Crônicas

O escritor Carlos Eduardo Novaes disse que “o pomar da literatura … é composto de diferentes espécies: a poesia, que, pela sua delicadeza, se compara à uva; o romance, que, pela sua densidade, me lembra uma jaca (não dá para comer toda de uma vez e se presta muito para fazer doces e filmes); o conto, que, para ter qualidade, precisa ser redondo como uma lima; a novela, que, a meio caminho entre o conto e o romance, poderia ser um melão; e a crônica, que, pela variedade e popularidade, equivale à laranja”.

E mais: “O conto e a crônica, como se vê, são parecidos e às vezes até confundidos sob um olhar apressado. O conto, como a lima, tem a casca mais fina e pode ser mais agradável a um paladar delicado. A crônica, casca mais grossa, não requer tantos cuidados para frutificar. Cresce até em publicações periódicas, como jornais e revistas, mas nem por isso seu valor nutritivo é menor: contém todas as vitaminas necessárias à formação de um leitor”.

“As crônicas, como as laranjas, podem ser doces ou azedas; consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa, ou virar suco, espremidas nas salas de aula.”

Etimologicamente, crônica vem do grego khronika, neutro de khronikon, referente a khrónos, tempo. Assim, esse tipo de texto, antes apenas uma narrativa de fatos ocorridos, que se transformou em gênero literário, relaciona-se com a memória e o tempo, a memória de episódios gravados no tempo.

Mas a crônica não tem a responsabilidade da historiografia: ela capta a realidade, porém não se compromete com a narração fria, observadora e analítica dos acontecimentos, apenas com o que lhe é efêmero, poético, às vezes com toques de humor ou, como observa outro escritor brasileiro, Antônio Cândido,  nela “tudo é vida, tudo é motivo de experiência e reflexão, ou simplesmente de divertimento, de esquecimento momentâneo de nós mesmos a troco do sonho ou da piada que nos transporta ao mundo da imaginação. Para voltarmos mais maduros à vida…”.

Em razão de sua íntima relação com a poesia, a crônica passa a ter, doravante, o seu lugar neste Banco. Ou, como requer a estrutura administrativa metafórica, o seu departamento.

Bem vindos a ele, cronistas do cotidiano.

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1. Exploração do homem pelo homem

Vera Lúcia KalahariPortugal/Angola



Da minha experiência de vida em diversas partes do mundo, cheguei à conclusão concreta que está cada vez mais vulgarizado o hábito de se enganar o próximo.

As próprias dificuldades que se criam, cada vez em maior número, no dia a dia, favorecem um ambiente deteriorado, formam um círculo que de hora a hora se vai apertando em volta de cada um que luta pela sua sobrevivência. Há, portanto, que deitar a mão a todos os estratagemas. Há que lutar, com todas as armas, para se conseguir, pelo menos, chegar ao fim de cada dia. Assim. Nesta luta diária se empenham os homens, atropelando-se, dizimando-se, parte integrante dum rio caudaloso e anônimo que desemboca em todas as ruas, em todas as esquinas. Em cada segundo, um homem está enganando outro. A escola da vida formou-os, deu-lhes carta branca para se defenderem de qualquer maneira. Eles agarram-se a tudo: à astúcia, à aldrabice e, se necessário for, à violência.

Há-os apresentando-se como impecáveis cavalheiros, trajados a rigor, enfeitando os seus curricula vitae com inúmeros e ostentivos títulos que lhes abrem, imediatamente, as portas da sociedade. Eles conseguem ofuscar ao simples que os rodeiam, que ficam como que encadeados com o brilhantismo que irradia cada um dos seus gestos. Conseguem rodear-se dum halo hipnótico que faz com que os coloquem num pedestal. De onde ditam ordens, ditam leis e obtêm tudo o que desejam, incluindo crédito. Assim, sem outra coisa senão o emprego conscienciosamente doseado com o seu parafraseado, atingem aquilo que muitos só conseguem depois de anos e anos de labuta honesta. Estes são os vigaristas de classe. Encontrados em todos os salões, presença obrigatória nos ambientes sofisticados, onde a firmeza de porte e palavra lhes grangeiam geral simpatia.

Há-os também na classe mais baixa – porque até entre os vigaristas existem classes. Esses ostentam o protótipo de homem muito vivido e conhecedor. De olhar astuto, escolhem a sua vítima e trabalham-na. Matraqueiam-na com narrativas mirabolantes, com perspectivas fantásticas, com gestos eloquentes, evidenciando uma certeza tal em tudo o que afirmam, que, na maior parte das vezes, conseguem mesmo confundir a vítima e até convencê-la. Esses, não obstante não terem a aceitação dos primeiros, também vão colhendo os frutos do seu trabalho.

Aparecem depois os de terceira categoria. Olhados de cima pelos eleitos, esses espalham-se pelas esquinas, fatos surrados, olhar de rato, tentando pequenos golpes nos passeantes. Sem grande sucesso… Cheiram-se à distância e só o que for estupidamente incauto cai na sua conversa. São os vigaristas de meia-tigela. Aqueles que envergonham a classe a que pertencem, as ovelhas negras desse rebanho que cada dia se apresenta maior.

Porque até para se ser ladrão é preciso ter-se sorte e classe. Não queira um sapateiro passar além do chinelo… Não é qualquer um que se candidata a ingressar nessa abnegada escola, de ensinar e ajudar o semelhante a esvaziar a sua bolsa…

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2. Tesouros da Pátria Mãe

Ontem me senti como criança ao ganhar brinquedo novo. Explico: há alguns dias, em troca de e-mails com o poeta português José Dias Egipto (nome literário do médico José Pacheco Palha), falamos sobre seus livros, pois ele queria saber de onde eu havia retirado seus poemas publicados no Banco da Poesia. Como lhe informei que havia simplesmente recolhido os poemas na Internet, ele dispôs-se a enviar alguns trabalhos seus, por meio de uma amiga brasileira que, coincidentemente, voltaria ao Brasil por aqueles dias.

