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O Poder do X

Reflexões do C.A.R.A. na Sexta-feira Santa

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C.A.R.A. são as iniciais de Carlos Alberto Rodrigues Alves. Mas a coincidência vem a calhar, pois ele é O Cara. Teólogo, pedagogo, Pastor evangélico e professor, porém sua profissão (de fé) verdadeira é ser amigo de muita gente. Quase sempre de bom humor, faz de versos de Vinicius sua máxima de vida: “a alegria é a melhor coisa que existe”. E também verseja, muitas vezes, embora sua melhor expressão artística esteja nas pontas do dedos, bom violonista que é. É casado com Luciana e tem três belos filhos: Giovani, Kauan e Giulia.

Hoje assume sua conta no Banco da Poesia, citando um de nossos poetas maiores, mas expondo uma visão da realidade que bem demonstra sua sensibilidade poética. Virão, em breve, versos seus.

Sobre Eriberto e seu cãozinho

Nesta semana santa, comovi-me diante de um catador de papel e morador de rua. Ele passa todos os dias em frente ao meu trabalho. Detalhe: sempre acompanhado de seu fiel e magérrimo cãozinho. Eriberto disse-me que não aceitou a oferta generosa de uma Ong que queria lhe dar um abrigo com maior dignidade. Razão de não ter aceito a generosidade: “ Eles me disseram que eu não poderia levar o Piloto para morar comigo”.

Vendo esta cumplicidade existencial entre o pequeno animal e seu dono entendi um pouco mais o poema do Drumond:
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Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas ainda tens um cão…

Interpretei a cena que vi como mais uma lição de que nosso olhar não deve focar as nossas vias-sacras e sim as ressurreições constantes que a vida nos oferece. Noites que se transformam em manhãs, invernos que se tornam primaveras, lagartas que se metamorfoseiam em borboletas… Ou um cãozinho, com seu olhar de amigo, que nos comprova o valor da lealdade. C. A. R. A.

Sensações outonais

Centenário do Caqui

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        Nesta semana são comemorados muitos eventos. Ao Dia da Poesia já fiz homenagem especial. Mas há também o Dia Internacional da Síndrome de Down (21/03), ao qual também dedicamos especial atenção, há algum tempo, assim como ao Dia Mundial da Água (22/03). No dia 21 também se comemora o Dia Universal do Teatro, do qual poucos falaram.

Mas o início do Outono, tão lembrado no Banco da Poesia: em 2009, Mais Outonos franceses; em 2012, Saudação ao Outono e Nesses veludos pálidos de Outono; repeteco em 2014, com Bem vindo, Outono. E esta estação do ano, que carrega um pouco das outras três e se associa à vida humana como metáfora dos derradeiros anos, tem, para mim, além do sentido figurado da idade avançada, um imenso gosto de infância. Porque o Outono é também a estação das frutas, que amadurecem nas árvores enquanto as folhas secam. E uma das boas lembranças é o variado sabor dos caquis que aprendi a amar lá no começo de minha história.

Na pequena Mafra, em Santa Catarina, onde vivi os melhores anos (quem inventou a bobagem de que a velhice é a melhor idade?), saboreei as melhores peras, as melhores ameixas e os melhores caquis. Destes, havia várias espécies. O amargo, que só se podia comer quando bem maduro (quando pouco maduro, causa aquela sensação de “amarrar a boca”); o café ou chocolate, de doçura especial mesmo ainda verdolengo; o coração-de-boi, gigante que equivalia a uma refeição, já incluída a sobremesa. Nunca os tive no quintal de minha casa, mas era fácil encontrá-los nos pomares dos vizinhos e dos conhecidos de meus pais, sempre dispostos a dividir a colheita anual. Mais tarde, travei relações gastronômicas com outras espécies, já cultivadas pelos japoneses que se estabeleceram principalmente em São Paulo, na região de Mogi das cruzes. A produção em grande escala fixou espécies comerciais, como o Taubaté, Rama Forte e Fuyu e, de país receptor da fruta trazida pelos colonos japoneses, o Brasil já se torna exportador, ainda que em pequenos volumes.

