Descartes ou Pessoa, eis a questão

Descartianas descartáveis

Cleto de Assis

Não há nada que dominemos inteiramente a não ser os nossos pensamentos. René Descartes
Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias. Fernando Pessoa

 

Descartianas

René Descartes - montagem de C. de A.

 

 

I

Penso logo. Existo?
Sentimos, logo existimos.

A sensação é caos,
O pensamento é ordem.

A sensação liberta,
O pensamento oprime.

O pensamento é linear.
A sensação é multidimensional.

A sensação é agora.
O pensamento é ontem e amanhã.

A sensação é nós.
O pensamento é eu.

A sensação expande.
O pensamento esconde.

O pensamento é inação.
A sensação é movimento.

O pensamento é humano.
A sensação é cósmica.

O pensamento prende.
A sensação transcende.

O pensamento é lógica.
A sensação é mágica.

A sensação é emoção.
O pensamento é razão.

II

Diga e não diga
atento siga
até a curva
que não existe.

Depois prossiga
vá ao limite
do passo incerto.
Pare, olhe, escute.
Se ouvir o silvo
ou o apito
esconda o grito
recolha o espanto
longe do pranto.

Não corra:
pé ante pé
percorra a rota
não decidida
na sua vida.

Não ponha em ordem
seus pensamentos
e nem logique
as sensações.
Há mil razões
pra se viver
na desrazão.

Tenha certeza
da incerteza
que tudo cerca.
Por isso, irmão,
não metodize
um céu brilhante
ou o instante
da flor singela.
A vida é bela,
não pense: exista.

6 Respostas para “Descartes ou Pessoa, eis a questão

  1. Manoel de Andrade

    Penso, logo existo. Afirma Descartes
    E é neste “logo” que tropeço. Diz André Gide

  2. “Penso, logo desisto.” Mario da Silva Brito (1916- )

  3. ´’.”Penso, logo existo.”E o que é, na realidade o existir?
    É termos consciência do que se passa à nossa volta?
    Então aqueles que não olham para outra coisa que não seja o seu umbigo? Esses, que obviamente não pensam, existem
    também? Gostava que algum dos leitores deste blogue ma
    esclarecesse sobre esta minha dúvida.
    Vera Lucia

  4. Obrigado, meus amigos, pelos comentários. Os poeminhas não têm pretensão literária, quanto mais filosófica. Mas, em certa medida, reproduzem meus acertos mentais com Pessoa, que acreditava nas sensações, como início e fim da obra de arte. Eu também acredito que tudo começa na percepção (quem não sabe perceber, não interioriza a sensação e não sabe comunicar), mas também acredito em um outro amigo de adolescência, Krishnamurti, que dizia que o pensamento é memória e o sentir só é absoluto quando o pensamento cessa.

    Manoel: Boa a lembrança de Gide. Mas a ele também me aproximo quando o recordo mais inteiro:

    Penso, logo existo –
    É neste LOGO que tropeço.
    Eu penso e eu sou; haveria mais verdade em:
    Sinto, logo sou – ou mesmo: Creio, logo sou – pois isso equivale dizer:
    Penso que sou.
    Creio que sou.
    Sinto que sou.
    Ora, desta três proposições, a última apresenta-se a mim como a mais verdadeira, a única verdadeira; porque, enfim, penso que sou, talvez não implique que eu seja. Nem tampouco: creio que sou. Há tanta ousadia em passar de uma a outra quanto em fazer do “creio que Deus é” uma prova da existência de Deus. Ao passo que: “Sinto que sou…” – Aqui ou parte e juiz. Como me enganaria aqui?…
    … Penso: logo sou.
    E igualmente: sofro, respiro, sinto: logo sou. Pois se não se pode pensar em ser, pode-se ser sem pensar
    .”

    Vera Lúcia: Acredito que não pensar, por absoluta ignorância, é quase não viver. Mas não pensar para alcançar o sentir profundo, é viver mais além. Talvez só divagações, mas continuo buscando.

    Sérgio: Aproveito a deixa do trocadilho de Mário da Silva Brito para deixar mais um: divagar nos leva ao longe

  5. Manoel de Andrade

    Cleto, você me fez lembrar com saudades de Khishnamurti, este iluminado cujas idéias também povoaram minha juventude. Coincidentemente “Quando o Pensamento Cessa” foi o último livro que li deste grande pensador.
    Li, nos “Frutos da Terra” a reflexão que citei de Andre Gide.Um dos mais belos livros que já lí, também na minha juventude, tanto quando “O Homem Mediocre” de José Ingenieros.

  6. Enoque Rafeal

    Se,

    “Penso, logo existo” — O pensamento justificando a existência;

    e “Sinto, logo sou” — O sentimento justificando a essência, o ser;

    Em meu discurso filosófico defendo que:

    “Ajo, logo estou” — A ação determinando a existência do ser no tempo e no espaço.

    É a ação que determina quem sou naquele momento que decido agir, por mais que eu sinta e pense diferente. Posso pensar em ir para São Paulo, ou sentir vontede de ir a São Paulo, mas permanecer no Rio de Janeiro. Seja por ação ou inação, sempre terei agido…

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