Arquivo do mês: setembro 2009

Marilda, multicolorida, reclama do frio e clama pela Primavera

Primavera

Ipês do Alto São Francisco -Curitiba (foto de Lina Faria, 2009)

Ipê do Alto São Francisco – Curitiba (foto de Lina Faria, 2009)

(Não aguento mais esse tempo frio e chuvoso de Curitiba.
Cadê a primavera???? Marilda Confortin

Que me venha esse setembro
pleno de troncos e membros
e prima viril me devore
com sua boca de leão
e se demore onze-horas
cobrindo-me de amoras
amores e heras.

Que deveras venha
e que ainda tenha no olhar
um ar de cão sem dono
e uma fome de outono
a saciar.

E que traga tatuado
no peito
um amor-perfeito
para me dar.

Que me dê flores,
me deflore, dê lírios,
antúrios, beijos,
e me deguste agosto
da copa ao piso,
do riso ao choro
e sem decoro me decore
com cores de madressilva
e matize os meus seios
com entremeios de renda preta
e sobre o espartilho vermelho
derrame um copo-de-leite violeta.

Até mais, Walmor

Conheci Walmor Marcelino, que nos deixou na manhã de hoje, há mais de trinta, quarenta anos. Quando ele era um entusiasta teatrólogo, em uma época que Curitiba ainda era conhecida como uma espécie de Cemitério das Artes. Também conheci o jornalista ativo e ativista, o escritor e poeta, o utopista, sempre a defender, com veemência e extrema coerência, os seus pontos de vista. Podíamos até discordar dele, mas o respeitávamos inteiramente por sua honestidade intelectual.

Quando, há poucos anos, retornei a Curitiba, Walmor foi uma das primeiras pessoas que encontrei, em um domingo pela manhã, quando fazíamos compras no Mercado Municipal. Um papo descontraído e rápido — Onde você andava?E você, o que está fazendo? — mas era mais uma amizade recuperada, apesar dos anos de separação.

Mais recentemente, estivemos juntos em um encontro de poetas no Bar Stuart, junto com Manoel de Andrade, J.B. Vidal, Marilda Confortin, Vinicius Alves e o artista plástico Attila Wensersky. Em meio aos ruídos de palavras e música, ainda tivemos um momento de conversa paralela e trocamos informações para atualizar nossas vidas. Ele, então, me deu um CD com o texto do primeiro caderno de sua novela Ulciscor (“Não chega a ser ensaio, porque lhe falta o convencimento das origens: definir objeto, clareza expositiva, argumentação dialógica, pertencimento científico, ainda que insinue referências e pretenda indicar fatos. Não chega a ser ‘ficção’, porque a sua escritura, conquanto sobreleve pessoas e momentos, é de verificação basilar e a exponência narrativa não se dispõe inteiramente ao ficcional. Não é obra de história, porque os fatos organizados estão dispostos muitas vezes em algaravia e carentes de informações, com cortes e flashbacks ao sabor de um cruzeiro de memória e sentido. E como poderia este excerto de biografia analítica ainda assim despertar atenção e interesse dos leitores – amigos, confrades e consócios na reconstrução ideológico-política da realidade – constrangidas na ação e mais estendidos na comunicação de cada um, eu me socorro deste artifício, ademais me apresentando humilde conviva nesta sociedade do espetáculo”.

A última reunião com Walmor – Da esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Fonto de J.B. Vidal.

A última reunião com WalmorDa esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Foto de J.B. Vidal.

Walmor pretendia iniciar um diálogo com seus leitores/amigos sobre seu texto e, ao mesmo tempo, associar-se a eles na futura publicação da novela. Não sei a quantas andava seu projeto, até o momento em que nos deixa. Daquele texto retiro a epígrafe, uma frase de Seth Báratro: “Não tenho todo o tempo do mundo, mas quanto é esse tempo?”. Hoje Walmor Marcelino conseguiu medir, como todos nós faremos um dia, a dimensão do tempo que nos é dado para viver.