O caqui maduro, quase gelatinoso, desmancha-se na boca de quem os consome quase voluptuosamente, devagarzinho, parcimoniosamente, diria até com certa avareza, que é para não degluti-lo rapidamente. Dá gosto permanecer com ele na boca, sentindo seus sabores, apesar de dispensar mastigação. Não é à toa que ele carrega em seu nome científico o gênero dióspyrus, que significa “alimento de Zeus”. Aliás, em Portugal ele conserva seu nome tradicional: lá não pergunte pelo caqui (do japonês kaki), mas pelo dióspiro.

Mas o que faz o caqui neste blog dedicado à Poesia? Em primeiro lugar, porque boa recordação da infância é poesia pura. Depois, porque amizade também é poesia e ganhei, na última semana, belos caquis produzidos na chácara de Neiva e Manoel de Andrade, diletos amigos. Também porque o bom alimento do corpo é também alimento prazeroso para a alma, o que também pode ser transmutado em poesia. E ainda guardo a imagem de uma grande plantação de caqui do interior de São Paulo, com os caquizeiros repletos de frutos alaranjados, sem vestígios de folhas, causando a impressão de um quadro vivo pintado por Van Gogh: também puríssima poesia. Finalmente, porque acabei de descobrir que o caqui veio para o Brasil em 1916, exatamente há cem anos. E caqui é fruta típica do outono brasileiro.

Notaram como o Outono é inspirador? Portanto, saudações ao Outono de 2016, com sabor de centenários caquis maduros.

Cleto de Assis – março de 2016

Das Alagoas chegam santas águas

Declaração de amor à água

Walter Bezerra – Alagoas

Nascente da nossa utopia, água doce dos nossos sonhos, água pura da nossa infância cristalina. Pingo de gente, transparências, rebeldia.

Bica no quintal, cair n’água, corpo molhado, roupa encharcada, conter a água da pingueira na mão em concha, meter com gosto o pé na poça d’água, barquinho de papel, soltar bolas de sabão.

O reflexo da lua, o rosto refletido no espelho ondulado do rio.

Água de beber, da quartinha, pote, jarra, cântaro, moringa, cantil, bilha, cuia, filtro. Filtros de nossas experiência e buscas.

Matar a sede; sede de viver.

Lavar o corpo, lavar roupa, lavar pratos, lavar a alma.

Mergulhar, nadar, pescar, surfar, velejar, navegar sem rumo, sem remo.

Água doce, salobra, salgada, água mineral, água destilada, água morna, água fria, água benta, água de cheiro, aguardente, aguaceiro.

Águas que se movem feito correnteza em nossas veias e que, muitas vezes, transbordam de emoção em dilúvios, tempestades.

Dissipam-se, precipitam-se, deságuam.

Chamam-na também de hidróxido, monóxido, protóxido de hidrogênio.

Chuva chovendo, pingo d’água pingando. Neve, neblina, granizo, orvalho, garoa.

Águas que enchem mares, rios, riachos, glaciares, lagoas, lagos, lagunas, adutoras, açudes, poços, cisternas, cacimbas, barris, tonéis, baldes, bacias e se fazem reservas nos porões do Planeta.

Lembram-nos as caravelas, balsas, canoas, botes, navios, submarinos, travessias, travessuras.

Poseidon, Medusa, Atlântida, Noé, sereias, carrancas, Iemanjá.

Águas do Atlântico, Pacífico, Nilo, Amazonas, Golfo do México, Mississipi, Velho Chico, Alagoas, Manguaba, Niquim, Mundaú.

Berços do boto cor-de-rosa, cavalo-marinho, água-viva, tartarugas, peixe-boi, piranha, foca, pinguim.

Sururuuuuu, fresco! Vai passando o camarão! Olha a ostra, polvo, taioba, piaba, caranguejo, bagre, camurim, pilombeta, muçum, agulhinha, surubim, pisirica, traíra, pitu, mororó, mandim!

Água de onde se originou as espécies, segundo Darwin, e que batizou Cristo, segundo a Bíblia.

Água que cai do céu generosamente e se faz energia, luz.

Onipresente nos campos, irrigando feijão, arroz, milho, mandioca, linhaça, brócolis, uva, caju, cajá.

Água que inspira os poetas e se eterniza canção e esperança: “Lata d’água na cabeça/lá vai Maria, “Foi um rio que passou na minha vida”, “São as águas de março vencendo o verão”, “Terra! Planeta Água”.

