Dia da Língua Portuguesa

Minha Pátria é a Língua Portuguesa

Melhor seria ver e ouvir nosso idioma bem utilizado nos 365 dias do ano, por todos os brasileiros. Infelizmente ela ainda é vilipendiada em nosso cenário deseducado, ainda com grande quantidade de cidadãos analfabetos, se é que possam ser considerados incluídos na cidadania sem atingirem um mínimo grau de aculturação, por meio do uso das primeiras letras. Pior, ainda, é o semianalfabetismo, ou analfabetismo funcional, que campeia por nossas universidades, comungando com alunos e professores.

Melhor que Fernando Pessoa não há, no reino da lusofonia, para exemplificar o uso culto da língua-mãe. Ele a glorificou como a própria pátria, em um escrito atribuído a seu semi-heterônimo Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego. Vamos ouvir suas palavras na voz de Yuri Vieira, que as registrou no Youtube. Com elas, a homenagem do Banco da Poesia à mãe companheira de cerca de 300 milhões de seres humanos.

Axé, Olorum!

Paulo Valente, do frio curitibano ao calor baiano

Paulo_ValenteConheci Paulo Valente ainda bem jovem, ao lado de seu homônimo pai, um senhor de excelente bom gosto que manteve, durante muitos anos, em Curitiba, uma galeria de arte e de objetos de decoração. Com minhas andanças brasilianas, perdi contato com ele e nos cruzamos recentemente em diálogos feicebuquianos, dentro do natural amontoado de amigos comuns. E o redescobri como criativo fotógrafo, que utiliza sua visão plástica para reinventar a poesia. No clique fotográfico nasce o clique poético, que tem que ser instantâneo, minimalista. Algumas de suas produções são tão concisas que dispensam palavras, a poesia verte nas pequenas imagens. Faz brincadeiras com tachinhas e luz que se tornam sérias cenas de palco, algumas a lembrar dançarinas de balé.

Ele nasceu em Curitiba, em 1947, e desde jovem se dedicou às artes plásticas. Adotou a fotografia como ferramenta para o desenvolvimento de suas atividades artísticas, sempre acompanhando as diversas fases do artista. Ainda em sua cidade, participou de diversos concursos e salões. Mudou-se para Salvador em 1977, onde, paralelamente ao ofício de designer de interiores, continuou a desenvolver sua arte e a participar de salões e coletivas. Entre os anos de 1990 e 1993 suas obras estiveram presentes no acervo da Belanthi Gallery, de Nova Iorque, em exposições individuais e coletivas.

Em seus trabalhos mais recentes a fotografia é utilizada como mídia plástica e poética. Segundo ele, adota “o pseudônimo Olorum Piancóski menos para resguardar-me do que para acentuar o hibridismo cultural que pretendo revelar nesses rápidos e despretensiosos fotopoemas”.

Rápidos, talvez. Despretensiosos, nunca.

Saudamos o nosso Piancóski curitibano e o Olorum soteropolitano: Powitanie! Axé!

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Continua em próximos capítulos.

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Reflexões pluviosas

Depois da chuva

O Santo poeta

Pioneiro de muitas artes

anchieta

Quem foi o primeiro poeta brasileiro? Alguns defendem que foi José de Anchieta, o missionário jesuíta que aqui viveu de 1553 a 1597. Conta-se que ele escreveu um longo poema nas areias da praia de Iperoig (nome antigo de Ubatuba, no litoral paulista, que significa rio do tubarão – ypirú-yg – ou rio das perobas – yperó-yg). Diz a tradição, quase ou puramente lendária, que Anchieta teria escrito esse poema com o auxílio de um cajado ou caniço. Pelo menos é assim que o representam em pinturas, como a de Portinari, que ilustra esta página.

José de Anchieta nasceu em San Cristobal de la Laguna, em Tenerife, uma das sete ilhas do arquipélago das Canárias, Espanha, em 19 de março de 1534, portanto há exatos 480 anos.  Pertenceu a uma família nobre de 12 irmãos, mas abandonou suas origens ao escolher uma vida missionária.