Faço a homenagem do Banco da Poesia com um texto de um amigo comum, Aramis Milarch (que deve estar na comissão de recepção a Walmor, lá do outro lado), publicado no dia 1º de maio de 1986. E, abaixo, um poema de sua lavra, que consta no texto de Ulciscor. C. de A.

Quem diria, Walmor Marcelino, um romântico?

walmor marcelinoJornalista dos mais atuantes na imprensa paranaense há 30 anos, merecedor da admiração e respeito pela coerência e honestidade de seus pontos de vista, de seu comportamento como homem e profissional, Walmor nunca foi de fazer concessões. Em 1964, poucas semanas após o golpe militar de 1º de abril, publicava um corajoso livro de poesias, cujo título já traduzia o nojo que sentia pela ditadura que começava no Brasil: Tempo de Fezes e Traições. Quase que simultaneamente, em outro livro crítico sobre o golpe dos militares (Sete de Amor e Violência), incluía um texto amargo, cruel e profundamente político sobre aqueles dias cinzentos.

Intelectual do maior gabarito, apaixonado pelo teatro e literatura, primeiro encenador a dar uma montagem realmente dialética e política a textos de Camus (Os Justos) e Jean Paul-Sartre (A Prostituta Respeitosa) nos palcos do Guaíra, ao mesmo tempo que se integrava ao então nascente Centro Popular de Cultura, defendendo uma política cultural destinada a levar a arte as camadas mais pobres, Walmor nunca deixou de fazer sua poesia. Uma poesia honesta, verdadeira – mas sempre voltada ao lado político, a razão, a reflexão – escondendo, assim, muitas vezes, o seu lado lírico, amoroso, suave –que também raros viram atrás de sua fisionomia séria, hostil aos chatos e inoportunos –inimigo claro dos coniventes com o poder.

Hoje, sem arredar um pé de suas convicções, mas por certo com a sabedoria que o virar da casa dos cinqüenta traz, nas 28 páginas de seu mais recente livro (Confabulário, Dom Quixote, Edição do Autor), deparamos, já na primeira página, com um Walmor otimista – a partir do próprio título do poema – Esperança .

xxxxEu não sei por que não somos
xxxxdesbravantes, caminheiros.
xxxxPassageiros da utopia
xxxxmãos dadas, companheiros

Em cada novo poema de Walmor Marcelino, há um encontro com uma sensibilidade extrema, que, anos atrás, não seria comum em ler em sua obra. Como neste Um Verso:

xxxxO verso ai
xxxxEu e tu, ai
xxxxNos cruzamos
xxxxBailando ao vento
xxxxO verso escreve
xxxxnão fala, ai
xxxxque nos amamos
xxxxUm verso vive só
xxxxo que pensamos
xxxxO verso vem depois
xxxxque nós vivemos

Walmor nunca buscou aplausos ou elogios em sua obra extremamente pessoal. Nunca se filiou a escolas ou gerações. Faz e trabalha a poesia como trabalha e age em sua vida: uma coerência extremamente pessoal. Possivelmente, não quer interpretações críticas a este seu Confabulário (aliás, nem há críticos em Curitiba para tanto). O que importa é que, a sua maneira, ele dá um recado de força, vigor e integridade poética – numa realização plena, trabalhando com as palavras como o melhor entalhador o faz com a madeira. Aramis Milarch

Walmor, segundo Marcelino

Político insciente, poeta menor, teatrólogo sem nomeada, promotor sem significância expressiva e “maestro” convicto de comunicações sociais e debates políticos, ainda que em difusos opúsculos, cadernos e livros de edição própria. Itinerário jornalístico: Diário da Manhã (SC), Correio do Povo (RS), Diário do Paraná (PR), Última Hora (PR), Tribuna da Luta Operária (BR). Presença em livros e peçasPoesia Quixote (Porto Alegre); no Paraná, Os Fuzis de 1894, Os Idos e os Ódios de Março (teatros); Fráguas, Mágoas e Maçanilhas (Travessa dos Editores), Toda a Poesia, Próximas Palvras (poesias); A Guerra Camponesa do Contestado, Contribuição ao Estudo da AP no Paraná (esboços críticos); etc.

