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Voo intuitivo de Salut Navarro

Intuición

Salut Navarro Girbés, Valencia, España

En la abstración de mi pensamiento
te encuentro absorto en tu esencia,
araño las albas no vividas
agotadas ya em nuestras quimeras.

Un canto extrañamente seductor
me convierte en ave blanca
para llegar a tu puerto y besar
las alas que te permiten volar.

La tristeza me cubre y me descalza.
mi soledad bate em tu corazón
trazando arco Iris en la hierba negra,
y adviertiendo que mi destino es el mar.

Intuição

Na abstração de meu pensamento
te encontro absorto em tu essencia,
arranho as albas não vividas
esgotadas já em nossas quimeras.

Um canto estranhamente sedutor
me converte em ave branca
para chegar a teu porto e beijar
as asas que te permitem voar.

A tristeza me cobre e me descalça.
minha solidão bate em teu coração
traçando arco-íris na erva negra,
e advertindo que meu destino é o mar.

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Versão em Português e ilustração: C. de A.

Vicente Ailexandre, um Nobel espanhol

Vicente Pío Marcelino Cirilo Aleixandre y Merlo, poeta espanhol, nasceu em Sevilha, em 1898, mas passou a sua infância em Málaga, onde foi colega de escola do futuro escritor Emilio Prados. Filho de uma família da burguesia espanhola, seu pai era engenheiro de estradas de ferro. Mudou-se para Madri, onde cursou Direito e Comércio. Em 1919 licenciou-se em Direito e obteve o título de intendente mercantil. Exerceu funções de professor de Direito Mercantil a partir de 1920 até 1922, na Escola de Comércio.

Em 1917 conheceu Dámaso Alonso, em Las Navas del Marqués, onde veraneava, e, através deste contato, descobre Rubén Darío, Antonio Machado e Juan Ramón Jiménez. Inicia, deste modo, uma profunda paixão pela poesia.

A sua saúde começa a deteriorar-se em 1922. Em 1925 diagnosticaram-lhe uma nefrite tuberculosa, que termina com a extirpação de um rim, operação realizada em 1932. Publicou os seus primeiros poemas na Revista de Occidente, em 1926. Conhece e relacionou-se com Cernuda, Altolaguirre, Alberti e García Lorca. Depois da Guerra Civil não se exilou, apesar das suas ideias políticas. Permaneceu na Espanha e foi galardoado com o “Prêmio Francisco Franco”, em 1949, e transformou-se num dos mestres e exemplos para os poetas jovens.

Sua primeira obra foi Ámbito (1928), dentro da linha de la poesia pura. Em 1927 publicou Espadas como labios, e em 1933 La destrucción o el amor, seguramente sua obra mais importante, segundo seus exegetas. Em 1935 apareceram as prosas poéticas de Pasión en la tierra. Depois da guerra, sua produção poética foi abundante. Destacam-s Sombra del paraíso (1944), Historia del corazón (1954), En un vasto dominio (1962), Poemas de la consumación (1968) e Diálogos del conocimiento (1974). Em 1949 tornou-se acadêmico da Língua Espanhola e, em 1977, recebeu o Prêmi0 Nobel de Literatura.

Morreu em Madri, em 1984.

