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Mais um abraço para a Poesia, em seu dia

Desencanto

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira - 1986-1968

Manuel Bandeira – 1986-1968

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Dia Mundial da Poesia

21 de março marca o Dia Mundial da Poesia,  criado na XXX Conferência Geral da Unesco, em 16 de novembro de 1999. O objetivo deste dia é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da Poesia em todo o mundo.

Salve, Poesia, mãe de todas as paixões,
misericordiosa para todos os males.
Salve, Rainha das Palavras
e maga toda poderosa das ternuras e das bem-aventuranças,
acalentadora de corações, artífice de piedades.
Saúdo-te em teu dia glorioso
embora tenha cometido o pecado do abandono provisório.
Mas de ti não desdenhei.

Desenhei teus encantos
nos traços de rotas várias de multicoloridas imagens: ut pictura poesis.
Salve, mimética e metafórica arte,
jubilosa Érato, desejável Euterpe,
mensageira de precisões e ambiguidades,
portadora de lamentos e devaneios,
incubadora de sonhos e tormentos,
arrimo dos nubívagos.

Em teu dia volto a abraçar-te
e em meus braços trago a promessa firme
de em ti permanecer,
pois em teu seio tenho o melhor alimento.
Eia ergo, carmina nostra,
illos tuos misericordes oculos
ad nos converte.
Porque nós precisamos de ti,
agora e sempre.

Cleto de Assis – março de 2016

 

Dia Mundial da Poesia

Hoje, 21 de março de 2010, mais de cem países estão comemorando o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO há dez anos, com o objetivo de defender a diversidade linguística.

O Banco da Poesia registra a data com um poema de Fernando Pessoa – Liberdade, quase uma brincadeira literária, mas eternamente belo.  Com uma versão musicada do mesmom poema, de autoria de Ronaldo Miranda, gravada no Recital de Graduação em Regência Coral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2007, no Instituto de Artes daquela universidade, com a regente Luana Lied Zapata.

E publicamos, logo abaixo, o primeiro anúncio sobre Poesia, de uma série que vamos revelar pouco a pouco. Afinal, seria muito bom se a Poesia fosse considerada um bem de primeira necessidade e estivesse entre os produtos mais consumidos em nossa sociedade.

Liberdade

Fernando Pessoa

Grafismo sobre desenho de Almada Negreiros

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa


E deixamos a Poesia fugir, em seu dia

No dia 21 de março último, o mundo inteiro comemorou o Dia Mundial da Poesia. Poucas comemorações no Brasil. Nenhuma em Curitiba, que eu saiba. A Unesco, entidade responsável pela promulgação desse dia, divulgou uma mensagem de seu diretor geral,   Koichiro Matsuura:

Poesia é uma arte milenar. É a arte da linguagem, uma interação de palavras, estética oral. Um poema não se lê, se diz.

Por isso, a poesia tem atravessado épocas e continentes. Fruto do imaginário, tanto individual como coletivo, a poesia é um elemento permanente na construção da vida social, tanto como a música, a dança e as artes plásticas. A poesia está presente em todas as partes e, no entanto, ao mesmo tempo, é inacessível. Sua fragilidade aparente, ligada ao seu caráter imaterial, fazem dela uma arte superior inviolável, que não teme os assaltos do tempo e da intolerância.

Como todo o conjunto de patrimônio imaterial, esta arte deve ser objeto de toda nossa atenção. Ainda que todos a admirem, publica-se pouca poesia e se traduz ainda menos. Encontra-se no coração de todas as línguas, mas também é freqüentemente considerada inacessível.

Poesia é uma arte na qual permite-se criar raízes e renovar-se, é o mais autêntico mensageiro de uma cultura; testemunha única e refinada da História. A poesia pode ensinar muito acerca do universo de outros povos, seus valores e sonhos. A poesia é uma porta aberta para o diálogo e para a compreensão dos povos e, por isso, é celebrada neste Ano das Nações Unidas do Diálogo entre as Civilizações.

A UNESCO está engajada na promoção do ensino da poesia nas escolas e apoia todos os esforços para a publicação e tradução de poesia. Gostaria de convidar os Estados Membros a contribuir também, de todas as maneiras possíveis, para a promoção permanente da poesia”.

Também a 14 de março, data de nascimento de Castro Alves (1847) foi comemorado (onde?) o Dia Nacional da Poesia. Confesso-me partícipe da legião dos desmemoriados, mas a culpa maior foi dos promotores culturais, esses estranhos seres que habitam os gabinetes oficiais.

Tanto o dia nacional quanto o mundial deveriam ter sido lembrados principalmente nas escolas, com a participação dos poetas vivos e  a lembrança dos que já se foram, deixando-nos as relíquias de suas palavras mágicas. Meta anotada para o próximo ano.

Para não dizer que esquecemos totalmente da data, usarei o dia da inauguração deste Banco da Poesia, a 12 de março, para homenagear as duas datas. Pelo menos, tudo aconteceu em março.

Recolhi, no colombiano Con-fabulación (http://con-fabulacion.blogspot.com/), a notícia e interessante saudação feita a propósito da comemoração do Dia Nacional da Poesia naquele país, que transcrevo a seguir. C.deA.

poemacolet1

Todos os poetas do pasado, todos os poetas do presente e todos os poetas do futuro, tão somente escrevem um fragmento, um episódio de um grande poema coletivo que escrevem todos os homens”.