Nós acrescentamos: extrema humildade, valor de um homem bom e grande.

Memorial

xxxxxxxxWalmor Marcelino

Memorial

Assim um estilete no ouvido
furando o pensamento
e seu fio de memória exposto
ao tempo. Fosse dor atravessada,
nunca no curso interrompida
e consecutiva; roída morte
movendo-se em corpo,
entropia perdida no espaço.
Perfurante itinerário
até a luz nascente das coisas
com a escuridão
de seus propósitos.

Lina Faria: ver a cidade, com veracidade

LinaFotoConheço Lina Faria – paranaense de Nova Esperança, com passagem por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo – desde quase o início de sua carreira de fotógrafa. Confiei em seu trabalho e acertei. Hoje ela é uma das mais brilhantes profissionais da área e especializou-se na arquitetura da cidade e sua gente, notadamente na arqueologia urbana, com suas paredes despencadas e corroídas. Lina sabe ver Curitiba como ninguém. Ela mesma diz, em seu blog Não Lugar :

Sou fotógrafa e curiosa. Vivo na cidade de Curitiba e gosto de olhar e documentar a relação das pessoas com os espaços em geral. Levo isso ao pé da letra, quando fotografo as ruas e sua ocupação desordenada.
Também nos interiores das submoradias, longe de qualquer padrão de ordem mas com um sentido de segurança, mesmo que penduradas e vulneráveis à primeira chuva. Mas tudo isso tendo como compromisso a beleza, a harmonia. Mesmo na realidade de uma favela, resgatar a dignidade através do belo é o que me interessa. Gosto também, e muito, de design e arquitetura. Da social à contemporânea, o gosto pelo ocupar me interessa
“.

Fiz um convite a Lina para publicar suas fotos no Banco, pois seu olhar capta poesia até mesmo em coisas semidestruídas. Mas enquanto ela não as manda, recolhi duas fotos recentes em seu blog e a homenageio com um poemeto intercalado entre as imagens.

Ipês no chão

Canto o chão

xxxxxxxxxxxxxxxPara Lina Faria

Chão que ninguém olha, chão que ninguém vê,
chão que todos usam,
chão que todos reclamam
e só os olhos de Lina nele recolhem beleza.
Chão de petit pavé que distribui tropeções pela cidade,
recompensados, no final do inverno,
com a neve amarela das flores.
Chão de qualquer lugar:
ponto de ônibus, estádios, praças e calçadas
a misturar moda de pobres e ricos calçados.

Ipês no chão e pés no chão.

Pés no chão

Erly Welton Ricci catacrédico

catacredos

Catacredos

não tenho
ser
nem honra

nem fé
nem lei
a faca
do crime
não sei

nenhuma
idéia
ou meia
na mala

e enquanto tarda
azia das horas
a dor
que sinto não
estala

a morte
que vivo
em boa
hora

escrava
cardíaca
réu
do desejo

para o decurso
das coisas tolas
não há nada além
do que vejo

feixe de nervos
nau sem
mar
sem proa

sou  muitas
mentiras
uma só
pessoa

Mais um poeta retorna ao Parnaso

No último sábado fomos surpreendidos pela morte de Antonio Olinto, escritor, poeta, ensaísta de Ubá, Minas Gerais. O Banco da Poesia faz sua homenagem a mais um poeta que se retira e parte para merecido descanso junto a Apolo e Atena. Com certeza, foi recebido no Monte Parnaso, em festa organizada por Dionísio e animada pelas Musas.

Por aqui, Antonio Olinto nos deixou extensa obra (ver abaixo) e um enorme exemplo de dedicação às letras. Fazemos nossa homenagem ao poeta com quatro poemas de sua autoria.

Morre aos 90 anos o escritor e acadêmico Antônio Olinto

O escritor em recente evento em sua cidade natal, Ubá, MG

O escritor em recente evento em sua cidade natal, Ubá, MG

O escritor, acadêmico e ensaísta Antônio Olinto, que ocupava a cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras (ABL) morreu na madrugada de sábado, 12 de setembro, no Rio de Janeiro, de falência múltipla dos órgãos.