E eis que o correio me surpreende: do Porto, via Rio de Janeiro, recebi três jóias produzidas por José Dias Egipto: Soletrando o Azul, com poemas em que ele se concentra em uma única cor, e pinta o e seus sentidos somente com ela:

………..

Em todos os matizes

do esforço

espera-me o azul

Em cumes velados,

Sempre irrepetível…

No fim

Dos caminhos

Serei também anil,

Sem margens

Nem origens.

…………

Veio também Comunhão de Bens, um belo livro que intercala prosa e poesia, mas o texto que antecede os poemas são também cheios de sensibilidade, reflexões sobre a Escrita, a Identidade, a Personalidade, a Vaidade – e por aí caminham sensações sobre a vida e, sobretudo, referências ao que povoa nossa alma eternamente preocupada com o  quem sou eu, de onde vim, para onde vou. No posfácio do livro, que ele nomeia como Epílogo (mas que jamais será um final, pois é preciso que seu espírito continue a caminhar junto aos leitores), ele sumariza seu propósito poético, uma espécie de pato entre o autor e o leitor, porque

“Comungamos tantas coisas, tantos bens!… A nossa vida de hoje disfarça essa comunhão porque nos prende na matéria multiforme da posse e na abundância do nada. Mas nós fomos feitos para espiritualizar a matéria, para intelectualizar os instintos, para encontrar através da razão o irracional, o sublime que nos foge das mãos. A liberdade encontra-se na comunhão da palavra e do pensamento, na volúpia nunca atingida de Ser com os outros. Somos sempre algo para além do corpo, esse espaço limitado que nos cerca, aparentemente; mas na comunhão de outros bens para além dele, sentimos o inefável do tempo em nós, o infinito da comunhão das almas, os símbolos que ocultam o simbolizado. Este livro pretende ser apenas uma parte da ponte de comunhão de ideias com os leitores; a outra parte será feita por quem o ler.”

E a santíssima trindade se completa com o que eu denominaria um singelo caderno de anotações (até mesmo com a feição de caderno escolar, com lombada de arame), no qual desfilam reflexões gravadas à maneira de um blog, com anotações sobre si mesmo e os acontecimentos dos dias que correm, observações de viageiro, a respeito de pessoas e leituras, o avanço da ciência. Quase um diário, é o que parece.

Tenho certeza que a leitura mais tranqüila de Pessoal e Intransferível dar-me-á maior conhecimento sobre o novo amigo português, um dos grandes dividendos que o Banco da Poesia ofertou a seu gerente.

Ah, é preciso dizer, mais uma vez, que José Dias Egipto, quando assume a sua identidade de super-herói José Pacheco Palha, se transforma em médico pediatra e neonatologista, o que nos transmite também um pouco de inveja, pois os pais e mães portugueses podem entregar suas criancinhas aos cuidados de um poeta-cientista. Não é um ato de extremo amor?

Grato, poeta José Dias Egipto, por esta gentileza que me honra e me fará conhecê-lo melhor, além de ter às mãos um baú de tesouros para ser revelado pouco a pouco no Banco da Poesia.

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3. O Poder do X

Cleto de Assis

Ando tão preocupado com as palavras que notei algo interessante: as letras que as formam têm personalidades distintas. A começar pelos dois grupos de vogais e consoantes. As cinco primeiras — A, E, I, O, U — são as cortesãs. A letra A, primeira e única, no eterno papel de candidata ao trono. Em verdade, parece que a letra E disputa a liderança com a A. Pelo menos em quantidade, a E participa mais que todas as suas demais irmãs vogais na formação das palavras. No tempo da composição tipográfica, as caixas de madeira que continham os tipos de metal eram divididas em escaninhos de diversos tamanhos e a casa da letra E minúscula era a maior, bem próxima à vista e à mão do tipógrafo, por ser a mais usada. Reparem no teclado do computador e verão que a primeira vogal a aparecer é a E, já na segunda fila superior, abaixo dos números. E essa disposição foi herdada dos teclados das aposentadas máquinas de escrever. Tudo uma questão de prioridade de utilização.

E o exército de consoantes? Pois toda armada é formada assim: primeiro os generais e depois os soldados. Acima as vogais, que têm som próprio, e depois as consoantes que, como diz o próprio nome, somente soam com a parceria de uma vogal. Se não tiverem uma das cinco irmãs juntinha a si, são letras mudas, a que falta um pedacinho de som. Nossa língua portuguesa ganhou, com a última reforma ortográfica, três outras que se encontravam exiladas há muito – a K, a W e a Y. E deveria ter sido o contrário: com jeitinho e a bem da escrita fonética, teríamos decapitado a letra Q, bem fácil de ser substituída pela C; e a H que também se cuide, pois dá bem para passarmos sem ela. Bastaria adotarmos o simpático eñe espanhol e facilitar a vida de quem já, pela própria natureza, fala errado, dizendo colier e mulier, em vez da verão com H. Vejam como daria certo: “A mulier pegou a colier e acompañou seu marido na sobremesa”. Assim estaríamos criando, formalmente, o portunhol que dominará, dentro de algumas décadas, a América Latina.

Mas as consoantes também têm fortes personalidades. Eu, por exemplo, gosto da letra C, que por acaso inicia meu nome; uma questão de afinidade. Acho que ela é uma letra aberta, sempre pronta a um harmonioso abraço com a vogal que se lhe avizinhe. Há quem prefira a M, estável sobre duas pernas, ao contrário da P que avança seu tórax e se equilibra em apenas uma perninha. A letra R, ao não aguentar a posição circense, desceu rapidamente um esteio e fez com que o Pato se diferenciasse do Rato.

