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Uma voz de Valência, transformada em silêncios, atravessa o Atlântico

Em Algemesí, municipio da província de Valência, na Espanha, uma comemoração tradicional rememora o achado, em 1247, de uma imagem de Nossa Senhora da Saúde (Verge de la Salut ou Mare de Déu da Salut, na língua valenciana). A festa cobre os días de 7 e 8 de setembro, que se constituem nas maiores datas da cidade. No dia 8, uma procissão formada por danças típicas,

Torre humana na Muixeranga de Algemesí

introduz a imagen da Virgem na basílica de Algemesí, “rodeada de muixerangues e danças de tornejants, bastonets e llauradores, ao som de dolçaines e tabalets” (ver significado abaixo). No dia da festa do ano de 1968, poucas horas depois da imagen ter entrado na igreja, nascia uma menina que receberia o nome de Salut, em homenagem à padroeira local.

O cenário que cercou o nascimento de Salut Navarro Girbés talvez lhe tenha tocado com o dom da poesía. Mais tarde, ela estudaria Psicologia, pela Universidade de Valência, e tornou-se mestre em Marketing. Apaixonada pela poesia e a literatura desde sua infância, só recentemente lançou seu primeiro libro Silentes, no qual ela convida o leitor a percorrer seus sentimentos e experiências pessoais, magnificados sempre pelo silêncio, que  identifica e define toda sua obra poética. Como ela mesma expressa: “Estou plena de silêncios, mas ainda me restam algumas palavras”.

Conheci Salut Navarro no ning Militeraturas! e, após ler seus poemas em vários sites, convidei-a a abrir uma conta no Banco da Poesia. Não só aceitou o convite como me comunicou que seu libro e seu disco já estão atravesando o oceano Atlântico para me encontrar.

Mas antes que Silentes chegue, vamos conhecê-lo por meio da sinopse que o livro nos oferece.

Existe.

Há um lugar no qual o silêncio caminha descalço sobre sinuosa hera, onde a profundidade salobre nos protege a todos de caminhos cotidianos na vida.

Há um lugar perdido, repleto de atalhos inundados de fragrâncias, paixões, amor, tristeza notâmbula e lodo azulado de olhares ermos.

O mar convertido em homem nos arroupa azul, esculpindo ilhas, abrigando náufragos, albergando para sempre nossas almas silentes…

Silentes é um percurso pela ampla bagagem sentimental, uma carícia essencial, uma biografia da sensibilidade inata, um passeio pelas emoções capturadas. Em suma, um esboço das palabras que jamais se pronunciam.”

E Salut– cujo nome já é uma saudação – continua: “Creio estar exatamente na metade do caminho, nem muito jovem, nem muito mais velha para nada, e tenciono aproveitar ao máximo tal situação. Tenho um pé na terra e outro em Vênus, balanço-me mas consigo o equilíbrio. Sou cidadã do mundo, como todos os cidadãos, e escrevo para ti, enaltecendo o mestre Sanchis Girbés, seguindo seus sábios conselhos: ‘Escreve e caminha. Nunca deixes de escrever nem de caminhar’. Nele estou, e ainda que ele me acompanhe, tenho que assumir também que se foi, ainda que seja só um pouco”.

Seja bem-vinda, Salut. Que seus versos sigam enriquecendo o Banco da Poesia! (C. de A.)

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Notas

  • Muixerangues ou Muixeranga – conjunto de quadros plásticos composto por torres humanas e figuras representativas, abrem uma sucessão de danças que finalizam as festas da Virgem da Saúde.
  • Els Bastonets – dança guerreira que aparece em muitos partes de Valência. Sua presença em Algemesí datada de 1839 e relaciona a festa com as tradições mais ancestrais da cultura valenciana. Ao som dos tabalets e da dolçaines os oito componentes da dança encenam uma luta com os bastonets (bastões) e as plantxetes.
  • Els Tornejants – a dança mais emblemática da festa da Virgem Maria da Saúde. Repleta de conteúdos místicos, põe em evidência as destrezas e habilidades de um grupo de cavalheiros que se movimentam ao som de um tambor como único acompanhamento.
  • Llauradores (lavradores) ou Bolero é a dança mais moderna da procissão, pois apareceu pela primeira vez em 1906. É a única dança que não vai acompanhada pela música da dulzaina e do tabalet, mas pela seção de instrumentos de sopro da banda.
  • Tabalet ou tamboril é um instrumento de percussão membranófono, cilíndrico, percutido com baqueta típico da península Ibérica. Similar a um tambor, mas com uma caixa mais estreita e alongada.
  • Dolçaines ou dulzaina é um instrumento de sopro de lingueta dupla, da família do oboé. Tem forma cônica e cerca de 30 cm de comprimento.

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Mienten

A Juan E. Sanchis Girbés
Maestro literario

Batas blancas dicen que has muerto,
que tu último aliento ha expirado.
Emblemático y simbólico
transciendes a tu propio ser,
y expandes tu fuerza al viento
que mueve gigantes y molinos.

…Y te yergues sobre tu caballo,
altivo, noble, sincero, digno.
Por lanza, una pluma afilada.
De escudo,  innata honestidad.
La honra, libertad blanca.
Arte, como lucha e himno.

Tu prisma ante la vida, zurdo y caleidoscópico,
te transforma en amenazador de miradas hipócritas.
Rey de los locos,
loco en presencia de fariseos,
cuerdo-loco por sabio, por bondadoso, por tierno.
Eres amor infinito.

Acaricio el pelo negro, la barba entrecana.
Frente tibia en lágrimas bañada.
Agua salina de horizonte vital y sombrío.
Permanezco en tu ribera,
en tus manos que se tornan frías, amarillean.
Mis palabras trenzadas con respuestas silentes.