Ele morreu em casa, por volta das 4h30, em Copacabana, Zona Sul da cidade. O corpo do acadêmico foi velado no prédio da ABL, no centro, e
sepultado no Mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, às 16h deste sábado.

O presidente da ABL, Cícero Sandroni, determinou luto oficial de três dias na Academia, que, na próxima quinta-feira realizará a sessão solene de saudade, quando será declarada aberta a vaga da cadeira número oito.

O escritor e ensaísta foi casado com a também escritora Zora Seljan, falecida no Rio em 2006, e não teve filhos. Sua obra abrange romance, poesia, ensaios, análise política e crítica literária. Após decretada vaga a cadeira número oito, haverá prazo de 30 dias para o registro de candidaturas à vaga de Olinto e, ao final deste tempo, será marcada a data para a eleição do novo acadêmico.

Entre as muitas obras do escritor, estão o romance A casa da Água, de 1969, e livros de poesia como Presença, O Homem do Madrigal, Nagasaki e O Dia da Ira.
(Correio do Brasil, RJ)

Biografia

Antonio Olinto (nome completo: Antonio Olyntho Marques da Rocha, nasceu em 1919, em Ubá, e foi batizado no Piauí, Minas Gerais) estudou Filosofia e Teologia nos seminários católicos de Campos, Belo Horizonte e São Paulo. Tendo desistido de ser padre, foi durante 10 anos professor de Latim, Português, História da Literatura, Francês, Inglês e História da Civilização, em colégios do Rio de Janeiro. Publicou então seu primeiro livro de poesia, Presença. Foi secretário do “Grupo Malraux” tendo organizado a 1a. exposição de poesias, montada na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

O Dia da IraJuntamente com sua atividade de professor, ingressou no setor publicitário e no jornalismo. Seu livro Jornalismo e Literatura foi adotado em cursos de jornalismo em todo o Brasil. Da mesma época é seu livro de ensaios o Diário de André Gide. Crítico literário de O Globo ao longo de 25 anos, colaborou em jornais de todo o Brasil e de Portugal. Convidado para as comemorações do Cinqüentenário do Prêmio Nobel em 1950, fez então conferências nas universidades de Estocolmo e Uppsala e entrevistou Willian Faulkner, Bertrand Russell e Per Lagerkvist. Em 1952, a convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos, percorreu 36 estados norte-americanos fazendo conferências sobre cultura brasileira. Teve publicados na década de 50 quatro volumes de poesia e dois de crítica literária.

Nomeado Diretor do Serviço de Documentação do Ministério de Viação e Obras Públicas, ali lançou a Coleção Mauá, de livros técnicos, promoveu Salões de pintura dedicados a obras que privilegiassem ferrovias, estradas e os caminhos do mar e dirigiu a revista Brasil Constrói, redigida em 4 idiomas. Data dessa época o lançamento de mais de trinta concursos literários ligados a livros (exemplos: as melhores vitrines com livros, cartilhas, contos esportivos), culminando com o lançamento do Prêmio Nacional Walmap, considerado o pioneiro dos grandes prêmios literários do país.

O_Rei_de_KetoNomeado Adido Cultural em Lagos, Nigéria, pelo governo parlamentarista de 1962, em quase três anos de atividade, fez cerca de 120 conferências na África Ocidental, promoveu uma grande exposição de pintura brasileira sobre motivos afro-brasileiros, colaborou em revistas nigerianas, enfronhou-se nos assuntos da nova África independente e, como resultado, escreveu uma trilogia de romances – A Casa da Água, O Rei de Keto e Trono de Vidro – hoje traduzidos para dezenove idiomas (inglês, italiano, francês, polonês, romeno, macedônio, croata, búlgaro, sueco, espanhol, alemão, holandês, ucraniano, japonês, coreano, galego, catalão, húngaro e árabe) e com mais de trinta edições fora do Brasil. Seu livro Brasileiros na África, de pesquisa e análise sobre o regresso dos ex-escravos brasileiros ao continente africano, tem sido, desde sua publicação em 1964, motivo de teses, seminários e debates. De 1965 a 1967 foi Professor Visitante na Universidade de Columbia em Nova York, onde ministrou um curso sobre Ensaística Brasileira. Na mesma ocasião, fez conferências nas Universidades de Yale, Harvard, Howard, Indiana, Palo Alto, UCLA, Louisiana e Miami. Escreveu uma série de artigos sobre a Escandinávia, o Reino Unido e a França.

