Manoel de Andrade e sua participação nas Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana

No início de agosto Manoel de Andrade esteve em Niterói para participar do  JALLA BRASIL 2010, a nona edição das Jornadas Andinas de Literatura Latino Americana, realizada na Universidade Federal Fluminense . O congresso é considerado um dos mais importantes eventos latino-americanos na área de estudos de literatura e cultura da região e sua primeira realização no Brasil representou um grande gesto de solidariedade, integração e interlocução cultural entre os povos sul-americanos. Alguns paranaenses ligados à área acadêmica estiveram presentes e apresentaram trabalhos de pós graduação – mestrado e doutorado – na área de literatura hispânica. O convite ao poeta Manoel de Andrade foi para a apresentação de sua poesia, analisada durante o congresso, produzida no período em que foi marcante a sua  militância poética e ligação política com o continente latino-americano, na década de 70. No relato de suas impressões sobre o evento surgiu a idéia de publicarmos uma entrevista no Banco da Poesia, que inaugura mais uma modalidade de comunicação com nossos correntistas.

O depoimento apresenta opiniões pessoais do entrevistado e não representa, em seu todo, o pensamento da editoria do Banco da Poesia, que é uma tribuna livre, plural e democrática de divulgação da arte poética e dos temas a ela relacionados. As fotos que ilustram a matéria foram feitas pelo entrevistado e por ele cedidas.

BP – Como surgiu o convite para participar do JALLA BRASIL 2010?

MAFoi por meio da professora Suely Reis Pinheiro, doutora em Língua Espanhola e Literatura Hispânica e diretora da Revista Hispanista, publicada no Rio de Janeiro. Em sua dissertação de mestrado, no ano de 2003, na UFRJ, sobre o livro “Garabombo: El Invisible”, do peruano Manuel Scorza, ela epigrafou o texto com alguns versos do meu poema Canção de Amor à América e apresentou-o em vários encontros de literatura no continente. Em 2008,  nos descobrimos pela Internet. Posteriormente passei a assinar a coluna Vida & Poesia em sua revista eletrônica e, agora que meu livro Poemas para a Liberdade foi publicado no Brasil, ela resolveu apresentá-lo no  JALLA BRASIL 2010.

BP – Qual sua impressão sobre o Congresso?

MAA melhor possível, do primeiro ao último dia. A abertura, no Teatro Popular de Niterói, foi muito interessante, sobretudo pelo alto nível intelectual das conferências do uruguaio Hugo Achugar e do brasileiro Silviano Santiago,  com o tema O entrelugar do intelectual latino-americano. Com quase 1200 participantes,  vindos da maior parte dos estados brasileiros e de todos os países sul-americanos, onde se ouvia mais castelhano que português, o evento primou pela excelente organização, pelas portas que abriu como uma grande resposta brasileira aos contatos com o mundo hispano-americano, pela riqueza dos temas, onde se aprofundaram os estudos de literatura hispânica e brasileira e marcado também  pela forte presença da cultura afro-americana. O Congresso estava envolvido por um contagiante espírito de fraternidade continental, facilitando para todos os participantes  e, particularmente para mim, importantes contatos literários e promessas de belas amizades.

BP – O JALLA e a FLIP foram realizados na mesma semana. Um evento não fez concorrência  com o outro?

MATradicionalmente o JALLA não é um encontro de escritores, mas de estudiosos da literatura. Um evento onde as obras dos grandes autores do continente são apresentadas, analisadas e debatidas pelo mundo acadêmico voltado às Letras. Embora a Feira Internacional de Parati, ali próxima e simultânea, tenha polarizado a atenção do país e do mundo, importantes autores e estudiosos da literatura  brasileira e hispano-americana estiveram presentes nas Jornadas Andinas de Niterói.

BP – Você fala de importantes contatos literários. Pode citar alguns?

MA Particularmente, tive oportunidade de estreitar laços literários e fraternos com alguns escritores, ensaístas e pesquisadores acadêmicos. Entre os escritores quero ressaltar  meu fraterno relacionamento com Enrique Rosas Paravicino, narrador cusquenho que desponta vigorosamente no Peru com obras como Al filo de rayo, El  gran señor, Ciudad apocalíptica, La edad de Leviatán, além de estudos e ensaios que têm merecido  reconhecimento nacional e internacional. Sua última novela,  Muchas Lunas en Machu Picchu, que Enrique me presenteou com autógrafo de palavras tocantes e solidárias, é uma viagem fascinante pela história andina, detalhando, com um estilo sedutor, a construção da cidadela de Machu Picchu, pelo imperador Pachacútec. Ele conta a grandeza do incário e sua trágica destruição pelos espanhóis.