Tenho pena só de uma letra: a Z. A que fica por último, a zelar pela retaguarda do Alfabeto, com ar de zanga permanente, e que de vez em quando se zarelha na vida da S. Como sempre está no meio do azar, também lembra a zebra, a vitória não esperada. Talvez nem seja das mais inteligentes, pois não fala: zurra, à maneira das mulas. Ou, mesmo silenciosa, zumbe incomodamente. Aparentemente quieta, na maioria das vezes, zomba de todas as anteriores letrinhas. E quando se junta a outras suas iguais, onomatopaica, vira sono profundo. Além de azarar os nomes próprios que começam com ela – alguém já ouviu um Zulmar ser o primeiro na chamada escolar?

Examinei a N, uma M com complexo de inferioridade; a S, que conhecemos como cobrinha na escola primária, início de toda serpente e dos sapos. Quando está sozinha, dentro das palavras, em geral é ela que se zarelha, tomando o lugar da Z. A letra V é um pouco despersonalizada, é verdade. Muitas vezes pode ser cobardemente substituída pela B. No Espanhol, então, nem se fala nela. Pode até aparecer graficamente, com aquele ar de A invertido e sem cintura, mas sempre a pronunciam como uma B, coitada.

E a letra F? Uma P de boca aberta, consonante fricativa, lábiodental, surda. Tadinha… Abre a boca, mas apenas sussurra, faz ventinho entre os lábios. Impossível pronunciá-la com a boca cheia de farinha, sem produzir uma nuvem de pó de carboidratos. Já a G, gordinha como ela só, parece estar sempre no engole, engole, mão para dentro da boca. E a J, um cajado invertido, lembra joelhos dobrados a proferir jaculatórias. Ai, Jesus!

A letra Y, a nova irmã, veio para pouco acrescentar, apesar de seu jeitinho de dois dedos levantados em sinal de vitória. O NVOLP (para quem não está acostumado, este sanduíche de letras quer dizer Novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela ABL, ou Academia Brasileira de Letras) regsitra apenas 45 vocábulos do(a) Y, incluído(a) ele(a) próprio(a), até a 5ª edição, que vem com anexos. K e W aparecem mais, mas não chegam a encher uma página de cinco colunas, cada uma delas.

Mas já que estamos a conversar sobre a personalidade das letras, descobri outra coisa interessante. Já repararam que tratamos as letras à vezes como femininas e outras como masculinas? Dizemos o A e a A, o B e a B. Fui ao dicionário e vi que elas todas (ou eles todos?) são designadas por s.m., que não quer dizer sua majestade, mas substantivo masculino: “B. S.m. 1. A segunda letra do alfabeto etc.” Seria um caso de androginia gramatical?

Todas as divagações anteriores, que não têm o menor peso adicional na cultura de quem me lê, foram feitas para registrar a importância de uma letrinha sempre misteriosa, a senhora X. Notaram que essa indicação já nos remete a alguma pessoa desconhecida, que se esconde atrás de óculos escuros, sempre cabisbaixa e a percorrer rotas obscuras? É sempre o X do problema, a atormentar detetives. Cruz dos matemáticos, que sempre a utilizam como variável independente das equações ou a põem lá no fim, como a incógnita a ser descoberta. Ou não. A X – ou o X – é letra quase universal, que corta as demais julgadas desnecessárias, nome de todos os analfabetos que assinam em cruz, embora Descartes a tenha utilizada para designar sua primeira coordenada. Valia 10 para os romanos, mas nós a utilizamos sempre que queremos falar de uma quantidade indeterminada: falta X para completar. Os documentos secretos e importantes ficam sempre no Arquivo X. O dois risquinhos entrecruzados também facilitaram a vida dos desenhistas de anúncios de lanchonete, ao assumir as feições do queijo dos sanduíches (em inglês, é claro, que é para não perder a pose): X-salada, banana X etc.

Não é uma letrinha versátil e digna de admiração, talvez dotada de multipersonalidade? Em um exame vestibular, ela substitui quilômetros de textos formados por centenas de milhares de palavras e milhões de letras. Basta que a coloquemos dentro de um determinado quadradinho e pronto: traduz a resposta que queremos dar.

E tem mais uma coisa: ela é multiplicativa. É só colocá-la entre dois números e a magia se realiza. Ou, então, adversativa, a indicar lados opostos. Futebol não se realiza sem um X entre dois clubes.

E lembremo-nos, além de tudo, de sua elegância fonética: quando a Corte portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro, os nativos trataram de adotar falares europeus, trocando os S finais das palavras por maviosos X, hábito que até hoje os cariocas conservam.

Por tantas razões, quero propor o X, rei das letras, como principal candidato à presidência da República, nas próximas eleições. Ele poderá multiplicar o PIB brasileiro e substituí-lo pelo PIX (produto interno xuave), além de axelerar o creximento xoxial (noxa, como me condixionei rápido a exa teoria ideolóxica!).

Pelo menos ele é uma incógnita que poderá gerar uma solução positiva. Os demais candidatos, já os conhecemos em demasia para não acreditarmos que eles solucionarão todos os X dos problemas brasileiros e nem saberão, como nuncadantesnestepaís, jogar com probidade o xadrez político.

Curitiba, março de 2010

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4. Crônica do nosso descontentamento

Vera Lúcia KalahariPortugal/Angola

Estou farta! Na realidade, estou mesmo farta! Eu e milhões de portugueses. A atuação do Governo é, indubitavelmente, marcada por amargas realidades das reduções orçamentais e, principalmente, reviravoltas políticas.

A situação tornou-se de tal maneira grave, que já nem há lugar para promessas, essas mesmas promessas que, durante anos, manteve o eleitorado na expectativa. Entretanto aconteceu uma proverbial e oportuna crise mundial, que justifica tudo. Não se lembram, isso não, que durante estes anos, o grupo de homens que diariamente enchiam as bancadas da Assembleia, tudo processavam sem pressas. Raramente começavam a horas, porque se perdiam pelos corredores em conversas amorfas. Nada de ideias crepitantes. Nada que pudesse perturbar o espírito rotineiro dos debates.