Som da chuva batendo no telhado, chuva molhando tulipas, bromélias, acariciando as palhas do coqueiro, as folhas da mangueira, correndo rios afora. Marulho das ondas, cachoeira cantando, divina sinfonia aquática.

Fonte e essência da vida, a água é mãe.

Se nós não preservamos e conservamos idolatra e amorosamente esse ouro líquido, a nossa consciência se evaporará, gota a gota.

Uma incelença entrou no Paraíso

Humor no céu

Walter Bezerra / de Alagoas

No translado para o céu, Chico Anysio ficou na dúvida sobre com qual caricatura iria se apresentar no paraíso. Silva, Popó, Coalhada, Haroldo, Salomé, Azambuja, Alberto Roberto, Painho, Bento Carreiro, Tavares, Gaspar, Canavieira, Quem, Quem… ou Justo Veríssimo, representante legítimo da corruptocracia?

Chico levava na bagagem a criação de 209 personagens memoráveis, entre os por ele interpretados e os que ele criou para outros humoristas, como o Seu Peru (Orlando Drummond), e o Seu Boneco (Lug de Paula). Com passagem pelo jornalismo esportivo, rádio, TV, teatro, literatura, música, dublagem, imitação e pintura, Chico fora, ainda em vida, idolatrado como ídolo, sábio, gênio, mito, fenômeno. Sociólogo do riso, iconoclasta, Deus do humor, Chico, porém, não se gabava com essas alusões ou – como diria ele – bajulações. Dizia-se simplesmente ”humorista do povo”.

Chegando ao céu, vestindo a camisa do Vasco, ele ouviu um background de risadas de auditório. Dava para distinguir inequivocamente a gargalhada inconfundível de boas-vindas de Nair Belo. Chico deparou logo com uma galera da pesada, donos também de um humor refinado e inteligente, segurando uma faixa: “Bem-vindo, Chico Total!” Era a bancada brasileira do riso no Planalto Celestial: Mazzaropi, José Vasconcelos, Ivon Curi, Costinha, Paulo Gracindo, Walter D’Ávila, Renato Corte Real, Grande Otelo, Golias, Mussum, Zacarias, Brandão Filho, Zezé Macedo, Rony Cócegas e Francisco Milani, liderados pela lendária Dercy Gonçalves, que, de cara, à sua maneira escrachada, quis confortar:

— Fica triste não, Pantaleão, a vida aqui não tem mentiras, não é lá muito engraçada, mas é melhor do que aquela porra lá embaixo!

Nesse ínterim, Chico ouve passadas vindo em sua direção. De súbito, à sua frente, surge um personagem histórico, dentro de uma túnica marrom. Era o seu xará Francisco, o de Assis, figura religiosa à esquerda do salafrário Tim Tones, ao qual Chico dedicara fiel adoração profissional. Devoto e seguidor de carteirinha do Protetor dos Animais, Chico acenou ajoelhar-se, no que foi repreendido:

— Não, não precisas, irmão. Somos da mesma estatura espiritual e intelectual. Vimos das mesmas origens e comungamos lutas, buscas e objetivos parecidos. Eu por minha opção pelos pobres e oprimidos e pela minha abnegação material. Tu pela generosidade humana e pela postura crítica da tua verve criativa e irreverente. Vamos por ali, ao encontro do Onisciente. Ele te espera para uma conversa informal. “É vapt-vupt!”- disse São Francisco, sorridente, ressuscitando a frase do velho Professor Raimundo, enquanto apontava para o Portão da Eternidade.

Chico apressou os passos e entrou no Recinto dos Justos. Deus, de cima de sua onisciência, saudou o humorista já com uma lisonja desnorteante, dessas que massageiam os mais despretensiosos e acanhados egos:

— É, Anysio, o Jô Soares tem razão. Tu realmente desmentes a frase “ninguém é insubstituível”.

— “Nem tanto, Mestre!” – rebateu Chico, acuado, meio sem graça, citando um bordão de um dos tipos da Escolinha.

— Verdade! Tu só não foste considerado o melhor e o mais conhecido humorista do mundo porque eu não te batizei com uma língua inglesa. Se tu tiveste nascido norte-americano ou inglês, com certeza tua fama teria corrido o mundo. E pensar que tu querias ser jogador de futebol! Isso não aconteceu porque assim estava escrito. Seria uma perda para a infinita comédia humana. Não tinhas vocação para Pelé. Mas, no humor, foste, sim, um craque. “Queria ter um filho assim!” – revelou Deus, com soberba paternal.