Em 1968 foi nomeado Adido Cultural em Londres, onde desenvolveu uma atividade incessante, através de conferências e um mínimo de 100 exposições ao longo de cinco anos.

Membro do PEN Clube do Brasil, ajudou a organizar três congressos do PEN Internacional no Brasil: em 1959, 1979 e 1992. Passou a participar também das atividades do PEN Internacional, com sede em Londres, tendo sido eleito, no começo dos anos 90, para o cargo de Vice-Presidente Internacional. Na qualidade de “Visiting-Lecturer” deu vários cursos de Cultura Brasileira na universidade inglesa de Essex.

Dirigiu e apresentou os primeiros programas literários de televisão no Brasil na TV Tupi, e em seguida nas Tvs Continental e Rio. Fez conferências sobre cultura brasileira em universidades e entidades culturais em Tóquio, Seul, Sidney, Luanda, Maputo, Dacar, Lomé, Porto Novo, Lagos, Ifé, Warri, Abidjan, Tanger, Arzila, Buenos Aires, Lisboa, Coimbra, Porto, Madri, Santiago, Barcelona, Lion, Paris, Marselha, Milão, Pádua, Veneza, Bérgamo, Florença, Roma, Belgrado, Zagreb, Bucareste, Sófia, Varsóvia, Cracóvia, Moscou, Estocolmo, Copenhague, Aarhus, Londres, Manchester, Liverpool, Colchester, Newcastle, Edimburgo, Glasgov, St. Andrews, Oxford, Cambridge, Bristol, Dublin.

Conheceu, em 1955, a escritora e jornalista Zora Seljan, com quem se casou. A partir de então, os dois trabalharam juntos em atividades culturais e literárias. Quando Antonio Olinto foi crítico literário de O Globo, Zora Seljan assinava a crítica de teatro no mesmo jornal, sendo que às vezes as duas colunas saiam lado a lado na página. Antes de os dois seguirem para a Nigéria, já Zora havia escrito a maioria de suas peças de teatro afro-brasileiras, das quais, mais tarde, em Londres, uma delas, Exu, Cavalheiro da Encruzilhada, seria levada em inglês por um grupo de atores ingleses e americanos, sob a direção de Ray Shell, que participara da produção de Jesus Christ Superstar. Na Nigéria, Zora Seljan foi leitora na Universidade de Lagos. De volta da África, Antonio Olinto publicaria um relato de sua missão ali, Brasileiros na África; Zora Seljan lançaria dois livros: A Educação da Nigéria e No Brasil ainda tem gente da minha cor?. Em 1973, os dois fundaram um jornal em Londres e em inglês, The Brazilian Gazette, que vem existindo continuamente desde então.

Recebeu em 1994 o “Prêmio Machado de Assis”, por conjunto de obras, da Academia Brasileira de Letras, a mais alta laúrea literária do Brasil.

Antonio Olinto e Zora Seljan foram eleitos para o conselho fiscal do Sindicato dos Escritores, em 7 de maio de 1997.

Em 31 de Julho de 1997, foi eleito para Academia Brasileira de Letras na Cadeira nº 8, sucedendo o escritor Antonio Callado. Foi eleito para o cargo de Tesoureiro nas gestões de 1998, 1999 e 2000 e também Diretor das Publicações dos mesmos anos. Tem uma Biblioteca em Bucareste com seu nome: Biblioteca Antonio Olinto.