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La Ventana

Vicente Aleixandre, Espanha
Cuánta tristeza en una hoja del otoño,
dudosa siempre en último extremo si presentarse como cuchillo.
Cuánta vacilación en el color de los ojos
antes de quedar frío como una gota amarilla.
Tu tristeza, minutos antes de morirte,
sólo comparable con la lentitud de una rosa cuando acaba,
esa sed con espinas que suplica a lo que no puede,
gesto de un cuello, dulce carne que tiembla.
Eras hermosa como la dificultad de respirar en un cuarto cerrado.
Transparente como la repugnancia a un sol ubérrimo,
tibia como ese suelo donde nadie ha pisado,
lenta como el cansancio que rinde al aire quieto.
Tu mano, bajo la cual se veían las cosas,
cristal finísimo que no acarició nunca otra mano,
flor o vidrio que, nunca deshojado,
era verde al reflejo de una luna de hierro.
Tu carne, en que la sangre detenida apenas consentía
una triste burbuja rompiendo entre los dientes,
como la débil palabra que casi ya es redonda
detenida en la lengua dulcemente de noche.
Tu sangre, en que ese limo donde no entra la luz
es como el beso falso de unos polvos o un talco,
un rostro en que destella tenuemente la muerte,
beso dulce que da una cera enfriada.
Oh tú, amoroso poniente que te despides como dos brazos largos
cuando por una ventana ahora abierta a ese frío
una fresca mariposa penetra,
alas, nombre o dolor, pena contra la vida
que se marcha volando con el último rayo.
Oh tú, calor, rubí o ardiente pluma,
pájaros encendidos que son nuncio de la noche,
plumaje con forma de corazón colorado
que en lo negro se extiende como dos alas grandes.
Barcos lejanos, silbo amoroso, velas que no suenan,
silencio como mano que acaricia lo quieto,
beso inmenso del mundo como una boca sola,
como dos bocas fijas que nunca se separan.
¡Oh verdad, oh morir una noche de otoño,
cuerpo largo que viaja hacia la luz del fondo,
agua dulce que sostienes un cuerpo concedido,
verde o frío palor que vistes un desnudo!

A Janela

Quanta tristeza em uma folha do outono,
duvidosa sempre no último extremo se se apresenta como navalha.
Quanta vacilação na cor dos olhos
antes de ficar frio como una gota amarela.
Tua tristeza, minutos antes de morrer,
somente comparável com a lentidão de uma rosa quando acaba,
essa sede com espinhos que suplica ao que não pode,
gesto de um pescoço, doce carne que treme.
Eras formosa como a dificuldade de respirar em um quarto fechado.
Transparente como a repugnância a um sol ubérrimo,
tíbia como esse solo onde ninguém jamais pisou,
lenta como o cansaço que rende o ar quieto.
Tua mão, sob a qual se viam as coisas,
cristal finíssimo que nunca acariciou outra mão,
flor ou vidro que, nunca desfolhado,
era verde ao reflexo de uma lua de ferro.
Tua carne, em que o sangue detido apenas consentia
uma triste borbulha rompendo entre os dentes,
como a débil palavra que quase já é redonda
detida na língua docemente de noite.
Teu sangue, em que esse limo onde não entra a luz
é como o beijo falso de pós ou um talco,
um rosto em que cintila tenuamente a morte,
beijo doce que dá uma cera esfriada.
Ó tu, amoroso poente que te despedes como dois braços amplos
quando por uma janela agora aberta a esse frio
uma fresca borboleta penetra,
asas, nome ou dor, pena contra a vida
que segue voando com o último raio.
Ó tu, calor, rubi ou ardente pluma,
pássaros acesos que são núncio da noite,
plumagem com forma de coração colorado
que no negro se estende como duas asas grandes.
Barcos distantes, silvo amoroso, velas que não soam,
silêncio como mão que acaricia o quieto,
beijo imenso do mundo como uma só boca,
como duas bocas fixas que nunca se separam.
Ó verdade, ó morrer uma noite de outono,
corpo imenso que viaja rumo à luz do fundo,
água doce que sustentas um corpo concedido,
verde ou fria palidez que vestes um desnudo!

A Don Luis de Góngora

Vicente Ailexandre

¿Qué firme arquitectura se levanta
del paisaje, si urgente de belleza,
ordenada, y penetra en la certeza
del aire, sin furor y la suplanta?

Las líneas graves van. Mas de su planta
brota la curva, comba su justeza
en la cima, y respeta la corteza
intacta, cárcel para pompa tanta.

El alto cielo luces meditadas
reparte en ritmos de ponientes cultos,
que sumos logran su mandato recto.

Sus matices sin iris las moradas
del aire rinden al vibrar, ocultos,
y el acorde total clama perfecto.

A Dom Luís de Gôngora

Que firme arquitetura se levanta
da paisagem, se urgente de beleza,
ordenada, e penetra na certeza
do ar, sem furor e a suplanta?

As linhas graves vão. Mas dessa planta
brota a curva, torce sua justiça
na cúpula, e respeita a cortiça
intacta, cárcere para pompa tanta.

O alto céu luzes meditadas
reparte em ritmos de poentes cultos,
que sumos logram seu mandato estreito.