— Mas, Divino, por que me deletasse? Eu não estava a fim de embarcar agora não. Tinha umas coisinhas ainda a fazer. Quando o Senhor convocou a Darcyr, ela tinha 1001 anos. Por que não me permitisse a mesma data de validade, pelo menos uns 95, 98 anos? – reclamou Chico.

— Cada caso é um caso, “meu garoto”! Aliás, essa conversa eu já tive com o Calcanhar de Ouro e com O Anjo das Pernas Tortas, entre outros. É aquela história da livre escolha. Eles escolheram o álcool; tu, o cigarro. Lembras que disseste que fumar foi o teu grande arrependimento?! “Saúde é o que interessa; o resto não tem pressa. Iiiissa!” “Bateu pra tu!?” – explanou Deus, homenageando o recém-chegado com bordões de sua intimidade.

O cearense de Maranguape meteu o rabo entre as pernas e se rendeu:

— É… fumar, sinceramente, foi…

— “Não precisa explicar. Eu só queria entender!” – satirizou Deus, invocando a frase predileta do Sócrates, personagem do Planeta dos Macacos e também da Escolinha.

— Digníssimo, e a corrupção, as tramóias, os escândalos?  Os pobres lá embaixo… como ficam? – quis saber Chico, preocupado.

Deus, em conspiração, piscou o olho para São Francisco, que ouvia o diálogo desde o início, e alfinetou, em alto e bom som:

— “Tenho horror a pobre! Quero que pobre se exploda!” Ser dono do mundo não é nada engraçado e nem gratificante. Eu faço tudo por aquele povo lá de baixo. Apesar de sua insistente gula material, suas babaquices egocêntricas, suas lambanças judiciais e trapaças políticas, dou oportunidades para arrependimentos e correções. Através de poucos homens probos, faço refletir, oriento, aponto os caminhos a trilhar. Vez em quando, só para alertar que ainda estou vivo, faço alguns milagrezinhos. Faço tudo que posso e até o que não devo. E só exijo uma bagatela: a FÉ! “E o salário, ó!”

Depois do desabafo irado, Deus saiu à francesa e às gargalhadas. Diante daquela cena ímpar, Francisco, seguindo o estilo do Eterno, despediu-se, espirituoso:

— “Beijinho, beijinho, pau, pau!”

Minutos depois, Rogério Cardoso – esperançoso – aproximou-se e murmurou para Chico:

— E aí, Amado Mestre, a Escolinha vai rolar aqui ma cobertura? Chico evocou um dos seus personagens preferidos e, amuado, prometeu:

—  “Bento Carneiro, vampiro brasileiro… Deixa eles, minha vingança será malígrina!”

Walter Bezerra, de Maceió, reflete sobre o Fim do Mundo

Crônica sobre o fim do mundo

Sabemos que o mundo não se acabou no ano 2000, frustrando a interpretação de uma das centúrias do astrólogo, astrônomo, alquimista, erudito e mago francês Michel Nostradamus.

Agora, os donos da bola de cristal estão afirmando que o dia 21 de dezembro de 2012 será o fim do mundo (ou o início de um novo ciclo, como dizem os mais românticos), segundo previsão apocalíptica baseada na cultura maia.

O pressentimento é que o Sol nascerá, no tal dia, aliado ao planeta e ao centro da Via Láctea, um fato astronômico que só acontece a cada 26 mil anos e que provocará o cataclismo, causando o fim da vida na Terra.

Em alguns países, como na Espanha, as pessoas de alto poder econômico estão construindo, em sistema de cooperativas, os famosos bunkers, refúgios subterrâneos emergenciais, para se protegerem da possível explosão do planeta.

Os bunkers permitem que as pessoas permaneçam no interior deles até 3 anos, respirando ar puro e sobrevivendo à base de medicamentos e alimentos estocados. Eles estão protegidos por uma capa de 60 centímetros de concreto e contam com filtros de partículas radioativas para evitar a infiltração de resíduos tóxicos ou a passagem de radiação ou bactérias.