Percy Bysshe Shelley


A terceira versão do Dia Mundial da Poesia reuniu 180 devotos na Universidade Nacional de Colômbia e 320 no teatro do Ginásio Moderno. Agora sabemos que também é formosa a colheita intangível e que, como disso Octavio Paz: “A poesia necessita da morte do poeta que a escreve e do nascimento do poeta que a lê…

Agradecemos a esta bela horda de Con-fabulados, assim como aos 18 poetas que uma vez mais demostraram que a poesia é o único ofício desinteressado, e aos meios de comunicacão  que difundiram animadamente o evento: El Espectador, El Tiempo, Caracol Radio, UM radio, TV Centro, Libros & Letras, Canal Capital,   Radiodifusora Nacional… Representados nos jornalistas e intelectuais empenhados no êxito da cerimônia, os professores Fabio Jurado Valencia e Jorge Rojas, e os jornalistas Gustavo Gómez, Paola Mariño, Henry Posada, Oriana Obagi, Lilian Contreras, Carlos Restrepo e Jorge Consuegra.

A seguir, a bela peça que, a maneira de prefacio, fez o escritor Federico Díaz-Granados. Habemus poesia.

A festa do equinócio

Por Federico Díaz-Granados*

Nosso admirado Aldo Pellegrini nos convidou a contribuir à confusão geral. Por isso, o Ginásio Moderno, esta casa centenária, acolhe na tarde de hoje a todos os confabulados interessados em empreender a verdadeira aventura essencialista da criação e do assombro, fiel a seu talante liberal e inclusivo e à herança humanista dos pais fundadores que nos ensinaram que somente por meio da poesia e da literatura poderíamos entender as proporções de uma sociedade mais justa e solidaria.

federico_diaz_granados2Todos nos recordamos que, nos tempos primitivos, a poesia servia para chorar e celebrar o mundo. Hoje, a poesia continua tendo, entre tantas, a função de exaltar a existência e lamentar e combater a morte.

O poeta português Eugenio de Andrade (ver post abaixo) mencionou que a única e verdadeira moral da poesia “é que se rebela contra a ausência do homem no homem, porque se este se atreve a – cantar no suplício – é porque não quer morrer sem se olhar em seus próprios olhos e reconhecer-se e detestar-se ou amar-se”.

Desde Homero a São Juan de La Cruz, de Virgílio a William Blake, desde o lamento do pobre Jó a Fernando Pessoa, desde Hölderlin a Nazim Hikmet, a maior ambição do quefazer poético sempre tem sido a mesma: Ecce Homo, repete Eugenio de Andrade e parece dizer cada poema: Eis aqui o homem, eis aqui sua fugacidade sobre a terra. Porque o futuro do homem é o homem, estamos de acordo, mas o homem de nosso futuro não nos interessa desfigurado e aí sobreviverá a eterna e misteriosa poesia. Ausência e presença, vazio e plenitude, dúvida e certeza estarão presentes para sempre na palavra.

Quem senão o poeta para devolver ao mundo um pouco da beleza e o horror que este nos outorgou? Quem senão o poeta para traduzir a liberdade do homem e de seus sonhos? A poesia não vai resolver, nem nunca resolveu os conflitos, nem o problema da fome e seguramente hoje não solucionará o flagelo do sequestro ou o dos desaparecidos ou o dos torturados, mas sempre nos tem acompanhado (melhor dizendo, desde o avô pitecantropo) e nos tem ajudado a sobreviver graças a sua beleza. Quiçá essa seja sua única obrigação: ser bela, seja qual seja seu tempo e seu tema, e revelar,  como num cálculo algébrico, a obscuridade e o desconhecido. Por isso, celebrar o Dia Mundial da Poesia é festejar o triunfo do assombro, a solidariedade e o compromisso em tempos da globalização e da desumanização. Não seria justo estar aqui se não estivéssemos conscientes de que exaltar o Dia Mundial da Poesia, no equinócio de primavera, é proclamar uma vez mais o triunfo da poesia como a verdadeira resistência do homem em sua passagem por esta aventura dea vida sobre a Terra.

Neste complicado, difícil e caótico mundo que nos correspondeu, a poesia segue definindo-se como um milagre e segue defendendo-se ante toda proposta virtual. O homem está em crise há muito tempo e sua catástrofe nos recorda uma espécie de Titanic de nossa modernidade. Por isso, quando restar o último de nós, solitário sobre a única rocha erguida sobre a terra, naquela noite final dos tempos, somente terá a seu lado a poesia, a palavra, a prece ou a imprecação como companhia.

Saint-John Perse disse, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, que quando as mitologias se desvanecem, o sagrado encontra na poesia seu refugio e talvez seu relevo, porque a poesia moderna adentra em uma aventura cuja meta é conseguir a integração do homem. Isso é o que festejamos na tarde de hoje, a integração do homem através dea palavra de sempre.

A poesia, escreveu García Márquez, “por cuja virtude o inventário esmagador das naves que enumerou o velho Homero em sua Ilíada, é visitado por um vento que as impulsiona a navegar com sua presteza intemporal e alucinada. A poesia que sustém, no delgado andaime dos tercetos de Dante, toda a fábrica densa e colossal da Idade Média. A poesia, enfim, essa energia secreta da vida cotidiana que ferve os grãos-de-bico na cozinha e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos”.

Bem vindos, poetas, bem vindos todos vós a esta casa de poesia e celebremos nossa grande recompensa de presenciar o milagre do feito poético em tempos da amnésia e da paranóia, onde não têm cabida os milagres nem a taumaturgia. Bem vindos, poetas herdeiros de uma profunda e verdadeira tradição que hoje cada um de vós homenageia com sua voz.

Em conclusão, quero citar a Pablo Neruda, que nos recordou que: “somente com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Assim a poesia não terá cantado em vão”.

Que a poesia seja nosso pastor e nada nos falte…

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*Poeta, catedrático e ensaísta colombiano