Foi nomeado por ato do Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, para o cargo de Diretor Geral do Departamento de Documentação e Informação Cultural, da Secretaria das Culturas, dirigida por Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros (o  Artur da Távola). Em sua gestão, inaugurou duas bibliotecas em comunidades carentes, como manteve as 23 bibliotecas municipais em prédios fixos.

Ary_BarrososEm 2003 foi convidado para ser Presidente da Comissão Nacional das Comemorações do Centenário de Ary Barroso, que foi celebrado com várias comemorações pelo país e pelo exterior. Para homenagear Ary Barroso, Antonio Olinto lançou com grande estrondo na ABL o livro Ary Barroso, a história de uma paixão, que foi apresentado em várias capitais e em sua cidade natal, Ubá.

No dia 17 do mês de julho de 2003 apresentou seus quadros naif no Shopping Cassino Atlântico, juntamente com o lançamento de seu livro Ary Barroso.

Sua obra abrange poesia, romance, ensaio, crítica literária e análise política e três dos seus livros foram traduzidos para o romeno – Copacabana, tradução romena de , Editura Univers, 1993.; Scurt? Istorie a Literaturii Braziliene (1500-1994), Editora ALLFA, 1997; Timpul Paiatelor,  Editora Univers, Bucaresti, 1994. As três obras foram trauzidas por Micaela Ghitescu. (Academia Brasileira de Letras)

Bibliografia

Poesia

  • Presença – Editora Pongetti, 1949
  • Resumo – Livraria José Olympio Editora, 1954
  • O Homem do Madrigal – Livraria José Olympio Editora, 1957.
  • Nagasaki – Livraria José Olympio Editora, 1957
  • O Dia da Ira –Livraria José Olympio Editora, 1959
  • The Day of Wrath – tradução inglesa de O Dia da Ira, por Richard Chappell, edição Rex Collings, Londres, 1986.
  • As Teorias – Edição Sinal, 1967
  • Theories and Other Poems – tradução inglesa de As Teorias por Jean McQuillen, edição Rex Collings, 1972
  • Antologia poética –Editora Leitura, 1967.
  • A Paixão segundo Antonio – Editora Porta de Livraria, 1967
  • Teorias, novas e antigas – Editora Porta de Livraria, 1974
  • Tempo de verso – Editora Porta de Livraria, 1992
  • 50 Poemas escolhidos pelo autor – Editora Galo Branco, 2004

Ensaio

  • Jornalismo e literatura – MEC, 1955
  • O “Journal” de André Gide – MEC, 1955
  • Dois ensaios – Livraria São José, 1960
  • Brasileiros na África – ensaio sócio-político, Edições GRD, 1964
  • O problema do Índio Brasileiro – Embaixada do Brasil em Londres, 1973
  • Para onde vai o Brasil? – ensaio político, Editora Arca, 1977
  • Do objeto como sinal de Deus – ensaio sobre arte africana, RIEX, 1983
  • On the Objects as a Sign from God – tradução inglesa de Ira Lee, RIEX, 1983
  • O Brasil exporta – história da exportação brasileira, Banco do Brasil, 1984
  • Brazil Exports – tradução inglesa, Banco do Brasil, 1984
  • Literatura Brasileira – Editora Lisa, 1994
  • Letteratura Brasiliana – história da literatura brasileira, tradução italiana de Adelina Aletti, Jaca Book, 1993
  • Scurt? Istorie a Literaturii Braziliene (1500-1994) – tradução romena de Micaela Ghitescu, Editora ALLFA, 1997
  • Antonio Olinto apresenta Confúcio e o Caminho do Meio – Rio de Janeiro, Editora Bhum – Ao Livro Técnico- 2001

Artes Plásticas

  • African Art Collection, tradução inglesa de Ira Lee, Printing and Binding, Londres, 1982

Crítica Literária

  • A invenção da Verdade – crítica de poesia, Editorial Nórdica, 1983
  • A verdade da Ficção – crítica literária, COBRAG, 1966
  • Cadernos de Crítica – crítica literária, Livraria José Olympio Editora, 1958