Seus matizes sem Iris as moradas
do ar rendem ao vibrar, ocultos,
e o acorde total clama perfeito.

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Versão ao Espanhol e ilustrações: C. de A.

Uma voz de Valência, transformada em silêncios, atravessa o Atlântico

Em Algemesí, municipio da província de Valência, na Espanha, uma comemoração tradicional rememora o achado, em 1247, de uma imagem de Nossa Senhora da Saúde (Verge de la Salut ou Mare de Déu da Salut, na língua valenciana). A festa cobre os días de 7 e 8 de setembro, que se constituem nas maiores datas da cidade. No dia 8, uma procissão formada por danças típicas,

Torre humana na Muixeranga de Algemesí

introduz a imagen da Virgem na basílica de Algemesí, “rodeada de muixerangues e danças de tornejants, bastonets e llauradores, ao som de dolçaines e tabalets” (ver significado abaixo). No dia da festa do ano de 1968, poucas horas depois da imagen ter entrado na igreja, nascia uma menina que receberia o nome de Salut, em homenagem à padroeira local.

O cenário que cercou o nascimento de Salut Navarro Girbés talvez lhe tenha tocado com o dom da poesía. Mais tarde, ela estudaria Psicologia, pela Universidade de Valência, e tornou-se mestre em Marketing. Apaixonada pela poesia e a literatura desde sua infância, só recentemente lançou seu primeiro libro Silentes, no qual ela convida o leitor a percorrer seus sentimentos e experiências pessoais, magnificados sempre pelo silêncio, que  identifica e define toda sua obra poética. Como ela mesma expressa: “Estou plena de silêncios, mas ainda me restam algumas palavras”.

Conheci Salut Navarro no ning Militeraturas! e, após ler seus poemas em vários sites, convidei-a a abrir uma conta no Banco da Poesia. Não só aceitou o convite como me comunicou que seu libro e seu disco já estão atravesando o oceano Atlântico para me encontrar.

Mas antes que Silentes chegue, vamos conhecê-lo por meio da sinopse que o livro nos oferece.

Existe.

Há um lugar no qual o silêncio caminha descalço sobre sinuosa hera, onde a profundidade salobre nos protege a todos de caminhos cotidianos na vida.

Há um lugar perdido, repleto de atalhos inundados de fragrâncias, paixões, amor, tristeza notâmbula e lodo azulado de olhares ermos.

O mar convertido em homem nos arroupa azul, esculpindo ilhas, abrigando náufragos, albergando para sempre nossas almas silentes…

Silentes é um percurso pela ampla bagagem sentimental, uma carícia essencial, uma biografia da sensibilidade inata, um passeio pelas emoções capturadas. Em suma, um esboço das palabras que jamais se pronunciam.”

E Salut– cujo nome já é uma saudação – continua: “Creio estar exatamente na metade do caminho, nem muito jovem, nem muito mais velha para nada, e tenciono aproveitar ao máximo tal situação. Tenho um pé na terra e outro em Vênus, balanço-me mas consigo o equilíbrio. Sou cidadã do mundo, como todos os cidadãos, e escrevo para ti, enaltecendo o mestre Sanchis Girbés, seguindo seus sábios conselhos: ‘Escreve e caminha. Nunca deixes de escrever nem de caminhar’. Nele estou, e ainda que ele me acompanhe, tenho que assumir também que se foi, ainda que seja só um pouco”.

Seja bem-vinda, Salut. Que seus versos sigam enriquecendo o Banco da Poesia! (C. de A.)

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Notas

  • Muixerangues ou Muixeranga – conjunto de quadros plásticos composto por torres humanas e figuras representativas, abrem uma sucessão de danças que finalizam as festas da Virgem da Saúde.
  • Els Bastonets – dança guerreira que aparece em muitos partes de Valência. Sua presença em Algemesí datada de 1839 e relaciona a festa com as tradições mais ancestrais da cultura valenciana. Ao som dos tabalets e da dolçaines os oito componentes da dança encenam uma luta com os bastonets (bastões) e as plantxetes.
  • Els Tornejants – a dança mais emblemática da festa da Virgem Maria da Saúde. Repleta de conteúdos místicos, põe em evidência as destrezas e habilidades de um grupo de cavalheiros que se movimentam ao som de um tambor como único acompanhamento.
  • Llauradores (lavradores) ou Bolero é a dança mais moderna da procissão, pois apareceu pela primeira vez em 1906. É a única dança que não vai acompanhada pela música da dulzaina e do tabalet, mas pela seção de instrumentos de sopro da banda.
  • Tabalet ou tamboril é um instrumento de percussão membranófono, cilíndrico, percutido com baqueta típico da península Ibérica. Similar a um tambor, mas com uma caixa mais estreita e alongada.
  • Dolçaines ou dulzaina é um instrumento de sopro de lingueta dupla, da família do oboé. Tem forma cônica e cerca de 30 cm de comprimento.