Em 1551 foi estudar em Coimbra, Portugal, local onde teve o primeiro contato com a Companhia de Jesus, por meio de Francisco Xavier. Já aos 17 anos definiu sua vida religiosa. Na Companhia fundada recentemente por Inácio de Loyola fez um noviciado exigente, e mesmo com a saúde frágil adotou seus votos de castidade, pobreza e obediência. Em 1553, com apenas 19 anos, foi enviado para o Brasil com missão evangelizadora. Mas deveria continuar seus estudos, pois ainda não era sacerdote. Estudava Filosofia, Teologia, em meio a seu trabalho catequista, dando aulas e conhecendo melhor o povo indígena. Para melhor evangelizar, respeitava a cultura dos índios e procurou aprender a língua Tupi-Guarani. E foi além: estruturou gramaticalmente o idioma dos índios, ao escrever um vocabulário, uma gramática e diversos opúsculos para os evangelizadores. Conhecia muito bem o Latim, o Espanhol e o Português, o que lhe facilitou a abertura ao trabalho literário. Hoje é considerado o iniciador da poesia e da dramaturgia brasileiras, deixando cantos piedosos, poemas e autos e diálogos ao estilo de Gil Vicente, espalhados entre os primeiros colégios brasileiros fundados pelos Jesuítas, desde São Paulo. Suas cartas, enviadas a Portugal, se tornaram fonte preciosa para o registro da história brasileira daquela época, além de contribuições para o estudo da fauna, da flora e da ictiologia local e da coleta que fez sobre aspectos etnológicos e folclóricos.

Mas nem tudo era paz nas relações com os habitantes da nova terra. Mais ao interior viviam os Tamoios, povo bravio, que trariam dificuldades aos trabalhos de aproximação. Nesse sentido, foi fundamental a sua tarefa como intérprete de Manoel da Nóbrega, seu chefe provincial, que procurava salvar da destruição as primeiras colônias do litoral paulista. Nessa ocasião, permaneceu vários meses preso, como refém dos indígenas, para facilitar o trabalho de Nóbrega. Foi nessa situação que teria escrito o seu poema  A compaixão e o pranto da Virgem na morte do Filho, primeiro em Latim (De compassione et planctu virginis in morte filii), em plena praia, utilizando um bastão. Não se pode duvidar que ele possa ter utilizado a grande lousa de areia para ensinar os indígenas, escrevendo algo aqui e ali, ou mesmo para ensaiar versos.  Mas seria um ofício grandioso escrever 4172 versos – esta a medida de seu poema – na areia e guardá-los na memória para, mais tarde, transcrevê-los no papel e traduzi-lo ao Português. Milagre de um futuro santo?

Em 1566 foi enviado à Capitania da Bahia com o encargo de informar ao governador Mem de Sá sobre o andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Somente nesta época foi ordenado sacerdote, aos 32 anos de idade.

Anchieta foto 2

Sua admiração pelo Governador-geral, fundador do Rio de Janeiro, era grande e a ele dedicou outro enorme poema, considerado pelos exegetas como obra comparável aos poemas de Homero, por ele denominado De Gestis Mendi de Saa.

Mem-de-sa

Mem de Sá

Após a expulsão dos franceses da Guanabara, Anchieta e Manuel da Nóbrega teriam motivado Mem de Sá a prender, em 1559, um refugiado calvinista, o alfaiate Jacques Le Balleur, e a condená-lo à morte por professar “heresias protestantes”. Em 1567, Jacques Le Balleur foi preso e conduzido ao Rio de Janeiro para ser executado. Porém o carrasco teria se recusado a executá-lo ou teve dificuldades para fazê-lo prontamente. Diante do fato e talvez até movido por piedade, Anchieta o teria estrangulado com suas próprias mãos. O episódio é contestado como apócrifo pelo maior biógrafo de Anchieta, o padre jesuíta Hélio Abranches Viotti, com base em documentos que, segundo o autor, contradizem a versão. Mas investigações históricas, baseadas em documentos da época (correspondência de Anchieta e manuscritos de Goa) revelam que Balleur não morreu no Brasil. Teria sido conduzido a Salvador, na capitania da Bahia, e dali mandado a Portugal, onde teve o seu primeiro processo concluído em 1569. Em um segundo processo, no Estado Português da Índia, foi finalmente condenado pelo tribunal da Inquisição de Goa, em 1572.

