De Hermann Hesse aos poetas

Andy Warhol - Hermann Hesse - serigrafia a partir de uma foto de Martin Hesse - Museu Leopold – Viena - 60cm x 80cm

Andy Warhol - Hermann Hesse - serigrafia a partir de uma foto de Martin Hesse - Museu Leopold – Viena - 60cm x 80cm

Na poesia, como na prosa, Hermann Hesse,suíço (1877-1962) de língua alemã (Prêmio Nobel em 1946), mostrou-se permanentemente
preocupado com a busca de um sentido para a vida, levando-o essa busca a preferir a solidão, longe das aglomerações urbanas que lhe eram penosas de suportar. Poesia e prosa parecem ter andado sempre de mãos dadas, em toda a existência de Hermann Hesse – que se dizia, ele mesmo, um poeta das nuvens, sem raízes e sem pátria-lar: a ausência da pátria-lar (Heimat) é uma constante na obra desse autocondenado ao degredo perpétuo no mundo dos homens.

Parece tê-lo marcado muito uma viagem à Índia, em 1913, e a mística do Oriente aparece ou transparece em várias das suas páginas em verso e
prosa. Em 1918, Hermann Hesse publicou um ensaio, Uber Gedichte,
dando a entender que não existem poesias boas ou más, porém autênticas
ou falsas (um juízo intempestivamente romântico). Seu primeiro volume de poesias foi publicado, por sua conta, em 1899, com o título de Romantische
Lieder
(Canções românticas) e influências de Novalis, Heine e Eichendorf.

Em 1902 saiu do prelo o seu segundo livro de versos, intitulado simplesmente Gedichte (Poesias), já comparando as mutações da natureza com as do ser humano. Seu terceiro livro de poesias, Interwegs (A caminho), circulou em 1911.

Em 1913 publicou um volume de poemas de sua viagem pela India, Aus Indien. Já com menos rigores formais, com menos apego ao metro e à rima, sai em 1915, em verso e prosa, Musik der Einsamen (Música do solitário).

Em 1920, Hermann Hesse, que dois anos antes começara a pintar aquarelas, como um derivativo talvez, ilustra cada um dos dez poemas do seu novo livro Gedichte des Malers (Poemas do pintor), grande sucesso de venda: daí por diante, não faltaram admiradores que lhe encomendassem poemas manuscritos e ilustrados, naturalmente muito bem remunerados. Em 1942 publica-se em Zurique um volume com Die Gedichte (Os poemas) de Hermann Hesse, com mais de seiscentos títulos, incluindo reflexos da guerra e da esperança de paz: o pacifismo de Hesse reponta em várias páginas da presente antologia*. Em 1963, no ano seguinte ao da morte do poeta, a Editora lnsel publica um volume póstumo com Die spaten Gedichte (Os derradeiros poemas) de Hermann Hesse, dos quais o último realmente escrito, com data de 8 de agosto de 1962, véspera do passamento do poeta, foi Knarren eines geknickten Astes, incluído no presente volume* sob o título Ranger de galho rachado.

Geir Campos

Geir Campos

Na tradução de textos versificados de um idioma conciso e preciso, como o alemão, para um idioma neolatino qualquer, uma das licenças permitidas
sine qua non ao tradutor, para um trabalho justalinear, há de ser a de alongar, em alguns casos, as medidas dos versos, para não lhes aumentar o número, de modo a caberem nas linhas traduzidas as denotações e conotações das linhas originais. Também precisou ser contornado o problema da rima, presente na maioria dos poemas de Hermann Hesse: a rima, “ce bijou d’un sou, qui sonne creux et faux sous la lime“, como diria Verlaine, outro grande rimador, e que deveria ser, como queria Du Bellay, “reçue, non appeIée“.

Toda vez que a rima teria de ser “convocada”, tivemos o cuidado de abrir mão dela, aproveitando apenas as que em boa hora se faziam dadivosas, como sói acontecer em pleno jogo de palavra-puxa-palavra ou idéia-puxa-idéia. (*Geir Campos, excerto de Da Poesia e da Tradução, introdução ao livro Andares – Antologia Poética, de Hermann Hesse, Editora Nova Fronteira, 1976)

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O Poeta e seu tempo

Herman Hesse

Pablo Picasso - O Poeta - 1911 - óleo sobre tela - 131,2 x 89,5 cm - Museu Peggy Guggenheim, Veneza, Itália

Pablo Picasso - O Poeta - 1911 - óleo sobre tela - 131,2 x 89,5 cm - Museu Peggy Guggenheim, Veneza, Itália

Fiel a imagens eternas, firme na contemplação,
tu estás pronto para o ato e para o sacrifício;
falta-te ainda, no entanto, um tempo desassombrado
de ofício e púlpito, confiança e autoridade.

Há de bastar-te, num posto perdido,
ante o deboche do mundo, compenetrado da fama que tens,
renunciando ao brilho e aos prazeres do mundo,
guardar aqueles tesouros que não azinhavram nunca.

Não te faz mal a zombaria das feiras,
enquanto ouves a voz sagrada, ao menos:
se ela entre incertezas cala, te sentes um renegado
do próprio coração – feito um bobo na terra.

Pois é melhor, por uma realização futura,
servir sofrendo, ser sacrificado,
do que ter grandeza e reino pela traição
ao sentido do teu sofrer – tua missão.

Do livro Andares – Antologia Poética, tradução de Geir Campos

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