêm, cheias de memória.
inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

_____________

Eugenio de Andrade, poeta português (Fundão, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005) Leia mais, no Banco da Poesia, aqui

Saramar: dois poemas recentes

Carnaval

Carnaval
Passeio entre felizes foliões.
A festa despencou pelas ruas, chuva de confetes.
Máscaras não mais se usam,
só a da alegria, em todas as faces, pregada.
Suor colorido de músicas, um choque,
um tremor nessas ruas molhadas.
Beijos escorregam por todos os lados,
lascivos,
de línguas, bocas, pernas.
Procuro rostos, olhos… nada.
É carnaval.
Também fui,
trocando ilusões e lençóis engomados
por tiras coloridas e seu brilho de enganar.
Árvore,
de outra pele me vesti
e a primavera confunde as estações e os sons.

O que te levou de mim?

É medo, é pejo
ou acabou o desejo
do ermo noturno
dos beijos?

É medo, é dor
que entranha nos eixos
do dia
ou foi bom e adeus?

É medo da dor,
prima-irmã desse anseio
de tomar a pele do outro
que chamamos amor?

É medo?

O moçambicano Mia Couto

Mia CoutoAntónio Emílio Leite Couto, escritor moçambicano, passou a ser conhecido como Mia Couto por culpa de seu irmão menor, que não conseguia pronunciar direito o Emílio. Mas, segundo o próprio autor, nascido em Beira em 1955, o apelido também tem muito a ver com sua paixão por felinos. Quando pequeno, diza a seus familiares que queria ser um gato (sem alusão à moderna acepção utilizada pelas mocinhas brasileiras).
Por ter nascido em Moçambique, país de terras baixas, localizada à beira do Oceano Índico, ele diz que não tem uma terra-mãe, mas uma água-mãe.

BEIRA - vista panoramica_resize
Abandonou o curso de Medicina para se dedicar ao jornalismo. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique e, mais tarde, fez o curso de Biologia, carreira que segue até hoje.

No início da década de 80 participou, com poemas seus, de algumas antologias. Em 1983, publicou Raiz de Orvalho, seu primeiro livro de poesias. Em 1999, Mia Couto recebeu o Prêmio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra. Suas principais publicações: • Raiz de Orvalho (poesia, 1983); • Vozes Anoitecidas (relatos, 1986); • Cada Homem é uma Raça (relatos, 1990); • Cronicando (crônicas, 1991); • Terra Sonâmbula (novela, 1992); • Estórias Abensonhadas (relatos, 1994) ; • A Varanda do Frangipani (novela, 1996); • Contos do nascer da terra (relatos, 1997) ; • Mar me quer (novela, 1998) ; • Vinte e Zinco (novela, 1999); • O Último Vôo do Flamingo (novela, 2000) ; • O Gato e o Escuro (livro infantil, 2001) ; • Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos (relatos, 2001); • Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (novela, 2002); • Contos do Nascer da Terra (relatos, 2002); • O país do queixa andar (crônicas, 2003); • O fio das missangas (relatos, 2003); • A Chuva Pasmada (novela, 2004); • O Outro Pé da Sereia (novela, 2006).

O Banco da Poesia publica três poemas de Mia Couto, extraídos de Raiz de Orvalho e Outros Poemas. E porque somos, como ele, lusófonos, publicamos uma divertida crônica sobre a Língua Portuguesa.

Orvalho

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Perguntas à Língua Portuguesa

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.

Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.

Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, exceto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

  • Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
  • No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
  • A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
  • O mato desconhecido é que é o anonimato?
  • O pequeno viaduto é um abreviaduto?
  • Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
  • Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
  • Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
  • Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
  • O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
  • Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
  • Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
  • Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
  • Mulher desdentada pode usar fio dental?
  • A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
  • As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
  • Um tufão pequeno: um tufinho?
  • O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
  • Em águas doces alguém se pode salpicar?
  • Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
  • Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
  • Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
  • Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxMia Couto – 11/04/1997

Um poema de Álvaro Miranda*

La última noche de Breton

Noche diurna de baño de espíritu
y de totuma andina donde no cabe un silencio
noche de lluvia paralítica en la mitad del espacio
noche extranjera de luz cancerosa
de migas de tamal entre nidos de buitres
noche de tul entre la trayectoria de un buque de papel

Noche de corteza de aire
de siesta de estrellas bajo llanto de sauces
noche amortajada de nubes
entre rosario de luceros rebeldes
noche tímida de mejilla de alba sonrosada
y de muñeca rota de golpe de mamut

Noche de gelatina sobre un plato de peltre
noche de cartón entre dientes de ratas
y de ojo de ahogado en el eje del mar
noche inservible de Navidad entre vahos
de epilépticas rumberas

Noche crucificada entre ladrón de sueños
de espumas y de verdades

BretonVanGogh

A última noite de Breton

Noite diurna de banho de espírito
e de cabaça andina onde não cabe um silêncio
noite de chuva paralítica na metade do espaço
noite estrangeira de luz cancerosa
de migalhas de tamal entre ninhos de abutres
noite de tule entre a trajetória de um barco de papel

Noite de casca de ar
de sesta de estrelas sob o pranto de salgueiros
noite amortalhada de nuvens
entre rosário de luzeiros rebeldes
noite tímida de bochecha de alva rosada
e de boneca espedaçada a golpe de mamute

Noite de gelatina sobre um prato de estanho
noite de papelão entre dentes de ratos
e de olho de afogado no eixo do mar
noite inservível de Natal entre vapores
de epiléticas rumbeiras

Noite crucificada entre ladrão de sonhos
de espumas e de verdades

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Notas

* Poeta colombiano. Ler post abaixo. Há mais dois poetas homônimos,  um uruguaio e um brasileiro.
Versão em Português – Cleto de Assis
Tamal –Espécie de empanada (pastel) de massa de farinha de milho, envolta em folhas de bananeira ou de espiga de milho, cozida ao vapor ou em forno. Existem vários tipos, segundo o recheio que se coloca e os ingredientes agregados. É prato típico em diversos países hispanos, principalmente no norte da América do Sul, na América Central e Caribe.  Assemelha-se à nossa pamonha.
Ilustração – composição de Retrato de André Breton, de James Sebor, (E.U.A. 1957), e Noite estrelada sobre o rio Reno,1888, de Vincent van Gogh (Holanda 1853-1890), 72,5 x 92 cm, Museu de Orsay, Paris.