A história dos bunkers é uma realidade inconteste. Mas, digamos que as pessoas realmente acreditem que o mundo vai se acabar em 21 de dezembro, eu fico a imaginar, cá da minha porção vidente hilária, o que poderia acontecer diante dos efeitos colaterais causados pela síndrome do pânico generalizada:

Milhares e milhares de mulheres grávidas desesperadas por não poderem sequer conhecer a cara dos frutos de seus ventres;

Mulheres casadas – reprimidas, sofridas e traídas por seus maridos – pulando, por simples vingança, a cerca pela primeira e última vez;

Outras revelando, para seus maridos mulherengos, que tais filhos não são deles, mas dos vizinhos, patrões e pés de lã;

Outras ainda, agora decididas e encorajadas, revelando suas fantasias sexuais a seus maridos, namorados e parceiros de cama conservadores e recatados sexualmente;

Caretas e falsos moralistas experimentando maconha, cocaína, LSD e outras drogas alucinógenas e “reveladoras”;

Pais repressores, arrependidos, pedindo perdão a seus filhos;

Boa percentagem dos católicos, evangélicos, mulçumanos, espíritas e outros crédulos rogando a Deus para que lhes salve as almas, posto que só eles – por serem religiosos confessos e praticantes – merecem mais do que ninguém sobreviver à tragédia;

Centenas de milhares de agnósticos saindo de cima do muro e fazendo opção definitiva por Deus;

Empresários e milionários gastando tudo com viagens, extravagâncias e orgias;

Maus políticos, insaciáveis, promovendo a farra do Dinheiro Público dos Últimos Dias;

Homens e mulheres de bem revelando seus quinhões corruptos camuflados;

Multidões incautas, pobres, honestas e sem grandes ambições jogadas ao deus-dará;

Empregados e bajuladores mandando seus gerentes, diretores e patrões tomarem no devido lugar;

Formação acirrada e célere de cartéis, empresários majorando os preços, inflação a todo pique;

Devedores rindo da cara de seus credores;

Aproveitadores e caloteiros adquirindo tudo a crédito: carros de luxo, lanchas, vinhos, uísques, jóias, casacos de couro e perfumes caríssimos, visando desfrutar os (últimos) prazeres da vida;

Todo mundo, pessoas jurídicas e físicas, sonegando impostos, provocando a falência múltipla de países, estados e municípios e quebrando, por osmose, seus funcionários e fornecedores;

Tchau, tchau serviços essenciais públicos (saúde, segurança, educação etc.)!;

Estupradores de plantão violentando ídolos, divas e paixões adormecidas e dissimuladas;

Homossexuais enrustidos assumindo suas opções e preferências sexuais,

Vegetarianos devorando carnes, inclusive vermelhas, e naturalistas comendo produtos de origem animal, incluindo enlatados;

Naturistas e exibicionistas desfilando nus pelas ruas, sem nenhum pudor ou constrangimento;

Comercialização massificada de confessionários eletrônicos aplicados em iPhones, (concessão já aprovada pela Igreja Católica), e a efervescência da prática do Sacramento da Confissão nas paróquias de todo o mundo;

O Vaticano revelando, ainda que tarde, seus segredos históricos e eclesiásticos guardados secularmente a sete chaves;

Líderes de todas as facções religiosas revelando – em confissão e por desencargo de consciência – que Dostoiévski, Nietzsche, Saramago, Chaplin, Galilei, Reich, Freud, Einstein, Huxley, Epicuro, Fernando Pessoa, Thomas Edison, Charles Darwin e Lennon, entre inúmeros gênios, eram figuras sapientes, confiáveis, generosas e amáveis, dignos de serem ouvidos e seguidos;

A NASA tirando do baú e divulgando, embora sem mais nenhuma serventia, suas descobertas científicas e pesquisas espaciais sigilosas;

Terroristas e homens-bombas explodindo de raiva, revoltados com o efeito bumerangue;

Todo mundo, incluindo aidéticos, praticando sexo sem camisinha;

Pedófilos dissimulados praticando suas taras imorais e esdrúxulas;

Psicanalistas, psicólogos e terapeutas irresponsáveis seduzindo seus pacientes;

Homofóbos, racistas, chauvinistas, xenófobos e preconceituosos em geral praticando calorosamente suas aversões nefastas;

Depravação, obscenidade, parentes copulando com parentes, Sodoma e Gomorra se reeditando, tudo como Satã quer e gosta;