Anchieta dirigiu o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba (ou Iriritiba), atual Anchieta, no Espírito Santo. Outra ação memorável da vida de Anchieta é a fundação da cidade de São Paulo pelo grupo de jesuítas que ele comandava, ao lado de Manoel da Nóbrega, a 25 de janeiro de 1554. Com o objetivo de catequizar os índios que viviam na região, os jesuítas erguem um barracão de taipa de pilão, em uma colina alta e plana, localizada entre os rios Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí, com a anuência do cacique Tibiriçá, que comandava uma aldeia de guaianases nas proximidades.

Cacique Tibiriça e José de Anchieta. Pintura de Claudio Pastro, acervo da sede do Anchietanum, em São Paulo, SP

Cacique Tibiriça e José de Anchieta. Pintura de Claudio Pastro, acervo da sede do Anchietanum, em São Paulo, SP

Em 1577 José de Anchieta foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos, sendo substituído, a seu pedido, em 1587. Retirou-se para Reritiba, mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória, no Espírito Santo. Um equívoco histórico levou Anchieta a ser considerado o primeiro professor brasileiro. Mas esse mérito pertence a um colega seu, chegado ao Brasil antes dele, em 1549, com Tomé de Souza, que desembarcou na Bahia com a primeira missão jesuítica. Era Vicente Rijo, português, nascido em 1528 e aqui falecido, em 1600. Conviveu com Anchieta por algum tempo, quando se trasladou para a região hoje ocupada pelo Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

Em 1595 obteve dispensa dessas funções e conseguiu retirar-se definitivamente para Reritiba, onde faleceu, em 1597. Seu corpo foi sepultado em Vitória.

Respondo à pergunta inicial: Anchieta não foi o primeiro poeta brasileiro, mas o autor do primeiro poema aqui composto, transcrito abaixo, com alternação dos dois idiomas originais. Do primeiro poeta brasileiro nato me ocuparei daqui a pouco.

Poema à Virgem

Padre José de Anchieta

Padre Anchieta, de Cândido Portinari

Padre Anchieta, de Cândido Portinari

De compassione et planctu virginis in morte filii

A compaixão e o pranto da Virgem na morte do Filho

Mens mea, quid tanto torpes absorpta sopore?
Quid stertis somno desidiosa gravi?
Nec te cura movet lacrimabilis ulIa parentis,
Funera quæ nati flet truculenta sui?

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do Filho chora tanto?

Viscera cui duro tabescunt ægra dolore,
Vulnera dum præsens, quæ tulit ilIe, videt.
En, quocunque oculos converteris, omnia lesu
Occurrent oculis sanguine plena tuis.

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,
Ao ver, ali presente, as chagas que Ele padece?
Em qualquer parte que olha, vê Jesus,
Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

Respice ut, æterni prostrato ante ora Parentis,
Sanguineus toto corpore sudor abit.
Respice ut immanis captum quasi turba latronem
Proterit, et laqueis colla manusque ligat.

Olha como está prostrado diante da Face do Pai,
Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.
Olha a multidão se comporta como Ele se ladrão fosse,
Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

Respice ut ante Annam sævus divina satelles
Duriter armata percutit ora manu.
Cernis ut in Caiphae conspectu mille superbi
Probra humilis, colaphos sputaque foeda tulit.

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado
O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.
Vê como diante Caifás, em humildes meneios,
Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

Nec faciem avertit, cum percuteretur; et hosti
Vellendam barbam cæsariemque dedit.
Adspice quam diro crudelis verbere tortor
Dilaniet Domini mitia membra tui.

Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso
Que arranca Tua barba com golpes violento.
Olha com que chicote o carrasco sombrio
Dilacera do Senhor a meiga carne a frio.

Adspice quam duri lacerent sacra tempora vepres,
Diffluat et purus pulchra per ora cruor.
Nonne vides, totos lacerum crudeliter artus,
Grandia vix umeris pondera ferre suis?

Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,
E o sangue corre pela Face pura e bela.
Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido
Mal susterá ao ombro o desumano peso?

Cernis ut innocuas peracuta cuspide ligno
Dextera tortoris figit iniqua manus.
Cernis ut innocuas peracuta cuspide plantas
Tortoris figit dextera sæva cruce.

Vê como os carrascos pregaram no lenho
As inocentes mãos atravessadas por cravos.
Olha como na Cruz o algoz cruel prega
Os inocentes pés o cravo atravessa.

Adspicis ut dura laceratus in arbore pendet,
Et tua divino sanguine furta luit.
Adspice: quam dirum transfosso in pectore vulnus,
Unde immixta fluit sanguine lympha, patet!

