Metáforas em busca de atento escutar

Certa vez, ao ilustrar  poema de um bardo amigo, coloquei nas mãos da figura pensativa, à beira do mar, um simples bastão. A idéia era mostrar um observador, que sonhava, na praia, em navegar nas velas do barco ao alcance de seu olhar. Naquele momento de descanso da caminhada e imerso na paz de seu velho sonho marinheiro,  apoiava-se no seu pequeno cajado. Mas nem sempre o que imaginamos é o que os outros sentem. E meu amigo poeta reclamou, pois o bordão, mesmo simbólico, lhe parecia bengala de arrimo a vetusto e cansado espectador das marés.

Ora, direis, tira-lhe o báculo e devolva-lhe a vitalidade dos mais jovens. Mas lhes responderei, ainda usurpando de Bilac a frase: por certo perdestes também a visão correta! Jamais lhe daria um bastão de apoio à velhice (a não ser que fosse necessário), mas quis simbolizar na pequena haste o apoio a seu espírito de peregrino. Talvez me explique melhor no poema abaixo. (C. de A.)

Ode ao bom pastor

Montagem sobre gravura de Albrecht Dürer

Dizem que Hermes, filho de Zeus e da ninfa Maia
e irmão de Apolo,
antes de se tornar deus do comércio,
amava a música e enriqueceu-a com a lira.
Apolo, embevecido com o novo instrumento,
permutou-o por um bastão mágico
que dava a seu possuidor conduta reta e prudência moral,
além de poder, diligência, sabedoria e superiores pensamentos.
Mas Hermes continuava a amar a música e criou a flauta
(cochicham as ninfas que muito antes de seu romano filho Pã),
e em troca recebeu do irmão o dom da sabedoria.
E para dotar o mundo de equilíbrio e justiça,
teria criado a balança,
na qual Têmis passou a sopesar as ações dos homens.

A Hermes seu pai proveu-o de asas nos pés
e ele se tornou o deus dos viajantes,
inspirador dos peregrinos,
condutor dos viandantes sem rumo,
iluminante das beiras dos caminhos
e protetor de todos os que se apóiam em bastões seguros
para tornar menos árduas as caminhadas.

Poeta, tu que partiste em busca da paz e da justiça,
e empunhaste outrora o símbolo equivocado da lança fratricida,
bendito seja o teu retorno às asas da pomba peregrina
que carrega o ramo da oliveira para anunciar bom tempo
e a paz dos mares, e o perfume dos ares,
e a fartura da terra que concede saudável alimento para o corpo
e a ternura da palavra que consagra fraterno alimento para a alma
e a transformação da haste mortal em firme bastão de ajuda.

Vagaste por rotas erradias, muitas vezes sem saber que destinos alcançar
mas guardavas dentro de ti a certeza do encontro seguro contigo mesmo
e de reencontros com os que deixaste para trás
quando seguiste por sendas que só teu canto iluminava,
sempre guardado pelo vigia das veredas desconhecidas.

Por certo andaste por trilhas distantes das caminhadas por Hermes,
sem ouvir liras de cascos de tartaruga
e afinadas flautas de bambu gregas ou romanas.
Mas criaste tua própria Arcádia nos zênites andinos
ao som de zamponhas  e charangos,
engendrados em frágeis taquaras e cascos de tatu
e harmonizados por Apu Kun Tiqsi Wiraqutra,  Senhor e Maestro do mundo.

Bendito sejas tu, porque garimpaste a paz na rudeza das palavras primevas
e  hoje fazes de tua voz conselho e bálsamo para os aflitos
e alcançaste a verdadeira liberdade nos teus sequentes cantares,
onde toda utopia está a teu alcance, porque construída em bondade.

Se o cajado que te dei
foi de súbito confundido com o apagar da juventude
assegura-te que ele é símbolo da sabedoria, da ajuda fraterna
e da medicina da alma, sem o peso de serpentes conflitantes.
Apóia-te nele e segue em tua faina de pastor nos campos da poesia
e continua a lavrar e levar paz e alimento a teu rebanho de palavras.

Cleto de Assis – fevereiro 2010

2 Respostas para “Metáforas em busca de atento escutar

  1. Manoel de Andrade

    Cleto, querido amigo!

    Obviamente que me dei por por achado e me comove mais esta segunda prova poética da tua grande amizade.

    Dizem que em relação ao tempo, a criança só pensa no presente, o jovem só pensa no futuro e o velho só pensa no passado. Ainda bem que não SOU Manoel, mas ESTOU Manoel neste corpo de 69 anos, onde habita, transitoriamente, minha eterna juventude espiritual. Contudo é bem verdade que meus poemas andinos me levam sempre ao passado para recordar uma saga delirante. Hoje me pergunto como pude fazer tudo aquilo, solitário e itinerante por tantos caminhos e superando contínuos reveses que – pela força de meu sonho, pela esperança dos meus versos e a identificação com as bandeiras libertárias do meu tempo – nunca silenciaram meu canto nem paralisaram meus passos, mas, ao contrário, semearam meus caminhos de saudosas trincheiras, embates e desafios, me povoando a alma de sentido, de espectativas e de um sonhado amanhecer.

    Sim, meu “bastão mágico” foi a dimensão da minha utopia, cantando um “ mundo de equilíbrio e de justiça”, ao “som de zamponhas e charangos”, quenas e tambores e dos hinos de liberdade de tantos militantes.

    Mas se o fraterno do cajado que me deste é o simbolo da sabedoria, me falta ainda muita estrada para merecê-lo. Alguém já disse que “a verdadeira sapiência começa com a consciência da nossa ignorância” e eu sinto que terei que garimpar, por muitas vidas, o ouro da humildade para poder dizer, um dia, como Sócrates: “Só sei que nada sei”.

  2. Caro amigo Cleto,

    Permita-me a familiaridade de trato. Li, reli e tornei a reler este poema maravilhoso. Um dia disse-me que não é muito dado a comentar poemas porque estes ”não são o seu forte”… Na linguagem moderna, ”não são a sua praia…”
    Se isto corresponde à verdade, o que obviamente não acontece, que mais dizer? Eles são verdadeiras epopeias postas em verso.
    Cleto de Assis, você é um senhor em tudo o que faz. E eu orgulho-me muito de ter tido o privilégio de você me ter incluído na sua lista de colaboradores.
    Parabéns por este poema magnífico, parabéns pela sua humildade que é uma lição de vida.
    Receba um abraço grande da
    Vera Lucia

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