Literatura Infantil

  • Ainá no Reino do Baobá – Literatura Infantil, LISA, 1979

Romance

  • A Casa da Água – romance, Edições Bloch, 1969 ; Círculo do Livro, 1975 e 1988; Difel. 1983; Nórdica, 1988; Nova Froteira, 1999
  • The Water House – tradução inglesa de Dorothy Heapy, Edição Rex Collings, 1970; Thomas Nelson and Sons Ltd, Walton-on-Thames, 1982; Carrol & Graff, 1985
  • La Maison d’Eau – tradução francesa de Alice Raillard, Edição Stock, 1973
  • La Casa del Água – tradução argentina de Santiago Kovadlof, Editorial Losada, 1972 e 1973
  • Bophata Kyka – tradução em macedônio, Macedônia Makepohcka Khnra (km), Skopje, 1992
  • Dom Nad Woda – tradução polonesa de Elizabeth Reis, edição Wydawnictwo Literackie, 1983. ( Dom Nad Woda, edição Braille polonês, Polska Braille, 1985)
  • Casa dell’Acqua – tradução italiana de Sonia Rodrigues, Edição Jaca Book, 1987
  • O Cinema de Ubá – Livraria José Olympio Editora, 1972
  • Copacabana – LISA, 1975; Editora Nórdica, 1981
  • Copacabana – tradução romena de Micaela Ghitescu, Univers, 1993
  • O Rei de Keto – Editorial Nórdica, 1980
  • Le Roi de Ketu – tradução francesa de Geneviève Leibrich, Edição Stock, 1983
  • Il Re di Keto – tradução italiana de Sonia Rodrigues, Edição Jaca Book, 198
  • The King of Ketu – tradução inglesa Richard Chappell, edição Rex Collings, Londres, 1987
  • Kungen av Ketu – tradução sueca de Marianne Eyre, Edição Norstedts, Estocolmo, 1988
  • Os móveis da bailarina – novela, Edição Nórdica, 1985
  • The Dancer’s Furniture – tradução inglesa de C. Benson, Editorial Nórdica, 1994
  • I Mobili della Ballerina – tradução italiana de Bruno Pistocchi, L`Umana Avventura, 1986
  • Les Meubles de la Danseuse – tradução francesa, L`Aventure Humaine, 1986
  • Die Möbel der Tänzerin – tradução alemã, “Humanis”, 1987
  • Mobilele Dansatoarei – tradução romena de Micaela Ghitescu, Edição Nórdica, 1994
  • Trono de vidro – romance, Editorial Nórdica, 1987
  • Trono di Vetro – tradução italiana de Adelina Aletti, Jaca Book, 1993
  • The Glass Throne – tradução inglesa de Richard Chappell, Sel Press, 1995
  • Tempo de palhaço – Editorial Nórdica, 1989
  • Timpul Paiatelor – tradução romena de Micaela Ghitescu, Editura Univers, Bucaresti, 1994
  • Sangue na floresta – Editorial Nórdica, 1993
  • Alcacer-Kibir – romance histórico, Editora CEJUP, 1997
  • A dor de cada um – 1º romance da “Coleção Anjos de Branco”, Mondrian, 2001
  • Ary Barroso, história de uma paixão – Mondrian, 2003.

Conto

  • O menino e o trem – Editora Ao Livro Técnico, 2000.

Gramática

  • Regras práticas para bem escrever / Laudelino Freire (1873-1937) – ampliada e atualizada por Antonio Olinto, Lótus do Saber Editora, 2000.

Dicionário

  • Minidicionário poliglota – Editora Lerlisa
  • Minidicionário Antonio Olinto: inglês-português, português-inglês – Editora Saraiva, 1999
  • Minidicionário Antonio Olinto: espanhol-português, português- espanhol – Editora Saraiva, 2000
  • Minidicionário Antonio Olinto da lingua portuguesa – Editora Moderna, 2000

Nossa Homenagem

Olinto1

Noite é chuva, plano é longo.