Eis o Senhor, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,
Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime!
Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto
Donde corre mistura de sangue e água.

Omnia si nescis, mater sibi vindicat ægra
Vulnera, quae natum sustinuisse vides.
Namque quot innocuo tulit ille in corpore poenas,
Pectore tot mater fert miseranda pio.

Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama
Para si, as chagas que vê suportar o Filho que ama.
Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,
Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.

Surge, age, et infensæ per moenia iniqua Sionis
Sollicito matrem pectore quaere Dei.
Signa tibi passim notissima liquit uterque,
Clara tibi certis est via facta notis.

Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus
Procura o Coração da Mãe de Deus.
Um e outro deixaram sinais bem marcados
Do caminho claro e certo feito para todos nós.

Ille viam multo raptatus sanguine tinxit,
Illa piis lacrimis moesta rigavit humum.
Quaere piam matrem, forsan solabere flentem.
Indulget lacrimis sicubi mæsta piis.

Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
Ela o solo regou com lágrimas tremendas.
A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,
Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.

Si tanto admittit solatia nulla dolori,
Quod vitam vitæ mors tulit atra suæ,
At saltem effundes lacrimas, tua crimina plangens,
Crimina, quæ diræ causa fuere necis.

Mas se tanta dor não admite consolação
É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,
Ao menos chorarás lastimando a injúria,
Injúria, que causou a morte violenta.

Sed quo te, Mater, turbo tulit iste doloris?
Quæ te plangentem funera terra tenet?
Num capit ille tuos gemitus lamentaque collis,
Putris ubi humanis ossibus albet humus?

Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?
Que região te guardou a prantear tal morte?
Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?
Onde está a terra podre dos ossos humanos?

Numquid odoriferæ cruciaris in arboris umbra,
Unde tuus lesus, unde pependit amor?

Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,
Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?

Hic lacrimosa sedes, et primæ noxia matris
Gaudia, crudeli fixa dolore, Luis
Illa fuit vetita corrupta sub arbore, fructum
Dum legit audaci, stulta loquaxque, manu.

Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,
No lugar da alegria, segura uma dor cruel,
Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,
Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.

Iste tui ventris pretiosus ab arbore fructus
Dat vitam matri tempus in omne piæ,
Quæque malo primi succo periere veneni
Suscitat et tradit pignora cara tibi.

Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre
Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,
E prefere a magia do nascer à força da morte,
Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.

Sed periit tua vita, tui peramabile cordis
Delicium, vires occubuere tuæ.
Raptus ab infesto crudeliter occidit hoste,
Qui tibi de mammis dulce pependit onus.

Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,
Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!
O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,
Que pesou incomodo em Teu doce seio.

Occubuit diris plagis confossus lesus,
Ille decor mentis, gloria luxque, tuæ;
Quotque illum plagæ, tot te affixere dolores:
Una etenim vobis vita duobus erat.

Morreu Jesus traspassado com terríveis chagas
Ele, formoso espírito, glória e luz do mundo;
Quanta chaga sofreu e tantas Lhe causaram dores;
Efetivamente, uma vida em vós era duas! 

Scilicet hunc medio cum serves corde, nec unquam
Liquerit hospitium pectoris ille tui,
Ut sic discerptus letum crudele subiret,
Scindendum rigido cor fuit ense tibi.

Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais
Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,
Feito em pedaços pela morte cruel que suportou
Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.

Cor tibi dira pium misere rupere flagella,
Spina cruentavit cor tibi dira pium.
In te cum clavis coniuravere cruentis
Omnia, quæ in ligno natus acerba tulit.

O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,
A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.
Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,
Tudo que é amargo e cruel o Teu Filho suportou na Cruz.

Sed cur vivis adhuc, vita moriente Deoque?
Cur non es simili tu quoque rapta nece,
Quando non illo est animam exhalante revulsum
Cor tibi, si vinctos mens tenet una duos?

Morto Deus, então porque vives Tu a Tua vida?
Porque não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,
Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?

Non posset, fateor, tantos tua vita dolores
Ferre, nec id nimius sustinuisset amor,
Ni te divino firmaret robore natus,
Linqueret ut cordi plura ferenda tuo.

Admito, não pode tantas dores em Tua vida
Suportar, aguentando se não com um amor imenso;
Se não Te alentar a força do nascimento Divino
Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.