Pessoas revoltadas fazendo justiça com as próprias mãos, visando, por exemplo, vingar a morte do irmão assassinado ou a da mãe acidentada no trânsito;

Pessoas injustiçadas dando, numa atitude revanchista, o troco a seus déspotas e opressores;

Oportunistas e caras de pau vendendo terrenos na Lua e em Marte, à vista e em espécie, com desconto de 90%;

Internautas inescrupulosos espalhando boatos e defecando nas redes sociais contra seus desafetos;

Desesperados querendo ser tornar, a todo custo, cobaias de extraterrestres, só para fugir da catástrofe;

Propaganda de lançamento de um novo produto: Fique invisível e se livre da explosão mundial!

Grandes laboratórios farmacêuticos futurando zilhões e zilhões de euros com a pandemia de doenças como a antlofobia, astrofobia, brontofobia, termofobia, calipsefobia, demonofobia, somnifobia, meteorofobia e necrofobia, entre outros transtornos de ansiedade de nomes morfológica e semanticamente psicodélicos;

Superpotências pedindo perdão à Humanidade pela ganância capitalista e ocupações imperialistas, que causaram guerras e mortes de milhões de pessoas inocentes em diversos continentes do Planeta.

Enfim, se as pessoas acreditassem plenamente na previsão apocalíptica, o fim do mundo seria um verdadeiro deus nos acuda, uma bagaceira sem igual.

Mas, se eu fosse Deus, não destruiria o mundo não. Faria algumas reformas essenciais, justas e necessárias

Primeiro ato: em vez de Terra, o planeta passaria a se chamar Paz!

Em seguida, ignoraria essa conversa de herdeiros  do pecado original. Nada de pagar o justo pelo pecador! Nem aqui, nem na China!

Chega de tragédias: não haverá terremotos, tsunamis, tornados, vulcões, dilúvios ou qualquer outro fenômeno natural destrutivo em nenhum lugar do mundo!

Eu, o Todo-Poderoso, acabaria com a indústria bélica. Não haverá bombas nucleares, mísseis e nenhum tipo de arma de fogo sobre o planeta!

Eu, o Criador Onipresente, faria a reforma racial: não haverá brancos, negros, amarelos, índios.Todos serão coloridos!

Eu, o Soberano Onipotente, implantaria a reforma geográfica: não haverá país maior que outro! Todos terão os mesmos metros quadrados e a mesma quantidade de recursos e belezas naturais! Todos falaram uma só língua e suas moedas correntes terão o mesmo valor cambial! Não haverá mais superpotências e nem impérios!

Eu, o Supremo Magistrado, faria a reforma moral: fora todos os corruptos, crápulas, usurpadores e ditadores de qualquer tendência político-ideológica!

Eu, o Senhor da Democracia, promoveria também a reforma social: todos serão realmente iguais perante a lei e gozarão dos mesmos privilégios materiais e culturais!

Eu, o Sumo Sacerdote da Alma, faria, com urgência e sem pestanejar, a reforma religiosa e espiritual: a partir de hoje, a religião do planeta será o Amor!

E, por fim, eu, o Onisciente, decretaria: não tentarás contra a natureza. A partir de agora, a consciência ecológica passará a ser matéria disciplinar obrigatória em todas as escolas do planeta Paz!

Walter Bezerra

(ilustração de Cleto de Assis)

 

Últimos dezembros

Vivemos um novo dezembro. Fim de ano, renascer de esperanças e renovação de promessas. Festas, comilanças, fome aqui e ali, bebedeiras, ressacas, fogos de artifício, ensaios de solidariedade. Declarações de amor e amizade que, muito provavelmente, serão esquecidas a partir de janeiro ou no tempo que correr após o próximo carnaval. Dizem os apocalípticos que será o último dezembro completo da humanidade, pois está marcada a data fatal do calendário Maia: 21 de dezembro de 2012.

O próximo ano será o ano do Armageddon, a batalha final prenunciada pela Bíblia.  Nostradamus também volta ser lembrado e tem gente que jura que ele (já usado para outras mortes do mundo, em épocas passadas) igualmente previu algo terrível para o próximo final de ano. Mas também há previsões científicas, que dizem ser 2012 o ano do fenômeno da Precessão, ou do alinhamento cósmico, no qual o eixo da Terra mudará seu ângulo em relação à galáxia. Prevê-se também a inversão dos polos da Terra, com cataclismos fantásticos, erupções vulcânicas, terremotos,  tsunamis e colossais tormentas solares, que causarão colapsos nas redes elétricas e eletrônicas.