Desde a orla das praias douradas algarvias, às paisagens agrestes de Trás-os-Montes, nada era esquecido ali. Falavam nos problemas, encetavam discussões, planeavam soluções, mas tudo calmamente, amadorrados na sonolenta luz do Hemiciclo, esquecidos do País moribundo que agonizava lá fora. Mas é aqui, sobretudo aqui, nas bancadas imensas, no ambiente majestoso dos lustres das paredes magnificamente decoradas, que eles sentem ressuscitar a sua força de poder, a força que lhes dá para pensar que é nas suas mãos que está o destino deste Povo e desta Nação.
Por isso, essa vontade férrea de sobreviver nesses cargos que os faz barafustar uns com os outros, não para encontrarem soluções mas unicamente para se evidenciarem: cada um para parecer melhor, mais entendido, mais dedicado. No fundo, a tentarem transmitir uma ideia que seria escandaloso exprimirem mas que está patente em todas as expressões:”— Olhem aí, vocês que que me escutam. Eu sou o melhor!”. É essa vontade de sobreviver ali, que os faz discutir, barafustar, discordar, concordar, falando em tudo que não interessa, enquanto, lá fora, o Povo estiola e morre. Porque é só aqui, na majestosa imunidade de S.Bento, que eles se encontram a si próprios. E a fumaça dos charutos que fumam, uns após outros, nos gabinetes luxuosos, formam uma neblina tão densa por cima das suas cabeças, que as suas vistas dificilmente vislumbram horizontes mais longínquos.

Porque, antigamente, as fortunas passavam de geração para geração (ou não) dependentes da capacidade de trabalho e gestão dos herdeiros. Hoje, as fortunas herdam-se através de tachos. Porque só com “tachos” se alicerçam e aumentam. Tudo o que estiver fora deste circulo (ora agora governas tu e enriqueces tu, ora agora governo eu e enriqueço eu) é para “inglês ver”.

Hoje, a palavra de ordem para o Povo é: “apertem o cinto!”. É como se estivéssemos embarcados num avião , seguindo as instruções mecanicamente dadas por uma hospedeira afável, enquanto duma fonte ausente se acendem os incómodos letreiros “só desapertar quando as luzes se apagarem”. Não temos outro remédio senão seguir essas instruções, mas depois de meia hora, todos estão fartos de estarem incomodamente amarrados ao banco, e esperam ansiosos, pela liberdade. Imagine-se se fossem obrigados a permanecerem apertados pelo cinto toda a viagem! Mas é isso o que acontece connosco! Até ao fim , a viajarmos de cinto apertado! Dá para acreditar? Mas é claro que para aqueles que viajam em classe VIP, o percurso é muito mais cômodo! E quem são a maioria desses passageiros, quem são? Os nossos políticos, seus tachos/herdeiros e seus seguidores (principalmente aqueles que os mantêm no poder porque dá sempre jeito ter um ministro ou alguém que deve o seu cargo à nossa comparticipação nos custos da sua campanha.

Admiram-se, então, que os tentáculos da criminalidade se tenham espalhado, ramificado, penetrado na nossa sociedade? Garantir agora que o seu controle é possível, é absurdo. Porque a situação caótica em que caiu o País, torna inconciliável qualquer objetivo de paz e segurança. Porque em vez dessa melhoria tão amplamente prometida, a verdade é que a situação chegou à ruptura. A inflação e os impostos paralisaram a atividade. O fluxo cambial dos emigrantes está praticamente parado. A fome e o desemprego assolam a nação. Já nem promessas há para oferecer! E o pior, é que existe uma fadiga depressiva que se apoderou do Povo. Representa hoje a característica uniforme da sociedade, um sentimento radical e trágico que aumenta assustadoramente, como uma vaga que nenhum obstáculo pode deter. Pior que uma ameaça de morte, é a condenação por uma asfixia lenta que atrofia a mente e o espírito.

Foi nisto que os consecutivos e amorfos Governos tornaram Portugal: Um País em derrocada, uma pequena nação mutilada, migalha caída na mesa do mundo que vive agora as horas mais difíceis da sua história. Mas eles, lá continuam! Jornalistas transformados em Ministros da Defesa, passando de contadores de histórias a especialistas na arte de bem comprar equipamento bélico, de submarinos a aviões, acessores a Ministros da Agricultura sem nunca terem plantado mais do que um pé de salsa nalgum vaso do seu apartamento, ou das Pescas, sem mais nada conhecerem de peixe do que aquele que lhes apresentam num prato bem servido do “Tavares Rico”.      Tudo e todos se concentram aqui. Eles e os outros. Porque Lisboa é o exemplo acabado de tudo o que de mau e de bom uma cidade é capaz de produzir. Nos seus bairros superlotados, nos transportes, nos bares, nas esplanadas, milhares de indivíduos de todas as nacionalidades assentam aí arraiais para chorarem as suas mágoas. Fascinante nuns lados, imunda noutros é a cidade de contrastes imprevisíveis de promessas, de esperanças e de desilusões. À porta dos hospitais, dezenas de doentes morrem diariamente por falta de cuidados, enquanto equipamentos médicos sofisticados quedam paralisados por falta de pessoal. Os bancos regurgitam de clientes. Mas, na sua maioria, os seus haveres nem sequer chegam para pagar os juros dos seus empréstimos. Milhares de jovens saem das universidades e morrem de inação à espera dum emprego, enquanto outros milhares aguardam vaga nessas mesmas universidades, para virem engrossar o número de desempregados. Restaurantes, esplanadas, bares, clubes noturnos, enchem-se diariamente com milhares de habitantes de todas as camadas sociais. Mas milhares deles dependem da caridade social. É a cidade do pré-apocalipse, onde dezenas de prédios ruem e outros são devastados pelas chamas. Que melhor “habitat” dos nossos “Anjos” do pré-apocalipse?