Vivis adhuc, Mater, plures passura labores;
Ultima te in sævo iam petet unda mari.
Sed tege maternum vultum, pia lumina conde,
Ecce furens auras verberat hasta leves:
Et sacra defuncti discindit pectora nati
Insuper in medio lancea corde tremens.

Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,
Já te assalta no mar onda maior e cruel.
Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:
Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,
Rasga o sagrado peito ao teu Filho já morto,
Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.

Scilicet hæc etiam tantorum summa dolorum
Defuerat plagis adicienda tuis.
Hoc te supplicium, vulnus crudele manebat,
Hæc tibi servata est poena gravisque dolor.

Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,
Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!
Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!
Tão penoso sofrimento este castigo guardava!

In cruce cum dulci figi tibi prole volebas
Virgineasque manus virgineosque pedes.
Ille sibi accepit rigidos cum stipite clavos,
Servata est cordi lancea dira tuo.

Com O querido Filho pregado a Cruz Tu querias
Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.
Ele tomou para Si a dura Cruz e os cravos,
E deu-Te a lança para guardar no Coração.

Iam potes, o Mater, compos requiescere voti,
Hic tibi totus abit cordis in ima dolor.
Quod gelida excepit corpus iam morte solutum,
Sola pio crudum pectore vulnus habes.

Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,
A dor mudou para o fundo do Teu Coração.
Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,
Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.

O sacrum vulnus, quod non tam ferrea cuspis,
Quam nimius nostri fecit amoris amor!
O flumen, medio paradisi e fonte refusum,
Cuius ab uberibus terra tumescit aquis!

Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,
Que imensamente nos faz amar o Amor!
Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,
Que intumesce com água fartamente a terra!

O via regalis, gemmataque ianua cæli,
Præsidi turris, confugiique locus!
O rosa, divinae spirans virtutis odorem!
Gemma, poli solium qua sibi paupar emit!

Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,
Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!
Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!
Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!

Nidus, ubi puræ sua ponunt ova columbæ,
Castus ubi tenere pignora turtur alit!
O plaga, immensi splendoris honore rubescens,
Quæ pia divino pectora amore feris!

Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,
E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!
Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,
Feres os piedosos peitos com divinal amor!

O vulnus, dulci præcordia vulnere findens,
Qua patet ad Christi cor via lata pium!
Testis inauditi, quo nos sibi iunxit, amoris!
Portus, ab æquoribus quo fugit icta ratis!

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de Cristo.
Prova do novo amor que nos conduz a união!
Porto do mar que protege o barco de afundar!

Ad te confugiunt, hostis quibus instat iniquus;
Tu præsens morbis es medicina malis.
ln te, tristitia pressus, solamina carpit,
Et grave de mæsto pectore ponit onus.

Em Ti todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
Tu, Senhor, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!

Per te reiecto, spe non fallente, timore,
Ingreditur cæli tecta beata reus.
O pacis sedes! o vivæ vena perennis,
Aeternam in vitam subsilientis, aquæ!

Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!

Hoc est, o Mater, soli tibi vulnus apertum,
Tu sola hoc pateris, tu dare sola potes.
Da mihi, ut ingrediar per apertum cuspide pectus,
Ut possim in Domini vivere corde mei.

Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu Senhor!

Hac pia divini penetrabo ad viscera amoris,
Hic mihi erit requies, hic mihi certa domus.
Hic mea sanguineo redimam delicta liquore,
Hic animi sordes munda lavabit aqua.

Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifiquei com água a sujeira espiritual!

His mihi sub tectis erit, his in sedibus omnes
Vivere dulce dies, hic mihi dulce mori!

Embaixo deste teto que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.

Para não dizer que não falei de cores

Luzazul

Luzazul
Há luz de todas as cores:
vermelhas, amarelas, alaranjadas,
a colorir outras cores da natureza.
Há cores políticas, 
umas raivosas, outras ecológicas,
quase todas se dizendo miraculosas.
Seria bom se elas convergissem para a cor branca da paz,
que, aliás não é cor, mas o congresso de todas as cores.
Mas é uma pena que todas insistam em  afirmar
que a minha cor é mais bela que a sua.

Eu, por mim, prefiro a luz azul
que é azul mesmo ao contrário
e não fere os olhos, nem o coração.