Hora de abraçar a máquina
medianeira do olho e do objeto
disposta para o módulo dos ritos
através.

Ó câmara de sutis delicadezas,
brandura carda, mansa entrega,
me ensina a reta prontidão
no pegar cada coisa e seu contorno,
me concede a cordura decisiva
da lente caminhando para a imagem
diretamente.

Ferramenta e musa,
vem comigo às estacas do homem
chamado Sousa,
entra na macia resistência da pele
águas adentro
(sabes: somos em aquário,
nele andamos, consistimos,
amamos
refreados de presenças
além do líquido limite:
em aquário somos).
Mulher e fábula,
tira a transparência
das roupas silenciadas,
restaura os rituais
dos mitos cotidianos
passados de fêmea a fêmea,
mãe, irmã, amante,
câmera votiva.

Que importa sejas metal agora,
vidro, foco, olho de máquina,
para a justa visão da coisa vista?

Eia, câmera, comigo
ao plano largo, noite chuva.

Olinto2

Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascinio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.

Olinto3

O desígnio das coisas
ferido de espera.
Nem poderia ser, como pensais,
de lastro diferente.
Sabeis e guardais remanso.
Vinde à frente do palco
no risco da luz firmada
que os olhos querem vossa fala.
caso inventado mas pende
da mais sólida nuvem.
As tábuas estão aí,
a mesa, o pão, a roupa
e as gentes.
Nas cadeiras que vos olham
a certeza de vossa força.
Traçai o desenho
do que está vindo,
erguei a mão em rito,
fazei objetos.
Agora vejo.
Esse traço é o caminho da moça?
Completai-o que desce um cântico,
não deve ser interrompido.
O desígnio da moça
repousa em nervos de flor.
Riscai outros.
Esse não conheço.
Da que foi mãe?
Parece mais linha sem ponta.
Aonde irá?

xxxxxxxxDe O Dia da Ira
xxxxxxxxRio de Janeiro: Nórdica; Londres: Rex Colling, 1986
Olinto4
xxxxxxxx“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
xxxxxxxxMachado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria

ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,

porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,

a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?

xxxxxxxxNova York, Natal de 1965

Pequenas férias

O Banco da Poesia entrou em recesso por alguns dias. Pedimos desculpas aos nossos leitores e prometemos ativar nossas postagens a partir de hoje

Encontros em rotas de estrelas

Vinha ao teu encontro

Vera Lúcia Kalahari

Encontro
Vinha vindo ao longo da vida e vinha ao teu encontro.

Por isso é que a vida sempre me pareceu bela e generosa.

Mas quando às vezes, sopravam os ventos adversos, havia qualquer coisa que, em meio da tormenta, falava ao meu coração. Era como a luz de um farol rasgando o nevoeiro, a noite, o temporal.

Vinha ao teu encontro.

Eras tu que eu sentia, como um encanto obscuro, uma fascinação misteriosa, além do horizonte.

E era a tua sombra que, às vezes, me fazia parar um pouco, junto do homem que passava.

E porque era a tua sombra fugaz apenas que me detivera, junto do homem que passava, logo o deixava passar.

E seguia a minha estrada, em busca do teu amor: o outro era apenas um caminho para o teu amor.

Vinha ao teu encontro… Como se seguisse na rota duma estrela, como se fosse no rumo do sol. Vinha ao teu encontro na certeza de encontrar-te, porque eras a promessa do meu destino. Sabia que existias e vinha vindo
ao teu encontro, embora ignorasse se eras uma flor ou uma fonte, um raio de luar, uma nota de música, uma paisagem, um silêncio, um sonho.

Sabia que existias e vinha ao teu encontro, ao longo da vida. Assim, agora que te encontrei, tenho a certeza de que sempre estiveste em minha vida, de que sempre caminhamos juntos, pois vivias dentro do meu sonho. Agora tenho a certeza que vinha  vindo ao longo da vida, caminhando ao teu encontro, como se seguisse na rota duma estrela — iluminada por sua luz distante.

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Ilustração: C. de A.