Vou terminar. Afinal, é humano ter que desabafar. Deixaram esticar de tal forma a corda, que a crise mundial veio mesmo a calhar! É tão fácil governar assim… E mais fácil ainda é governar uma Nação de parvônios como nós , que fizemos o favor de vos transportar aí para cima, para S.Bento! Santa ignorância!

Portugal, març0 de 2010

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5. Fogo Sob Cristal: Um filme de Frederico Füllgraf

Manoel de Andrade– Curitiba

Acabo de assistir, pela segunda vez, o filme Fogo sobre Cristal, um Diário Antártico, do escritor e cineasta paranaense Frederico Fullgraf. O filme retrata as paisagens geladas da Passagem de Drake, nas Ilhas Orçadas do Sul, Shettland do Sul  e do Mar de Weddel, no setor leste da Península Antártida.

Essa invejável aventura, filmada em fins de 1998, nasceu de um inesperado convite ao cineasta para embarcar num navio quebra-gelo da marinha argentina numa expedição de entregas de suprimentos e revezamento de técnicos e cientistas em base de estudos na Antártida.

Frederico Füllgraf

A bordo do navio “Almirante Irizar”, Frederico Füllgraf chega até o fim do mundo para filmar as fascinantes paisagens brancas e silenciosas do sul do planeta.  Rodado sem um roteiro previamente planejado, as cenas resultaram num documentário de uma hora que encanta quer pela beleza imóvel das paisagens, quer pelo inquietante movimento das geleiras retalhando seus imensos blocos para formar as inumeráveis frotas de icebergs em busca  do oceano.

O que pensa o homem nestas paragens solitárias, isolado por meses ou anos do torvelinho incessante da civilização urbana? Dias imensos, paisagens imensas, enseadas de deslumbrante beleza, comunidades numerosas de pinguins, com suas elegantes posturas quase humanas nos sugerindo a idéia dos únicos seres com que pudéssemos partilhar, solidariamente, aquela assustadora solidão. É um cenário que induz o expectador, e por certo leva aos que por lá se isolam, à reflexão, à catarse e ao mistério. Como escrever um poema diante de tanta majestade, se tudo que a visão alcança é uma poesia constantemente reescrita pela própria natureza e indelevelmente impressa em cada traço de uma imensa tela? A reflexão sobre um poder oculto que comanda os elementos, que dita as leis que regem as variações climáticas que, a partir dali, invadem o continente, gerando as ventanias violentas, mudanças bruscas de temperatura, as chuvas torrenciais, enchentes e destruição. Que misterioso laboratório da natureza se esconde por traz de paisagens tão poéticas!

As imagens de filme nos transmitem tudo isso e muito mais. É uma viagem além de tudo o que nos propuséssemos imaginar. Um outro mundo, uma outra dimensão da vida, um outro planeta, poderíamos pensar. Apesar dos tantos documentários sobre o assunto, Fogo sob Cristal é a expressão visual da criatividade e do espírito aventureiro do autor, uma “Crônica da solidão de um cineasta e sua câmera no fim do mundo”. Entre tantas cenas marítimas e humanas, surgindo além da proa itinerante e nos pátios e interior das bases, um fato apenas, entre tantos que poderíamos citar: uma sequência comovente de cenas com o navio parado em alto mar, jogando coroas de flores às águas onde fora afundado o  contra-torpedeiro Gen. Belgrano, durante a Guerra das Malvinas – conflito em que o Comodoro Miqueloud, comandante de Marambio, presente a uma das bases visitadas,  lutara como aviador..

A credibilidade de Frederico Füllgraf, como cineasta, vem de uma longa trajetória de realizações cujos rastros foram deixados, em 2006, no interior paranaense e na distante Namíbia, quando dirigiu a filmagem de Maack, Profeta Pé-na-Estrada, relatando as viagens e pesquisas geológicas feitas no Paraná, na década de 40,  pelo cientista alemão Reinhard Maack,  um precursor do ambientalismo, descobridor do Pico do Paraná e autor de estudos geológicos que ligam a bacia geológica paranaense à bacia de Gondwana, na Namíbia.

Seu primeiro filme, Queremos que esta terra seja nossa, rodado em Portugal, em 1975, aborda a “Revolução dos Cravos”, golpe militar pacífico que derrubou o governo herdeiro da ditadura de Salazar.

Em 1985, pelo seu filme Dose Diária Aceitável,  sobre as consequências  dos agrotóxicos no Brasil, recebe no Festival Internacional  do filme ambiental, na França, o prêmio de “Melhor Documentário de Conscientização”, considerado o primeiro prêmio internacional do cinema paranaense.

No seu invejável currículo acadêmico, Füllgraf, na década de 80 estudou Comunicação Social, Filosofia e Ciências Políticas na Universidade Livre da Alemanha, época em que realizou reportagens e filmagens de documentários para a ARD (rede pública de Televisão da Alemanha).  Em 1988, a Editora Brasiliense publicou seu livro (já esgotado)  A Bomba Pacífica – O Brasil e outros Cenários da Corrida Nuclear.

Frederico Füllgraf é um respeitável intelectual que deverá publicar proximamente O Caminho de Tula, seu primeiro romance a ser lançado pela Record.  Essa casa editorial  deverá entregar nos próximos meses o polêmico romance Todo homem morre por si só, de Hans Fallada. A obra, com 700 páginas escritas em 24 dias, no ano de 1946 e publicada no ano seguinte na Alemanha Oriental, foi traduzida do original  alemão por Füllgraf e estréia no Brasil depois de publicada na Inglaterra e nos EE.UU., onde aparece entre os títulos mais vendidos.  Baseada em documentos da Gestapo descobertos pelo exercito russo no fim da Segunda Guerra Mundial, relata a história real de um casal alemão executado em 1942 por distribuir cartões com frases ofensivas a Hitler e ao regime nazista.