O pior (ainda pode haver coisas piores do que os desastres anunciados?) será o deslizamento da crosta terrestre, desarranjando novamente a posição dos continentes. A vingança de Gea, por não sabermos dela cuidar. Ou de uma justiceira alienígena, Némesis, a deusa da vingança, uma estrela que poderá afetar terrivelmente a vida terrestre, devido a sua aproximação. Também com agenda marcada para 2012. E os asteróides, já vistos em produções holiudianas, que poderão (ou deverão?) chocar-se com nosso planetinha querido, igualmente no próximo ano?  Têm até identidade própria, alfanuméricas:  2003 QQ47 ou VD17 2004, monstros de pedra que podem por um ponto final na nossa vidinha nem sempre tão mansa como gostaríamos. Tudo isso sem falar no degelo total do polo norte, com suas consequencias imagináveis.

Os mais otimistas ( e ponha-se otimismo nisso) falam no início de uma nova fase para a humanidade, de conscientização universal e de abandono do egoísmo que, até agora, tem comandado nossa história.

Nós, que amamos a Poesia, mesmo quando ela se nos mostra triste e até trágica, preferimos acreditar que a humanidade, pouco a pouco, alcançará o caminho do equilíbrio social e da harmonia universal. Desastres sempre ocorreram e fazem parte da história natural do planeta. Enquanto eles não vem, preferimos acreditar que ainda haverá muitos dezembros felizes para muitos, infelizes para alguns. Dezembros luminosos, não necessariamente candentes devido a bombas ou asteróides vingadores.  Dezembros que continuarão a lembrar o simbolismo de um menino que renasce todos os anos para, depois de adulto, pregar paz e amor. Símbolo bom para religiosos e não religiosos.

Menino despertado, neste dezembro, pela crônica poética de Vera Lúcia Kalahari, por ela enviada lá de Portugal. Menino que lembra todos os meninos que fomos, que somos e que seremos, como o menino de João Manuel Simões, exposto no seu mais recente livro de poemas, Memórias Breves do Menino Antigo, sobre o qual escreverei mais tarde. Atrevo-me a emprestar o texto da amiga Vera Lúcia para dele fazer minha mensagem de Natal, endereçada a todos os amigos do banco da Poesia. (Cleto de Assis)

Crônica do Menino-Deus

Vera Lúcia Kalahari

Nasceste.
Chegaste num dia frio de sol cadente.
Dormirás sobre estrelas e trazias no cabelo o ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro: o peso assustador, esmagador, do mundo…
Nos olhos, a pureza duma açucena, o brilhar de prantos que jamais choraste.

Nasceste. Não vieste para reinar entre pratas, ouro e pedras, como
aqueles que se intitulam teus seguidores.  Chegaste só, com a chuva
que tombava num telhado em ruínas. Agora, dormes num monte de feno
quente, cheirando a campo. Perto, tua mãe vela docemente com o peso
dum filho que é seu, mas que o mundo roubará.

Nasceste, menino, Homem-Deus, mas não ficaste.
Encontraste, em cada esquina, um Judas
para te trair e uma coroa de espinhos para te ferir com o peso dos
pecados a curvar-te, a enterrar-se até ao fundo do teu coração. Estás
em tudo, Menino-Deus…

Pena teres partido. Não teres mantido o teu
reinado, Tua humildade imensa de cordeiro, entre os homens.
Porque então, Menino-Deus, esta não seria a terra de rios intumescidos
de prantos e de gemidos.
E nós, não seriamos estes vermes rastejantes, de olhos suplicantes
virados para Ti, numa ânsia agônica de Te tocar, sem termos forças
para Te alcançar.

 

Buma, um africano na Europa

Vera Lúcia Kalahari envia mais uma crônica. Desta vez conta a história de Buma, símbolo do africano de fala portuguesa que procura atingir o horizonte da felicidade em Lisboa, capital da pátria-mãe. Muito parecida com as sagas de tantos brasileiros que buscam o sonho da cidade grande ou de outros países e, muitas vezes, somente encontram pesadelos. Está na página de Crônicas, número 10.