Hélio de Freitas Puglielli: biopoética de Brecht

Visita ilustre: veio até o Banco da Poesia Hélio de Freitas Puglielli, correntista que há muito não comparecia. Trouxe mais depósitos, capeados por simpático recado: ” Querido Cleto, salve! Andei uns tempos fora de órbita, mas agora estou gravitando em torno do seu Banco de Poesia, que está excelente e super atualizado. Admirei, entre outros tópicos, a oportuna tradução e publicação de versos do prêmio Nobel de Literatura 2011, o que, nos velhos tempos da influência francesa, chamava-se de ‘morceaux choisies’ (trechos escolhidos). Também vi que, em 30 de setembro, você rendeu homenagem a Brecht, a quem admiro imensamente. Tanto que havia escrito, tempos atrás, uma espécie de ‘mini-biografia poetizada’. Sei que a sua ‘carteira de depósitos’ está sobrecarregada, mas, se houver espaço e apesar da greve, meu texto aí está.”

E seu texto, sempre bem-vindo, aqui vai.

Olhando Bert Brecht

Em 1927 você foi fotografado por Konrad Ressler.
Era jovem de menos de 30 anos,
mas já tinha três filhos com três mulheres
e estava legalizando a separação com Marianne Zoff
(a primeira com que casou, a segunda que fez mãe).
Disso nada falam o nariz reto,
um pouco arrebitado,
e o olhar sereno e altivo.
O pai de Frank, Hanne e Stefan
sorri levemente,
apesar da tensão dos lábios em torno do charuto.
Veste sobretudo de couro negro, abotoado até o pescoço,
como pressentindo que logo ficaria de luto pela Alemanha
e por si mesmo.
Na aparência olha para frente,
mas as pupilas infletem minimamente para baixo,
o suficiente para dar a impressão de que sua visão defronta-se com a História.
E os ventos da História em seguida te arrastaram pela Europa,
Dinamarca, Finlândia, Suíça, Áustria, Checoslováquia,
até atravessar a URSS e chegar ao porto de Vladivostok,
onde, singrando o Pacífico, o navio te levou aos EUA.
E agora te reencontro, na foto de Gerda Goedhartd,
um homem de 55 anos,
que do jovem só conserva a testa e as espessas sobrancelhas.
O nariz como que se abateu sobre si mesmo,
marcado pelas bochechas fofas e as asas gordas das narinas.
Há um charuto nos lábios,
mas tornou-se necessário o indicador em anzol para também sustentá-lo.
A fisionomia triste fala das vicissitudes em Hollywood,
das entrevistas com os inquisidores à cata de comunistas nacionais e estrangeiros.
Mas o olhar acabrunhado deve refletir a morte do filho Frank,
um dos tantos que tombaram nos campos gelados da Europa Oriental.
Hitler conseguiu matar seu filho, um entre tantos milhões de jovens alemães
amortalhados nos campos de batalha.
Bert Brecht, que sempre lutou pela paz e a justiça,
suga amargamente o indefectível charuto.
Houve certamente a alegria de voltar a Berlim e montar suas peças.
Elas foram encenadas e premiadas também na Europa Ocidental e nos EUA.
Essa alegria você teve em vida,
talvez como compensação ao dissabor de ver que a RDA não era bem a dos teus sonhos.
Mas Brecht, que se preocupava demais com a humanidade e o futuro,
está triste e pensativo na foto de 1953.
Três anos mais tarde estaria livre de todas preocupações
e a nós compete fazer com que seus textos, sim, não morram,
pois sempre haverá alguém assim para defender a dignidade de todos os homens.

Helio de Freitas Puglielli

Ilustração: montagem de C. de A. sobre fotos de Konrad Ressler e Gerda Goedhartd

Uma resposta para “Hélio de Freitas Puglielli: biopoética de Brecht

  1. Gersonita Elpídio dos Santos

    Simplesmente espetacular! Só alguém com muita sensibilidade e carisma conseguiria escrever um texto tão poético assim.
    Na belíssima imagem de Brecht sugando “o seu indefectível charuto”,também nós leitores experimentamos um pouco dessa decepção,tristeza e agonia da realidade tão cruel. Não muito diferente daquelas que vivenciamos hoje ,impregnada de ódio,inveja,cobiça e falta de verdadeiros valores.
    Professor Hélio de Freitas Puglielli,será que o senhor poderia escrever sobre o paranaense Sérgio Rubens Sossélla? Na condição de pesquisadora do referido escritor,sei de sua grande amizade e admiração por Sossélla.
    Um grande abraço,
    Profª Gersonita Elpídio dos Santos, de Paranavaí – Pr.

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