Março de 2010

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6. Justiça? Mas que Justiça?

Vera Lúcia Kalahari / Portugal – Angola

É inconcebível quando se diz que se pretende uma justiça moderna, nas decisões muitas vezes importantes que alguns têm que tomar e que nós tenhamos tantas vezes esta tendência em nos referirmos a castigos bárbaros, os infligidos no Terceiro Mundo, quer porque nos julgamos bons cristãos ou porque nos cremos bons muçulmanos, quer ainda por supor sermos superiores.

Eis-nos chegados ao extremo das respostas explicativas que não influenciam em nada a nossa tranquilidade, perante as nossas mesas bem abastecidas, fonte do nosso trabalho de defensores, não para ajudar o povo a melhores compreensões, educativas ou outras, mas contribuindo, isso sim, para a sua exterminação. Devemos até, segundo alguns entendidos, espalhar o terror a fim de causar temor, o que fará dos países ditos civilizados os superpoderosos. E, muitas vezes, nas decisões irreflectidas que se tomam por esse mundo fora, ditadas em reuniões regadas  com  deliciosos vinhos tintos, fruto de belas uvas cultivadas em campos modernos, encantados com as honras que nos são atribuídas por sermos civilizados, acabamos por atingir uma certa estatura material traduzida por numerosos “abichanços,” causadas, em si mesmas, pela miséria em que mergulhamos esses mesmos povos. E eis que nos consideramos heróis da justiça/ carrasco e não da justiça educadora, corretora e protetora.

Mas de facto onde está o verdadeiro ladrão? O nosso fim aqui não é defender o larápio mas denunciar tantas condenações severas que podem chegar à amputação de membros, por vezes pelo roubo duma simples galinha, que servirá, quem sabe, para matar a fome a alguém. Porque saciar um estômago faminto, eliminando o criminoso,  apontar com o dedo o pobre vadio aniquilado por mil males da sociedade moderna é, em si mesmo, um problema. Condenar um ladrão profissional a pena de prisão que mais tarde o vai educar e orientar, é   proteger uma sociedade que temos por missão guardar e não destruir. Mas será isso que se faz? Ponho as minhas dúvidas.

A própria indiferença que temos do que se passa neste mundo onde se praticam tantos excessos, faz-nos esquecer o que  acontece dentro das nossas portas. Condeno sistematicamente e energicamente todos os roubos, mas deploro amargamente que tantos saiam impunes por roubos muito maiores. A sociedade  moderna é falsa em todas as escalas… Desde o pequeno ladrão, ao burguês, senhor do nosso bairro, tão bem assente no respeito quase unânime das massas, mas que não deixa de ter ações pouco louváveis se quiséssemos investigar a fundo a sua vida. É uma verdade que o maior ladrão dos ladrões é o homem com possibilidades monetárias. Inspira tanta confiança que nem ousamos suspeitar dele. É o Presidente que esvazia o Cofre Público em benefício das suas gavetas… É o Ministro que faz o mesmo… É o Diretor que, em pouquíssimo tempo, embora o seu salário não o permita, constrói vivendas em nome da prima ou do irmão…

Ladrão é aquele Perito Contabilista que não se priva de engolir cêntimos de um modo lógico nas suas escritas… Ladrão és tu, Funcionário, que deténs o poder das Caixas do Estado e que vais aí abasteceres-te à tua maneira porque encontraste técnicas de roubo que escapam e escaparão ainda… Ladrão és tu que dás trabalhos do Estado a particulares pagos com lucros de 100 % porque obténs, assim, um ganho de 50%…

Ladrão és tu, Embaixador, que, tendo esvaziado os cofres, simulas o roubo destes últimos… Ladrão és tu que aumentas as tuas contas de despesas de representação, enquanto não ofereces senão o que mais barato vem no cardápio… Ladrão és tu, que vives no meio de faturas certas mas falsas… Ladrão és tu, que surripias destramente os menos ágeis… Ladrão és tu que brincas aos Advogados  e que não te privas de tornar mais pesado o dossier dum inocente, em detrimento de fundos que encaixas… Ladrão és tu, Procurador, que fazes desaparecer o dossier dum culpado teu amigo, mediante alguns tostões… Ladrão és tu, Presidente do Supremo Tribunal, que te serves da autoridade dos teus galões para arrancar a um pobre iletrado os seus terrenos… Ladrão és tu, Diretor da Alfândega, que não hesitas em fazer entrar mercadorias em teu nome, isentas de todas as taxas e metes calmamente no bolso chorudas gorjetas… Ladrão és tu, rico comerciante, que roubas em pequenas despesas as grandes lojas, graças à tua cumplicidade…

Eis aqui uma série de exemplos de ladrões a que podemos chamar “ladrões de ouro”, porque estão muito bem instalados. Estas citações são verdadeiras. E ainda resta uma grande lista… Nos quatro continentes deste mundo civilizado. Uma vez, de quando em quando, um deles é apanhado… Não pela Lei… Mas antes por ajustes de contas entre descontentes, invejosos e outras causas: desentendimentos, traições…

Está já provado que se chegou ao extremo de, nalguns países, fomentadores de golpes de Estado se aproveitarem  de ladrões para derrubarem os regimes.

Que seria  destas sociedades civilizadas, se acontecesse o mesmo que em países do Terceiro Mundo, onde até se amputa uma orelha a um jovem de 17 anos, por ter roubado… uma borracha?

Não há dúvida: este nosso mundo é mesmo um mundo cão.

Vera Lucia

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7. Homo brasiliensis

Roberto Klotz,  Brasília

Montagem com fotos (fundo) de Carlos Vieira, tijolo cobogó e a escultura Os Guerreiros, de Bruno Giorgi, erigida na Praça dos Três Poderes, que o imaginário popular transformou em Dois Candangos

……….– Cobogó? Que diabos é isso?
……….Eu não sou de prestar atenção na conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.