Escudero soy, sé que las batas blancas mienten,
como se equivocó don Miguel.
¡Don Quijote no ha muerto!
Yo quiero ser loco,
privilegiadamente loco,
cíclope sabio de sensibilidad eterna.

Hoy dicen que has muerto,
y encierran tu cuerpo en un sepulcro gélido, mudo, oscuro.
Mis ojos te persiguen y mi alma queda presa contigo
entre las cuatro claustrofóbicas paredes de tu silencio.
Festones negros adornan el cielo.

Testigo e indigna de tu pluma
armaré el valor con lanza aguda,
tejiendo sentimientos con palabras esenciales,
aullando al vacío las que jamás se pronuncian.
Perdurarán nuestros silencios compartidos,
que hablarán de nosotros con el tiempo como vestigio.

Tú, mi Quijote, que siempre fuiste libre,
hoy te escapas galopando.
Y yo tu fiel escudero, te serviré y te seguiré sin dudarlo
cuando llegue el momento, allí estaré contigo.
¡Cabalga!
¡No mires atrás!
¡Cabalga libre Quijote mío…!

Mentem

A Juan E. Sanchis Girbés
Mestre literario

Batas brancas dizem que morreste,
que teu último alento expirou.
Emblemático e simbólico
transcendes a teu próprio ser,
e expandes tua força ao vento
que move gigantes e moinhos.

…E te ergues sobre teu cavalo,
altivo,nobre,sincero, digno.
Por lança,uma pluma aguçada.
De escudo,inata honestidade.
A honra, liberdade branca.
Arte, como luta e hino.

Teu prisma ante a vida, canhoto e caleidoscópico,
Transforma-te em ameaçador de olhares hipócritas.
Rei dos loucos,
louco em presença de fariseus,
lúcido-loco por sábio,por bondoso,por terno.
És amor infinito.

Acaricio o cabelo negro,a barba gris.
Fronte tíbia em lágrimas banhada.
Água salina de horizonte vital e sombrIo.
Permaneço em tua ribeira,
em tuas mãos que se tornam frias,amarelecem.
Minhas palavras trançadas com respostas silentes.

Escudeiro sou, sei que as batas brancas mentem,
como se equivocou dom Miguel.
Dom Quixote não morreu!
Eu quero ser louco,
privilegiadamente louco,
cíclope sábio de sensibilidade eterna.

Hoje dizem que morreste,
e encerram teu corpo em um sepulcro gélido, mudo, escuro.
Meus olhos te persiguem e minh’alma fica presa contigo
entre as quatro claustrofóbicas paredes de teu silêncio.
Festões negros adornam o céu.

Testemunha e indigna de tua pluma
armarei o valor con lança aguda,
tecendo sentimentos com palavras essenciais,
uivando ao vazio as que jamais se pronunciam.
Perdurarão nossos silêncios compartilhados,
que falarão de nós com o tempo como vestígio.

Tu, meu Quixote, que sempre foste livre,
hojr escapas galopando.
E eu, teu fiel escudeiro, te servirei e te seguirei sem duvidá-lo
quando chegue o momento, ali estarei contigo.
Cavalga!
Não olhes atrás!
Cavalga livre, Quixote meu…!

Noche

“La gran tumba de la noche
su negro velo levanta
para ocultar con el día
la inmensa cumbre estrellada”

García Lorca

Envuelta en seda
y rosas de espina rasgada,
majestuosa y quimérica,
amaneces engalanada.

Viajera errabunda
en la tregua del camino
brindas por la sangre
besando tu filo.

Despuntan,
cuchillos y navajas
tiritando como el frío
envuelto entre mortajas.

Noche

Dulce noche de los néctares.
Noche abandonada en destierro.
Oscura noche aniquilada.

Noche

Tu mirada se estrecha,
deambulando,
antojadiza,
enlutada.

Noite

“A grande tumba da noite
seu negro véu levanta
para ocultar com o dia
a imensa cúpula estrelada”

García Lorca

Envolta em seda
e rosas de espinha rasgada,
majestosa e quimérica,
amanheces engalanada.

Viageira errabunda
na trégua do caminho
brindas pelo sangue
beijando teu fio.

Despontam,
facas e navalhas
tiritando como o frio
envolto entre mortalhas.

Noite

Doce noite dos néctares.
Noite abandonada no desterro.
Escura noite aniquilada.

Noite

Teu olhar se estreita,
deambulando,
antojadiça,
enlutada.

Saudade

Saudade, dueña del sueño
Sinuosa yedra
Serpiente sibilina
Silenciosa carcelera

Añoranza, mensajera del tiempo
Anunciadora de ausencias
Amante de la sierpe
Ábaco de bellezas

Nostalgia, concilio de los afectos
Navío sin estrella
Náufrago desesperado
Nacimiento sin fecha

Melancolía, amiga del recuerdo
Memoria evocadora
Marinero sin destino
Mañana sin aurora

Soledad, desatada por el viento
Sinuosa yedra
Serpiente sibilina
Silenciosa carcelera

Saudade

Saudade, dona do sonho
Sinuosa hera
Serpente sibilina
Silenciosa carcereira

Amarga mensageira do tiempo
Anunciadora de ausências
Amante da serpe
Ábaco de belezas

Nostalgia, concilio dos afetos
Navio sem estrela
N
áufrago desesperado
Nascimento sem data

Melancolia, amiga da recordação
Memória evocadora
Marinheiro sem destino
Manhã sem aurora

Solidão, desatada pelo vento
Sinuosa hera
S
erpente sibilina
Silenciosa carcereira

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Tradução e ilustrações: C. de A.