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Manoel de Andrade novamente nas livrarias

As palavras no espelho

“Así es la verdad – respondió don Quijote -, y si no me quejo del dolor, es porque no es dado a los caballeros andantes quejarse de herida alguna, aunque se le salgan las tripas por ella.”
Don Quijote de la Mancha, por Miguel de Cervantes

Faltava ao cavaleiro andante que atende pelo nome de Manoel de Andrade, poeta cataranaense[*] de alto coturno, abrir seu baú e expor as suas relíquias ainda não publicadas, ou editadas esparsamente por ele e diversos observadores de sua obra. Aberta a arca literária, surgiram as palavras agora refletidas em um espelho mágico, que refletem não só reflexões sobre o mundo em transformação em que cresceu, sobreviveu e ainda vive, mas também entrevistas concedidas, comentários, referências de outros escritores. E alguns poemas novos, porque a poesia sempre está presente diante do espelho do autor:

         “E agora, eis-me diante da poesia,
         Assistindo desabar as velhas torres do encanto…
         Perplexo, que posso ainda?
         Sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.”

           Esperança e desencanto, que se transformam, na sequência do poema, em espanto e indignação, a esperança a projetar-se, cada vez mais, aos longínquos horizontes utópicos.

Não se trata, é claro, de um livro de memórias, embora as remembranças auxiliem a entender melhor sua trajetória neste mundinho de deus, no qual o intrépido ginete caçou dragões e perseguiu utopias. Vencedor em todas as liças? Nem sempre, eis que os dragões às vezes se transformavam em legiões e as quimeras se esvaneciam com o passar do tempo e pela força das revoluções silenciosas. Comprovam as palavras no espelho a dicotomia imposta à sua alma honesta e generosa, na qual comungam o ardor da luta social e o fervor da fé no mundo transcendente. Sempre, evidentemente, em benefício da realização do ser humano.

No galhardete de sua lança guerreira, sempre presente a palavra Poesia, também trincheira corajosa, cuja força expressiva opunha-se, por vezes, aos mais fortes gladiadores de plantão. Detalhes dessa saga moderna em seu livro “Nos Rastros da Utopia”, lançado em 2014.

Manoel de Andrade, revisitado em seu novo livro “Palavras no Espelho”, coincide com o jovem de espírito libertário que viveu intensamente o ano de 1968 e agora aproveita o aniversário cinquentão do movimento mundial que construiu uma esquina significativa na história da sociedade contemporânea. Sua mais recente obra inicia com uma revisão daquele ano, marcado, de janeiro a dezembro, pela manifesta insatisfação da sociedade humana em praticamente todos os quadrantes do planeta. Mas atentemos para o artigo precedente, batizado como “Nota do Autor”, no qual M.A. faz uma apologia ao livro impresso e explica porque recorreu à mídia gutenberguiana para publicar essa coletânea de escritos jogados à face de um espelho rútilo. Sem desmerecer sua tese, ele confessa que também utiliza o mundo virtual de tantos amigos e admiradores de sua obra, o novo suporte de registro do conhecimento que veio para democratizar a informação, não mais apanágio das cabeças intelectualizadas ou das bibliotecas físicas. Para encanto de M.A., podemos dizer que o ambiente digital é a verdadeira socialização da palavra, que tem tanta ou mais proteção do que a mídia impressa. (Uso aqui a antítese para comemorar os tantos diálogos que já desenvolvi com o autor de “As palavras no espelho”, eu sempre em defesa nos novos meios de comunicação, hoje ainda conturbados por se situarem em um período de transição e de nítido mau uso de seus processos. Mas benditos os de nossa geração, formados no universo de Gutenberg e ampliados nos sonhos de Bill Gates e Steve Jobs.)

Sem leitura linear obrigatória, o livro é notavelmente prazeroso. Pode-se absorvê-lo sem as cadeias do enredo, sete capítulos a formar uma mesa de sabores e saberes palatáveis ao gosto dos amadores e dos glutões literários.

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Lançamento marcado para o dia 25 de julho de 2018, às 19h30, Livrarias Curitiba (Av. 7 de Setembro, 2775 – Shopping Estação), em Curitiba

Mas não se pense em uma coleção de retalhos. Registrei, no início, que são relíquias acomodadas pelo tempo em um relicário precioso. Libertos do baú, revelam um patchwork artesanalmente bem formado, delicadamente forrado para o conforto da boa leitura.