Cleto de Assis • Curitiba/30.03.14

Novo depósito de Iriene Borges

14 de março próximo a Curitiba · Editado

A Antagonista

Iriene Borges

Antagonista

Vi-me em sua graça, musa cheia de virtude
e mais austera do que é fecundo suportar.
Súbito meu sol nascia entre os dentes
da fera de ciclo lunar
e quando nos sentia crescentes
ela me fazia minguar.
Em instintivo reparo abandonei seu altar
enquanto estragava seu vinho
e embolorava seu pão.

Antes que eu fruísse a liberdade
surgiu Nova
incrustrada em helênica figura.
Eis que me aprova e atribui verdade
em sibilos castelhanos.
Tem a estatura mental dos sábios gregos
e é animada pelo espirito dos livros.
Imita os bons samaritanos
ao amparar meus passos trôpegos
mas sem se deixar tocar.
É joia para ser vista pelos vidros.

Alarme disparado,
fui desfazendo-me
pelas veredas mais inóspitas
dessecando em esquecimento
e quase êxito
quando um hálito tépido
umedeceu minhas costas.
Ela
crescente arremedo
a encobrir-se em parcos tecidos
nata nos cantos da boca
e a erupção de outros pruridos
a vivificar-me em ritualísticas repulsas.
E anestesia com o sorriso
a brutalidade de arrastar-me
pelas alças do intestino.
Longo caminho percorremos
‒ Ela a titerear ‒
até que reclamei meu destino
e deixei-me eviscerar.

Em desprendimento flui contente
de ser enfim a pluma e o lenimento
até ir de arrasto num sopro de gratidão.
Ela
cheia de inocência e sensualidade
na precisão que algum Fídias moderno
talhara para o pasto das mídias
a salientar o meu anonimato
com o glamour dos ícones populares.
Disparei sob uma salva de soluços
num lampejo de recato.
Até o tempo revelar-me
com alguma articulação e molejo
entre os peripatéticos.

E sem demora pôs-se a questionar
minha filosofia uma face Minguante.
Diluída em niilismo antes de adquirir
a constituição que se restaura
reivindicou-me uma aura grotesca.
Carne em brasa que se deslumbra
com a fresca, sumi na umbra.

Destino negro, transpus onze círculos
sem apologia ao heroísmo
e após a instrução do abismo
dei-me à luz.
Certa de novo confronto vigiava
crente que ela irromperia
dentre as bestas do plenilúnio
mas veio sem os auspícios da lunação.
No seu credo o infortúnio
é um indício da iniciação
e reclina-se humildemente
enaltecendo meu despojo.
Intuí nos cicios da monja
uma artífice da lisonja
corrompendo estruturas nascentes.
O asco
manifesto espasmódico da revolta
tornou-me a ameaça belicosa
removida sob escolta
em engenhosa encenação.

Refiz-me
a compleição feroz ‒ escudo ‒
foi craquelando pelo riso.
Agora o frio entra pelas trincas
quando a diviso.
Às vezes através da madeira
um pressentimento encarna em arrepio
todavia ela não entra.
É a maneira descarnada da sombra
que penetra o cristal e puxa o fio
de uma multiplicidade virtual.

O tremor que fissura de dentro
e o comichão nas falanges miúdas
esmorecem nas gretas do silêncio.
Ela sabe que a ossatura range,
estala, rodopia e não desaba
como eu sei
que uma legião de vultos
não faz uma diaba.

Dia Internacional da Água

As águas sensuais de Neruda

Água, líquido incolor, inodoro e insípido – esta a definição que aprendemos na escola sobre o precioso elemento da natureza, um dos quatro fundamentais, segundo os antigos alquimistas – junto ao fogo, o ar e a terra. Se pensarmos bem, ela é o mais importante, pois sem ela não há vida. Dela nascemos, não do pó da terra, e sem ela morreremos. Ela oxigena o ar, alimenta a terra e ai do fogo que se intrometer, pois ela é capaz de extingui-lo.

Dizem que será mais preciosa que o petróleo, que o próprio ouro. E guerras já se fazem para disputá-la (atenção aos governadores Alckmin e Cabral, que ensaiam brigas pelas águas do rio Paraíba do Sul, face à seca que acomete a região Sudeste), principalmente em regiões onde ela escasseou e desertificou imensas áreas. Diz a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) que a cada 15 segundos uma criança morre, no mundo, de doenças relacionadas à falta de água potável, de saneamento e de condições de higiene. Mesmo o Brasil, rico em água potável, convive com a morte infantil causada por sua falta.