Lá estava também Raúl Bueno, outro peruano de Arequipa, com quem troquei gratas lembranças de atividades poéticas, recordando minha passagem pela cidade em 1969, quando a  Federación  Universitaria de Arequipa lançou a primeira edição panfletária de meu livro Poemas para la libertad. Bueno é um intelectual brilhante e tem um currículo acadêmico invejável.  É autor de muitos estudos sobre literatura, editor da importante Revista de Crítica Literária Latinoamericana e professor de espanhol e português nos Estados Unidos. No JALLA ele partilhou a conferência plenária sobre Tradução como mediação cultural, com o escritor paulista Eric Nepomuceno. Com este último tive agradáveis momentos.  Eric – tradutor de grandes prosadores hispano-americanos como Eduardo Galeno, Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Juan Rulfo e tantos outros –, sempre muito descontraído, deixou todo mundo à vontade em sua conferência, ao explicar o seu estilo original de traduzir e falar sobre a invejável amizade que mantém com os autores que traduz.

Também como conferencista do evento esteve presente o escritor boliviano Guillermo Mariaca, autor de vários livros, entre eles O poder das palavras, editado em Cuba, pela Casa das Américas. Guillermo esteve em maio deste ano no Brasil, participando  do  VI  Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, na Universidade Federal da Bahia e é uma das figuras de grande prestígio na Bolívia e no Continente como estudioso de literatura. Ele foi portador de meu último livro para pessoas com quem me relacionei  na Bolívia, há 40 anos. Um deles foi o cineasta Jorge Sanjinés, diretor, entre outros,  do premiado filme Yawar Mallku, como também a jornalista Sylvia Laborde, cuja memorável reportagem  – escrita em 1970 sobre o lançamento, em La Paz, de meu primeiro livro – consta agora na fortuna crítica da edição  brasileira, publicada no ano passado. Creio que ela terá uma grata surpresa ao ver sua matéria escrita no jornal Jornada, em 20 de junho de 1970, estampada agora em dois idiomas nas páginas do meu livro.

Entre os escritores brasileiros passou também por lá o mineiro Silviano Santiago, há muito tempo radicado no Rio de Janeiro. Romancista, poeta, ensaísta e contista, com dezenas de livros publicados e ganhador do Prêmio Jabuti de romance em 1993, Silviano – que teve a gentileza de me mandar por e-mail o seu discurso de abertura –, embora ainda não tenha recebido o reconhecimento nacional, é um dos mais prestigiados críticos literários do país e uma das mais brilhantes personalidades da literatura brasileira contemporânea.

Diante da variedade de simpósios, plenárias e conferências, não foi possível estabelecer e estreitar contato com tantos quanto eu quisera; contudo não posso esquecer o reconhecimento e os gestos fraternos de grandes pesquisadores da literatura que me distinguiram com honrosos convites para futuras apresentações. Entre estes quero destacar as professoras-doutoras Sara Araujo Brito (UFRRJ) e Rita Diogo (UERJ). Quero também aproveitar o oportuno espaço desta entrevista para tornar pública minha gratidão à professora-doutora Suely Reis Pinheiro, pela apresentação do meu livro no JALLA BRASIL 2010 e pelo prestígio que tem dado a minha poesia em outros países, fazendo a leitura dos meus versos num tempo em que eu sequer sonhava em voltar para a literatura.

BP– Consta  na orelha de seu livro Poemas para a liberdade que você foi expulso da Bolívia, depois de participar de um Congresso de Literatura. Como foi isso?

MACheguei à Bolívía  nos primeiros dias de setembro, em 1969,  e uma semana depois o exército matou, em La Paz, o guerrilheiro Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara em Ñancahuazú. Eu trazia do Chile os contatos para chegar até sua Organização, porque pretendia entrar na guerrilha reestruturada por ele. Com sua morte tudo mudou e, na minha frustação, escrevi, em sua memória,  o poema El Guerrillero. Posteriormente fui convidado para participar do Congresso Nacional de Poetas, realizado no fim de setembro em Cochabamba, onde, apesar de ser alertado dos riscos que corria, li o poema diante do auditório lotado no Palácio da Cultura. No dia seguinte, 26 de setembro, caiu o governo de Siles Salinas e tomou o poder o general Alfredo Ovando, responsável, dois anos antes, pelo tristemente célebre massacre de mineiros na “Noche de San Juan”. Tudo mudou no país e o Congresso passou a ser controlado por militares. O poeta boliviano Ambrosio Garcia Rivera foi preso e eu tive 48 horas para deixar a Bolívia por acharem que meu poema a Inti Peredo era uma subversiva instigação à luta armada e uma aberta provocação à autoridade militar que o tinha assassinado três semanas antes.

BP – Você esteve 30 anos afastado da poesia e retornou, em 2007, com a publicação de seu livro Cantares. Como está a recepção de sua poesia no Brasil?