Últimas palavras: sou grato a Manoel de Andrade pela inclusão de textos meus em seu novo livro e pelo convite, aceito com o maior prazer, para desenhar a capa.


 [*]Dizia o igualmente ilustre paranaense nascido em Blumenau (SC), Karlos Heinz Rischbieter, que os antepenúltimo e  penúltimo estados do sul brasileiro deveriam ser unidos em um único topônimo, como Cataraná ou Paranarina (união de Paraná e Santa Catarina), em razão de suas origens culturais, semelhanças do processo colonizatório e aproximações econômicas. Daí o gentílico cataranaense usado para identificar M.A., nascido em Rio Negrinho (SC), criado em Itajaí, também naquele estado, e transferido ainda jovem para Curitiba, onde encontrou seus destinos seguintes.

 

Dia Mundial da Poesia

21 de março marca o Dia Mundial da Poesia,  criado na XXX Conferência Geral da Unesco, em 16 de novembro de 1999. O objetivo deste dia é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da Poesia em todo o mundo.

Salve, Poesia, mãe de todas as paixões,
misericordiosa para todos os males.
Salve, Rainha das Palavras
e maga toda poderosa das ternuras e das bem-aventuranças,
acalentadora de corações, artífice de piedades.
Saúdo-te em teu dia glorioso
embora tenha cometido o pecado do abandono provisório.
Mas de ti não desdenhei.

Desenhei teus encantos
nos traços de rotas várias de multicoloridas imagens: ut pictura poesis.
Salve, mimética e metafórica arte,
jubilosa Érato, desejável Euterpe,
mensageira de precisões e ambiguidades,
portadora de lamentos e devaneios,
incubadora de sonhos e tormentos,
arrimo dos nubívagos.

Em teu dia volto a abraçar-te
e em meus braços trago a promessa firme
de em ti permanecer,
pois em teu seio tenho o melhor alimento.
Eia ergo, carmina nostra,
illos tuos misericordes oculos
ad nos converte.
Porque nós precisamos de ti,
agora e sempre.

Cleto de Assis – março de 2016

 

Reforma Bancária

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Após algum tempo de recesso voluntário, o Banco da Poesia quer anunciar seu retorno, abrindo suas portas a clientes e amigos que sempre lhe prestigiaram. Estamos em obras, preparando algumas inovações. Vamos dinamizar nossa sede, com acréscimo de recursos que o mundo da informática nos oferece e tornarão mais atraente e dinâmica nossa interação com os leitores.

Apesar do grande silêncio, nos últimos meses, acumulamos um grande número de visitas e recebemos muitos seguidores, o que nos incentiva ainda mais a continuar a desbravar o mágico mundo da poesia, o mundo plural da poesia. Plural como o universo, como lembrava Pessoa. Até já. Faltam apenas alguns tijolinhos. C. de Assis

O que é Poesia? (3)

O nosso baú de definições não para de crescer. Agora é a vez de Erly Welton Ricci colocar mais umas moedinhas poéticas neste cofre especializado que recolhe as infindas versões sobre esta arte.  Sua contribuição, além de estar aqui, foi também depositada no seu escaninho, na página especial.

poesia deve ser isso:
o que ferve e congela
o que assombra e desanuvia
o que apaga
e incendeia
acena
à cena vazia

poesia deve ser isso:
o que amalgama e fere
anátema do frio
o que crema e espalha
amassa, esfarela,
e entra no cio

poesia deve ser isso:
morfemas e lexias
qualquer sal
um risco
de difundir
a via
quase
abissal

Erly Welton Ricci

A campanha continua

O Poder da Palavra

Continuamos com nossa campanha publicitária em favor da Poesia.

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Sem perguntas. É o que pede José Dias Egipto

DesSolidão

José Dias Egipto, Portugal

Não me perguntes porque vivo.
Sirvo a Natureza no seu redemoinho.
Sou ninho de esperança nas árvores mortas.
São tortas as veredas da vida!

Não me perguntes porque escrevo poesia.
A alegria não se explica nem se descreve.
A verve surge do infinito do cosmos, subitamente.
E, humanamente, as palavras divinas diluem-se…

Não me perguntes no que, deveras, creio.
É a estrada do meio que procuro.
A luz ou o clarão por dentro do escuro.
A Natureza com o hálito de Deus bem no seu seio.

Não me faças perguntas no ar.
Não perguntes às águias se voam.
Não me façam perguntas
porque não são respostas o que desejo dar….