No dia 22 de março comemorou-se o Dia Mundial da Água, que se seguiu aos dias da Poesia e das Árvores/Florestas. Mas água também tem poesia e é indispensável para as plantas. Apesar das 24 horas de atraso, vamos lembrá-la com um belo poema de Neruda.

agua sexual

Pablo Neruda

Rodando a goterones solos,
a gotas como dientes,
a espesos goterones de mermelada y sangre,
rodando a goterones,
cae el agua,
como una espada en gotas,
como un desgarrador río de vidrio,
cae mordiendo,
golpeando el eje de la simetría, pegando en las costuras del
alma,
rompiendo cosas abandonadas, empapando lo oscuro.

Solamente es un soplo, más húmedo que el llanto,
un líquido, un sudor, un aceite sin nombre,
un movimiento agudo,
haciéndose, espesándose,
cae el agua,
a goterones lentos,
hacia su mar, hacia su seco océano,
hacia su ola sin agua.

Veo el verano extenso, y un estertor saliendo de un granero,
bodegas, cigarras,
poblaciones, estímulos,
habitaciones, niñas
durmiendo con las manos en el corazón,
soñando con bandidos, con incendios,
veo barcos,
veo árboles de médula
erizados como gatos rabiosos,
veo sangre, puñales y medias de mujer,
y pelos de hombre,
veo camas, veo corredores donde grita una virgen,
veo frazadas y órganos y hoteles.

Veo los sueños sigilosos,
admito los postreros días,
y también los orígenes, y también los recuerdos,
como un párpado atrozmente levantado a la fuerza
estoy mirando.

Y entonces hay este sonido:
un ruido rojo de huesos,
un pegarse de carne,
y piernas amarillas como espigas juntándose.
Yo escucho entre el disparo de los besos,
escucho, sacudido entre respiraciones y sollozos.

Estoy mirando, oyendo,
con la mitad del alma en el mar y la mitad del alma
en la tierra,
y con las dos mitades del alma miro al mundo.

y aunque cierre los ojos y me cubra el corazón enteramente,
veo caer un agua sorda,
a goterones sordos.
Es como un huracán de gelatina,
como una catarata de espermas y medusas.
Veo correr un arco iris turbio.
Veo pasar sus aguas a través de los huesos.

Dia Mundial da Água

ÁGUA SEXUAL

Rodando em solitárias goteiras,
em gotas como dentes,
em espessas goteiras de geleia e sangue,
rodando em goteiras,
cai a água,
como uma espada em gotas,
como um desgarrador rio de vidro,
cai mordendo,
golpeando o eixo da simetria, grudando nas costuras da alma,
rompendo coisas abandonadas, empapando o escuro.

Somente é um sopro, mais úmido que o pranto,
um líquido, um suor, um óleo sem nome,
um movimento agudo,
fazendo-se, espessando-se,
cai a água,
em goteiras lentas,
rumo a seu mar, até se seco oceano,
até sua onda sem água.

Vejo o verão extenso, e um estertor saindo de um silo,
adegas, cigarras,
populações, estímulos,
habitações, meninas
dormindo com as manos no coração,
sonhando com bandidos, com incêndios,
vejo barcos,
vejo árvores de medula
eriçados como gatos raivosos,
vejo sangue, punhais e meias de mulher,
e cabelos de homem,
vejo camas, vejo corredores onde grita uma virgem,
vejo cobertores e órgãos e hotéis.

Vejo os sonhos sigilosos,
admito os pósteros dias,
e também as origens, e também as lembranças,
como uma pálpebra atrozmente levantada a força
estou olhando.

E então há este som:
um ruído escarlate de ossos,
um grudar-se de carne,
e pernas amarelas como espigas a se juntar.
Eu escuto entre o disparo dos beijos,
escuto, sacudido entre respirações e soluços.

Estou olhando, ouvindo,
com a metade da alma no mar e a metade da alma
na terra,
e com as duas metades da alma olho o mundo.

E ainda que feche os olhos e me cubra o coração inteiramente,
vejo cair uma água surda,
em goteiras surdas.
É como um furacão de gelatina,
como uma catarata de espermas e medusas.
Vejo correr um arco íris turvo.
Vejo passar suas águas através dos ossos.

Tradução e ilustração de Cleto de Assis