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Mienten

A Juan E. Sanchis Girbés
Maestro literario

Batas blancas dicen que has muerto,
que tu último aliento ha expirado.
Emblemático y simbólico
transciendes a tu propio ser,
y expandes tu fuerza al viento
que mueve gigantes y molinos.

…Y te yergues sobre tu caballo,
altivo, noble, sincero, digno.
Por lanza, una pluma afilada.
De escudo,  innata honestidad.
La honra, libertad blanca.
Arte, como lucha e himno.

Tu prisma ante la vida, zurdo y caleidoscópico,
te transforma en amenazador de miradas hipócritas.
Rey de los locos,
loco en presencia de fariseos,
cuerdo-loco por sabio, por bondadoso, por tierno.
Eres amor infinito.

Acaricio el pelo negro, la barba entrecana.
Frente tibia en lágrimas bañada.
Agua salina de horizonte vital y sombrío.
Permanezco en tu ribera,
en tus manos que se tornan frías, amarillean.
Mis palabras trenzadas con respuestas silentes.

Escudero soy, sé que las batas blancas mienten,
como se equivocó don Miguel.
¡Don Quijote no ha muerto!
Yo quiero ser loco,
privilegiadamente loco,
cíclope sabio de sensibilidad eterna.

Hoy dicen que has muerto,
y encierran tu cuerpo en un sepulcro gélido, mudo, oscuro.
Mis ojos te persiguen y mi alma queda presa contigo
entre las cuatro claustrofóbicas paredes de tu silencio.
Festones negros adornan el cielo.

Testigo e indigna de tu pluma
armaré el valor con lanza aguda,
tejiendo sentimientos con palabras esenciales,
aullando al vacío las que jamás se pronuncian.
Perdurarán nuestros silencios compartidos,
que hablarán de nosotros con el tiempo como vestigio.

Tú, mi Quijote, que siempre fuiste libre,
hoy te escapas galopando.
Y yo tu fiel escudero, te serviré y te seguiré sin dudarlo
cuando llegue el momento, allí estaré contigo.
¡Cabalga!
¡No mires atrás!
¡Cabalga libre Quijote mío…!

Mentem

A Juan E. Sanchis Girbés
Mestre literario

Batas brancas dizem que morreste,
que teu último alento expirou.
Emblemático e simbólico
transcendes a teu próprio ser,
e expandes tua força ao vento
que move gigantes e moinhos.

…E te ergues sobre teu cavalo,
altivo,nobre,sincero, digno.
Por lança,uma pluma aguçada.
De escudo,inata honestidade.
A honra, liberdade branca.
Arte, como luta e hino.

Teu prisma ante a vida, canhoto e caleidoscópico,
Transforma-te em ameaçador de olhares hipócritas.
Rei dos loucos,
louco em presença de fariseus,
lúcido-loco por sábio,por bondoso,por terno.
És amor infinito.

Acaricio o cabelo negro,a barba gris.
Fronte tíbia em lágrimas banhada.
Água salina de horizonte vital e sombrIo.
Permaneço em tua ribeira,
em tuas mãos que se tornam frias,amarelecem.
Minhas palavras trançadas com respostas silentes.

Escudeiro sou, sei que as batas brancas mentem,
como se equivocou dom Miguel.
Dom Quixote não morreu!
Eu quero ser louco,
privilegiadamente louco,
cíclope sábio de sensibilidade eterna.

Hoje dizem que morreste,
e encerram teu corpo em um sepulcro gélido, mudo, escuro.
Meus olhos te persiguem e minh’alma fica presa contigo
entre as quatro claustrofóbicas paredes de teu silêncio.
Festões negros adornam o céu.

