Novo depósito de Iriene Borges

14 de março próximo a Curitiba · Editado

A Antagonista

Iriene Borges

Antagonista

Vi-me em sua graça, musa cheia de virtude
e mais austera do que é fecundo suportar.
Súbito meu sol nascia entre os dentes
da fera de ciclo lunar
e quando nos sentia crescentes
ela me fazia minguar.
Em instintivo reparo abandonei seu altar
enquanto estragava seu vinho
e embolorava seu pão.

Antes que eu fruísse a liberdade
surgiu Nova
incrustrada em helênica figura.
Eis que me aprova e atribui verdade
em sibilos castelhanos.
Tem a estatura mental dos sábios gregos
e é animada pelo espirito dos livros.
Imita os bons samaritanos
ao amparar meus passos trôpegos
mas sem se deixar tocar.
É joia para ser vista pelos vidros.

Alarme disparado,
fui desfazendo-me
pelas veredas mais inóspitas
dessecando em esquecimento
e quase êxito
quando um hálito tépido
umedeceu minhas costas.
Ela
crescente arremedo
a encobrir-se em parcos tecidos
nata nos cantos da boca
e a erupção de outros pruridos
a vivificar-me em ritualísticas repulsas.
E anestesia com o sorriso
a brutalidade de arrastar-me
pelas alças do intestino.
Longo caminho percorremos
‒ Ela a titerear ‒
até que reclamei meu destino
e deixei-me eviscerar.

Em desprendimento flui contente
de ser enfim a pluma e o lenimento
até ir de arrasto num sopro de gratidão.
Ela
cheia de inocência e sensualidade
na precisão que algum Fídias moderno
talhara para o pasto das mídias
a salientar o meu anonimato
com o glamour dos ícones populares.
Disparei sob uma salva de soluços
num lampejo de recato.
Até o tempo revelar-me
com alguma articulação e molejo
entre os peripatéticos.

E sem demora pôs-se a questionar
minha filosofia uma face Minguante.
Diluída em niilismo antes de adquirir
a constituição que se restaura
reivindicou-me uma aura grotesca.
Carne em brasa que se deslumbra
com a fresca, sumi na umbra.

Destino negro, transpus onze círculos
sem apologia ao heroísmo
e após a instrução do abismo
dei-me à luz.
Certa de novo confronto vigiava
crente que ela irromperia
dentre as bestas do plenilúnio
mas veio sem os auspícios da lunação.
No seu credo o infortúnio
é um indício da iniciação
e reclina-se humildemente
enaltecendo meu despojo.
Intuí nos cicios da monja
uma artífice da lisonja
corrompendo estruturas nascentes.
O asco
manifesto espasmódico da revolta
tornou-me a ameaça belicosa
removida sob escolta
em engenhosa encenação.

Refiz-me
a compleição feroz ‒ escudo ‒
foi craquelando pelo riso.
Agora o frio entra pelas trincas
quando a diviso.
Às vezes através da madeira
um pressentimento encarna em arrepio
todavia ela não entra.
É a maneira descarnada da sombra
que penetra o cristal e puxa o fio
de uma multiplicidade virtual.

O tremor que fissura de dentro
e o comichão nas falanges miúdas
esmorecem nas gretas do silêncio.
Ela sabe que a ossatura range,
estala, rodopia e não desaba
como eu sei
que uma legião de vultos
não faz uma diaba.

3 Respostas para “Novo depósito de Iriene Borges

  1. Isabel Cristina Rodrigues Giovannetti

    Muito lindo!!!!

  2. Guilhobel Aurelio Camargo

    Em 23 de maro de 2014 23:13, Banco da Poesia

  3. grande poema!

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