MASer poeta é uma sublime e solitária aventura. O poeta sempre foi um ser desgarrado do seu tempo e hoje mais ainda. Ao mundo importa cada vez menos a poesia. Em 1965 o público lotou o Pequeno Auditório do Teatro Guaíra para assistir a “Noite da Poesia Paranaense” e lá estivemos 13 poetas gratificados com tantos aplausos. Hoje um acontecimento desse porte pareceria um espetáculo insólito em Curitiba, apesar do empenho em se manter o interesse pela oralidade da poesia em iniciativas admiráveis, como vem fazendo o SESC, no Paraná e em todo o país, para citar apenas um raro exemplo promovido oficialmente..  Somente os festivais nacionais e os grandes festivais internacionais de poesia têm preservado a sua imagem no mundo. Além da crise da oralidade, são poucos os que  leem poesia  e por isso mesmo o mercado editorial não favorece seus títulos e as livrarias “escondem” seus volumes. Depois desse desabafo – que é também um gesto solidário com tantos bons poetas que não encontram as portas editoriais abertas para seus livros – eu respondo que tenho recebido alguma atenção da mídia com reportagens, entrevistas e convites para eventos literários. Meu livro Cantares teve, sim, uma boa recepção e está quase esgotado e Poemas para a Liberdade está vendendo muito bem.

Minha participação no JALLA 2010 ensejou muitos convites, entre eles o patrocínio para meu retorno ao Rio de Janeiro, em fins de setembro, para apresentar-me na UERJ e na UFRRJ. O caminho da notoriedade para um  escritor e, sobretudo, para um poeta é longo e imprevisível, sobretudo num país imenso como o nosso. Voltei há três anos para essa estrada e só agora percebo o tempo imenso dessa ausência. Mas esses 30 anos não foram perdidos.  Outra bandeira, com as cores da fraternidade, esteve em minhas mãos e agora eu quero recompô-la com o estandarte da poesia.

BP – Quais são seus projetos como escritor? Há títulos novos no forno?

MASim. Estou escrevendo as memórias de minhas andanças pela América Latina, na década de 70. É uma experiência fascinante voltar a transitar pela estrada do tempo. É um pouco dessa busca proustiana do tempo perdido. Creio que todo poeta, todo escritor chega a um momento em que procura recuperar o passado. Grandes obras  da literatura universal, e sobretudo os grandes poemas épicos, como os Lusíadas, a Ilíada e a Odisseia, são frutos da memória aliada à imaginação. Devo dizer que meu depoimento, ao longo dos 16 países onde passei,  não é uma confissão meramente pessoal e aventureira. Os fatos e as referências pessoais marcam apenas a estrutura cronológica e geográfica do meu roteiro. Por trás desse caminhar está o testemunho crítico de um tempo de lutas e esperanças que caracterizou a história revolucionária do continente nas décadas de 60/70  e, sobretudo,  o mergulho constante na história dos países  por que passei  e  nos movimentos libertários que marcaram a história da América desde o seu descobrimento – como a  história dos 350 anos de resistência e invencibilidade dos araucanos, no Chile, e a revolta de Túpac Amaru, na região andina –, e que são historicamente rediscutidos  à luz  da interculturalidade contemporânea e das muitas leituras e pesquisas que fiz naqueles anos.

Manoel de Andrade com o escritor peruano Enrique Rosas Paravicino

Manoel de Andrade com o escritor peruano Enrique Rosas Paravicino

O poeta na mesa coordenada pela prof. Suely Reis Pinheiro, na qual leu poemas de sua autoria

O poeta na mesa coordenada pela prof. Suely Reis Pinheiro, na qual leu poemas de sua autoria

Manoel em diálogo com o escritor Eric Nepomuceno,  tradutor vários autores hispano-americanos

Manoel em diálogo com o escritor Eric Nepomuceno, tradutor de vários autores hispano-americanos

Um dos muitos contatos feitos por Manoel de Andrade no JALLA 2010 foi com o editor e professor peruano Raul Bueno

4 Respostas para “Manoel de Andrade e sua participação nas Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana

  1. Parabéns por mais este sucesso, tão merecido.
    Não ponho em dúvida que a obra que está agora a concretizar, será mais um êxito. Quando o passado ´e uma longa estrada com tantos encontros memoráveis, trazê-lo ao presente, para que esses mesmos encontros que se traduziram em histórias ou aventuras passem ao conhecimento do grande público é, à partida, uma ”prenda” para todos nós, que estamos ansiosos por abri-la.

    Um abraço.

    Sua admiradora e amiga
    Vera Lucia

  2. Eu também gostaria de agradecer à profa. Suely por ter brindado nosso Simpósio com a presença do poeta Manoel de Andrade, experiência viva do intelectual engajado e que ainda conserva acesa a chama da esperança de uma América e de um mundo melhor, mais justo e mais humano. Parabéns, Poeta!
    Bjs. Rita Diogo.

  3. Manoel de Andrade

    Obrigado Vera e obrigado Rita…, pelo carinho intelectual das palavras. Me tocam porque sei que são sinceras e, me contagiam, pelo estímulo.
    Um fraterno abraço a ambas…, Manoel

  4. Olá, Manoel
    que delicia ler teu cometário
    que afinidades interessantes… caminhos que se alinham e desalinham no tempo… traçados de memórias e paisagens impregnadas de aromas… gostos e todas as texturas que a pele pode guardar…
    conte mais…
    lembrar é tornar a passar pelo coração e tudo que nele há é vivo e pulsante…
    poeticamente,
    Cláudia Regina Telles

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