Testemunha e indigna de tua pluma
armarei o valor con lança aguda,
tecendo sentimentos com palavras essenciais,
uivando ao vazio as que jamais se pronunciam.
Perdurarão nossos silêncios compartilhados,
que falarão de nós com o tempo como vestígio.

Tu, meu Quixote, que sempre foste livre,
hojr escapas galopando.
E eu, teu fiel escudeiro, te servirei e te seguirei sem duvidá-lo
quando chegue o momento, ali estarei contigo.
Cavalga!
Não olhes atrás!
Cavalga livre, Quixote meu…!

Noche

“La gran tumba de la noche
su negro velo levanta
para ocultar con el día
la inmensa cumbre estrellada”

García Lorca

Envuelta en seda
y rosas de espina rasgada,
majestuosa y quimérica,
amaneces engalanada.

Viajera errabunda
en la tregua del camino
brindas por la sangre
besando tu filo.

Despuntan,
cuchillos y navajas
tiritando como el frío
envuelto entre mortajas.

Noche

Dulce noche de los néctares.
Noche abandonada en destierro.
Oscura noche aniquilada.

Noche

Tu mirada se estrecha,
deambulando,
antojadiza,
enlutada.

Noite

“A grande tumba da noite
seu negro véu levanta
para ocultar com o dia
a imensa cúpula estrelada”

García Lorca

Envolta em seda
e rosas de espinha rasgada,
majestosa e quimérica,
amanheces engalanada.

Viageira errabunda
na trégua do caminho
brindas pelo sangue
beijando teu fio.

Despontam,
facas e navalhas
tiritando como o frio
envolto entre mortalhas.

Noite

Doce noite dos néctares.
Noite abandonada no desterro.
Escura noite aniquilada.

Noite

Teu olhar se estreita,
deambulando,
antojadiça,
enlutada.

Saudade

Saudade, dueña del sueño
Sinuosa yedra
Serpiente sibilina
Silenciosa carcelera

Añoranza, mensajera del tiempo
Anunciadora de ausencias
Amante de la sierpe
Ábaco de bellezas

Nostalgia, concilio de los afectos
Navío sin estrella
Náufrago desesperado
Nacimiento sin fecha

Melancolía, amiga del recuerdo
Memoria evocadora
Marinero sin destino
Mañana sin aurora

Soledad, desatada por el viento
Sinuosa yedra
Serpiente sibilina
Silenciosa carcelera

Saudade

Saudade, dona do sonho
Sinuosa hera
Serpente sibilina
Silenciosa carcereira

Amarga mensageira do tiempo
Anunciadora de ausências
Amante da serpe
Ábaco de belezas

Nostalgia, concilio dos afetos
Navio sem estrela
N
áufrago desesperado
Nascimento sem data

Melancolia, amiga da recordação
Memória evocadora
Marinheiro sem destino
Manhã sem aurora

Solidão, desatada pelo vento
Sinuosa hera
S
erpente sibilina
Silenciosa carcereira

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Tradução e ilustrações: C. de A.

Murilo Mendes, dois poemas

murilomendes_guignardMédico, telegrafista, auxiliar de guarda-livros, notário e Inspetor do Ensino Secundário do Distrito Federal. Foi escrivão da quarta Vara de Família do Distrito Federal, em 1946. De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira.Em 1957 se estabeleceu em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira. Manteve-se fiel às imagens mineiras, mesclando-as às da Sicília e Espanha, carregadas de história. Assim diz a sua biografia. Mas Murilo Mendes, nascido em Juiz de Fora, em 13 de maio de 1901, e falecido em Lisboa, em 13 de agosto de 1975, mais que tudo isso, foi um poeta. E dos bons.

Cartão postal

PostCard
Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.

O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

xxxxxxxxxxxxxxde Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

Canto a García Lorca

LorcaBlood
Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.

O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

xxxxxxxxxxxxxxde Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 1976
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Ilustrações
Alberto da Veiga Guignard – Retrato de Murilo Mendes
Óleo sobre tela – 61cm x52cm
Cartão postal e García Lorca – montagem gráfica de C. de A.