Roberto Klotz - foto Correio Braziliense

Roberto Klotz - foto Correio Braziliense

Eu voltava para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele vôo lotado, estava uma mulher vistosa, nos seus trinta anos. Entendi que ela não conhecia Brasília e recebeu convite para trabalhar na capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na cadeira vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
……….A primeira frase que ouvi, foi dele.
……….– Os ricos, moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
……….– Como é? – Indagou a mulher formando rima.
……….– As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago e os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
……….– As margens do lago são muito íngremes?
……….– Não. Por que?
……….– Você disse que preferia morar em lugar plano.
……….O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das asas Sul e Norte arrematando que as melhores quadras eram as cem e as trezentos.
Naturalmente ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele tornou a explicar que as quadras cem e trezentos ficavam a oeste do Eixão.
……….Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
……….– Eixão?
……….O avião deu uma chacoalhada de modo que perdi aquela explicação. Ouvi outra, já pela metade.
……….– … os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
……….– E o que é um apartamento vazado?
……….O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
……….– Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
……….– Cobogó? Que é isso? Tenha dó! – Exclamou em nova rima.
……….Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
……….– … além do que, são impressões digitais da cidade.
……….Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
……….E ele foi muito criativo na resposta.
……….– Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origens em todas as regiões brasileiras. Na cidade encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. È usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um preparando a carne, ou peixe, por que não, a seu modo. Quase todas as casas do Lago têm churrasqueiras. Quase todos os clubes têm churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que, para sobreviver ali, deve unir-se com os outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
……….– Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros…
……….Nesse momento a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
……….– Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto capital. Mineiros pão-duros, baianos preguiçosos, paulistas trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. A corrupção está espalhada por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que em Brasília as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
……….– Faz muito tempo que você mora em Brasília?
……….Aliviado, o candango respondeu:
……….– Agora você já está falando como uma brasiliense legítima…
……….– Não entendi…
……….– Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? e a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o nascimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
……….– E, há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
……….– Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
……….– Era tão ruim assim?
……….– É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
……….– Como assim? Não entendi…
……….– É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
……….– Interessante essa lenda…
……….– Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
……….Nesse momento a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
……….O avião taxiou e estacionou.
……….Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um vôo mais agradável.
……….Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.

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1. Roberto Klotz, descrito por ele mesmo, com bom humor: “…é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente candango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça, muito cocô e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei!”. Vive em Brasília e publica o blog Roberto Klotz.

2. Cobogó — Elemento vazado que filtra a entrada da luz e abre a ventilação na fachada de um prédio. A palavra é um acrônimo  (COimbra + BOekman + is). O mestre-de-obras Amadeu Coimbra, o ferreiro Ernest Boekman e o engenheiro Antônio de Góis fabricaram os primeiros cobogós no Brasil, na segunda década do século 20.

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8. Homenagem a Nice Braga

Cleto de Assis

Eu não gosto de visitar cemitérios. Não por horror à morte, pois a aceito como o mais natural dos fenômenos destinado a quem vive. Mas porque penso que as necrópoles ocidentais cultuam o lado lúgubre da morte, a lamentação, a tristeza. As estátuas fúnebres que decoram as sepulturas não representam a saudade dos parentes e amigos que partiram, mas uma marca permanente de solidão para quem vai e para quem fica. Afinal, na acepção portuguesa da palavra, saudade tem, ao lado da tristeza, fachos de alegria provocados pela memória dos bons momentos. E lá, na chamada última morada, só se vê tristeza.

Ontem, entretanto, fui ao Cemitério Municipal de Curitiba — em cujo portal meu amigo Franco Giglio fixou sua arte em mosaico — para prestar uma última homenagem a uma verdadeira dama, daquelas que já são raras hoje em dia. Fui dizer adeus a Nice Riesemberg Braga, esposa de Ney Braga, que também nos deixou há alguns anos. Tive oportunidade de conviver com ela e sua família em Brasília e Curitiba, no tempo em que colaborei com o então Ministro da Educação e, em seguida, Governador do Paraná. D. Nice, sempre lembrada por Ney como sua coluna de sustentação emocional, cumpria com sobriedade e simpatia a sua missão de esposa de autoridade. Sem exibições desnecessárias, mas sempre elegante, firme e dinâmica quando era convocada a algum trabalho. Foi assim quando presidiu o Provopar, Programa do Voluntariado Paranaense, por ela fundado. Era assim também quando, na intimidade de reuniões familiares, recebia filhos, enteados e enteadas, genros, noras e netos para momentos de repouso do guerreiro, o senhor seu marido.

No ato de sepultamento, seus enteados Antonio Braga Neto, o Tota, e Silvia Maria, falaram com emoção daquela que foi a segunda mãe e amiga permanente. Coube a Nancy Westphalen falar sobre a guarapuavana Nice Braga, lembrando a moça bonita e elegante que cativou Ney Braga e soube acompanhá-lo, com absoluta elegância, na árdua vida de esposa de um homem permanentemente voltado à vida pública. Mas uma mulher que soube, sobretudo, ser amiga de todos.

A Nice Braga, a minha homenagem.

Foto de 1979, na posse do segundo governo de Ney Braga, quando eu cumprimentava e recebia cumprimentos de Nice Braga, ao lado do novo governador

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9. Cena no Céu

Walter Bezerra, Maceió


São Pedro abriu o grande Portal Celestial e, ao receber aquele assustado jovem brasileiro, 34 anos, erguendo uma bandeira verde-amarela, indagou:

— Correu da vida, Ayrton?

Sena olhou ligeiramente para São Pedro e retrucou:

— Não. Eu apenas a acelerei…

São Pedro pediu a Senna para segurar a bandeira e, apontando para a Divina Pista, indicou:

— Por alí…O Eterno Piloto lhe espera.

Senna, ainda surpreso e perplexo com a súbita convocação, seguiu em frente, como sempre, só que agora ao encontro do Chefe da Equipe Humana.

