Últimos dezembros

Vivemos um novo dezembro. Fim de ano, renascer de esperanças e renovação de promessas. Festas, comilanças, fome aqui e ali, bebedeiras, ressacas, fogos de artifício, ensaios de solidariedade. Declarações de amor e amizade que, muito provavelmente, serão esquecidas a partir de janeiro ou no tempo que correr após o próximo carnaval. Dizem os apocalípticos que será o último dezembro completo da humanidade, pois está marcada a data fatal do calendário Maia: 21 de dezembro de 2012.

O próximo ano será o ano do Armageddon, a batalha final prenunciada pela Bíblia.  Nostradamus também volta ser lembrado e tem gente que jura que ele (já usado para outras mortes do mundo, em épocas passadas) igualmente previu algo terrível para o próximo final de ano. Mas também há previsões científicas, que dizem ser 2012 o ano do fenômeno da Precessão, ou do alinhamento cósmico, no qual o eixo da Terra mudará seu ângulo em relação à galáxia. Prevê-se também a inversão dos polos da Terra, com cataclismos fantásticos, erupções vulcânicas, terremotos,  tsunamis e colossais tormentas solares, que causarão colapsos nas redes elétricas e eletrônicas.

O pior (ainda pode haver coisas piores do que os desastres anunciados?) será o deslizamento da crosta terrestre, desarranjando novamente a posição dos continentes. A vingança de Gea, por não sabermos dela cuidar. Ou de uma justiceira alienígena, Némesis, a deusa da vingança, uma estrela que poderá afetar terrivelmente a vida terrestre, devido a sua aproximação. Também com agenda marcada para 2012. E os asteróides, já vistos em produções holiudianas, que poderão (ou deverão?) chocar-se com nosso planetinha querido, igualmente no próximo ano?  Têm até identidade própria, alfanuméricas:  2003 QQ47 ou VD17 2004, monstros de pedra que podem por um ponto final na nossa vidinha nem sempre tão mansa como gostaríamos. Tudo isso sem falar no degelo total do polo norte, com suas consequencias imagináveis.

Os mais otimistas ( e ponha-se otimismo nisso) falam no início de uma nova fase para a humanidade, de conscientização universal e de abandono do egoísmo que, até agora, tem comandado nossa história.

Nós, que amamos a Poesia, mesmo quando ela se nos mostra triste e até trágica, preferimos acreditar que a humanidade, pouco a pouco, alcançará o caminho do equilíbrio social e da harmonia universal. Desastres sempre ocorreram e fazem parte da história natural do planeta. Enquanto eles não vem, preferimos acreditar que ainda haverá muitos dezembros felizes para muitos, infelizes para alguns. Dezembros luminosos, não necessariamente candentes devido a bombas ou asteróides vingadores.  Dezembros que continuarão a lembrar o simbolismo de um menino que renasce todos os anos para, depois de adulto, pregar paz e amor. Símbolo bom para religiosos e não religiosos.

Menino despertado, neste dezembro, pela crônica poética de Vera Lúcia Kalahari, por ela enviada lá de Portugal. Menino que lembra todos os meninos que fomos, que somos e que seremos, como o menino de João Manuel Simões, exposto no seu mais recente livro de poemas, Memórias Breves do Menino Antigo, sobre o qual escreverei mais tarde. Atrevo-me a emprestar o texto da amiga Vera Lúcia para dele fazer minha mensagem de Natal, endereçada a todos os amigos do banco da Poesia. (Cleto de Assis)

Crônica do Menino-Deus

Vera Lúcia Kalahari

Nasceste.
Chegaste num dia frio de sol cadente.
Dormirás sobre estrelas e trazias no cabelo o ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro: o peso assustador, esmagador, do mundo…
Nos olhos, a pureza duma açucena, o brilhar de prantos que jamais choraste.

Nasceste. Não vieste para reinar entre pratas, ouro e pedras, como
aqueles que se intitulam teus seguidores.  Chegaste só, com a chuva
que tombava num telhado em ruínas. Agora, dormes num monte de feno
quente, cheirando a campo. Perto, tua mãe vela docemente com o peso
dum filho que é seu, mas que o mundo roubará.

Nasceste, menino, Homem-Deus, mas não ficaste.
Encontraste, em cada esquina, um Judas
para te trair e uma coroa de espinhos para te ferir com o peso dos
pecados a curvar-te, a enterrar-se até ao fundo do teu coração. Estás
em tudo, Menino-Deus…

Pena teres partido. Não teres mantido o teu
reinado, Tua humildade imensa de cordeiro, entre os homens.
Porque então, Menino-Deus, esta não seria a terra de rios intumescidos
de prantos e de gemidos.
E nós, não seriamos estes vermes rastejantes, de olhos suplicantes
virados para Ti, numa ânsia agônica de Te tocar, sem termos forças
para Te alcançar.

 

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