A Criança é Pai do Homem?

 

“A infância deixa rastros em nossa memória, como sulcos num rosto ou num campo lavrado”.

A frase é do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850), que gerou outro belo achado: “A criança é pai do homem”, registrado por muitos como de autoria de Sigmund Freud, mas que teria apenas sido por ele citado em seus trapalhos de psicologia.

Na verdade, somos o que fomos. Nada existe em nossa vida adulta – nossos sentimentos, nosso caráter, nossas aptidões, nossos medos, nosso relacionamento social – que não tenha sido estruturado nos primeiros anos de vida. É por isso que é preciso dar importância primordial à Educação, tanto na fase familiar como no prosseguimento escolar e social.

Mas quando pensamos profundamente nas crianças que fomos, para poder entender os adultos que somos?

Fernando Pessoa pensou nisso com lamentação, em uma composição de dois sonetos e uma quadra. Vale a pena ler seus versos, em homenagem ao Dia Universal da Criança, ontem comemorado.

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

22-setembro-1933

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