Deus saudou Senna com intimidade:

— Bem-vindo, campeão, como se sente!?

— Um pouco abandonado, Chefe…— Respondeu Sena,  direcionando o olhar para São Pedro.

Deus, que sabe tudo e de tudo, entendeu a crítica de Senna e, piscando o olho para o Fazedor de Chuva, observou, cúmplice:

—Você está certo, campeão. Se tivesse chovido em Ímola, a história teria sido outra, com certeza!

São Pedro, tentando se esquivar, lembrou em tempo:

— É como você disse, Ayrton: “Quando Ele (falou apontando para Deus) quer, não tem quem não queira.”.

Deus sentiu que, naquele instante, Senna compreendera definitivamente que tinha dado a sua última volta na terra. E, com o coração de Pai, tentou consolar:

— Você, campeão, foi um Grand Prix que o Brasil deu para o mundo!

—Mas, Chefe… — Senna quis refutar. Deus interveio:

— Não se aflija, campeão. Você já cumpriu com a sua missão. A vida lá embaixo é apenas um treino. Você atingiu o limite máximo, que é o céu. Você entrou para a Fórmula Eterna. E ninguém poderá ir mais além.

— Mas, Chefe… — insistiu Senna. Deus retorquiu:

— Contente-se, campeão, eu lhe parei porque é da minha natureza trazer, logo cedo, para o meu convívio, pessoas que eu admiro muito. Daqui de cima, você vai ver as tolices que o pessoal faz lá embaixo.

Um pouco mais aliviado e conformado, Senna, de cima do Pódio Maior, baixou a cabeça, olhou infinitivamente para a Terra e consultou:

— Posso fazer um pedido?

— Dois…— respondeu Deus.

— Está vendo aqueles três garotos brincando de correr lá embaixo?

— É Barrichello, Christian e Gugelmin.. — reconheceu Deus, interpelando:

— Quer que eu faça o quê por eles? — adiantou Deus.

— Por favor, proteja-os…— rogou Senna.

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10. O Africano em Lisboa

Vera Lúcia Kalahari / Portugal – Angola


……….Lisboa, a capital do país de língua portuguesa, é presentemente uma amálgama de raças que pululam em ritmo ruidoso no Rossio ou na Praça do Comércio.

……….E nesta multiplicidade, como praticamente inexistente vive algures, longe do centro da cidade, o pequeno africano estudante, empregado ou servente de escritório, pedreiro, ajudante de pedreiro, criado e outros.

……….Mas numerosos são os senhores à boa vida, justificando-se com a penúria actual de empregos, e o número crescente de emigrantes, confundindo-se assim o homem trabalhador e o não trabalhador.

……….Mas afinal, como vive o africano de Lisboa?

……….Buma  é angolano, pensou muitas vezes em vir a Lisboa para adquirir uma formação profissional que pudesse ajudá-lo um dia a tornar-se pedreiro. Porque ele teve oportunidade de conhecer diversos países, com um dos antigos patrões da construção civil. Atravessou, portanto, um número variado de territórios de língua portuguesa, até ao dia em que o seu país ascendeu à independência, tendo em todas numerosas sociedades em que ele tinha tido a chance de pertencer, recolhido conhecimentos que ele considerava valiosos. Só então o servente de pedreiro resolveu conhecer a antiga metrópole, onde, pensava ele, obteria rapidamente trabalho, a fim de assistir às necessidades de sua mãe, de seu velho pai e dos seus seis filhos , todos de tenra idade.

……….Buma tentou, pois, a aventura e o sonho de conhecer Portugal, essa mãe – pátria  com que sonhava, desde criança, ser o seu El-Dourado. E uma noite, desembarcou em Lisboa, num avião militar, onde um amigo compreensivo o ajudou a conseguir um lugar. Nunca na sua vida ele tinha deixado a sua terra para ir a Lisboa.

……….Atordoado com tantos edifícios e gente, nunca pensou que esta chegada poderia ser o início de sérias dificuldades. Na sua consciência gloriosa de homem trabalhador, acha que não lhe será difícil encontrar emprego numa cidade atafulhada de edifícios.

……….Durante seis meses, Buma não conseguiu encontrar trabalho que lhe desse o pão necessário que tinha vindo procurar… Com amargura procura encontrar de novo a sombra das casuarinas na sua praia… Dos pôr-de sol… Mas até isso lhe é impossível, por falta de transportes…

……….Incapaz de pagar uma renda, encontrou refúgio junto dum primo que vive algures numa barraca onde tem, como único privilégio, poder enfiar-se num pequeno quarto onde se encaixam mais nove membros desta família em que só o primo trabalha, por 350 euros mensais. Nesta casa, a carne é rara, o peixe é  ainda mais, e os raros legumes para a sopa fazem jus à economia. Buma relembra os almoços na sua casa de Angola, onde tudo se multiplicava, como das Bodas de Canaan se tratasse… O bagaço ou a aguardente deviam ser factores a esquecer, mas como o frio do Inverno faz dessa barraca a sua guarida, uns copitos substituem a sopa para um calorzito que reconforta…

……….É preciso encontrar uma nova vida, para este angolano de Lisboa, sem trabalho, num bairro onde as comissões de trabalhadores não querem mãos mortas, muito menos mãos negras… De porta em porta, o pequeno Buma perde o seu latim e não compreende porque é que havendo tantas casas, ele não tem possibilidade de construir uma única, que lhe sirva, pelo menos, para pagar a sua passagem de volta.

……….Tal como qualquer outro exilado involuntário, será preciso que ele espere pela alvorada dum tempo clemente que chegará talvez um dia, caído do céu amigo do verão lisboeta.

……….Mas quando o Inverno voltar, a saudade do seu sol talvez  morra mais uma vez perante a vida inclemente desta Lisboa, mãe da língua portuguesa, que lhe dissipou todos os seus sonhos de criança…

……….Vera Lucia

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