Até mais, Walmor

Conheci Walmor Marcelino, que nos deixou na manhã de hoje, há mais de trinta, quarenta anos. Quando ele era um entusiasta teatrólogo, em uma época que Curitiba ainda era conhecida como uma espécie de Cemitério das Artes. Também conheci o jornalista ativo e ativista, o escritor e poeta, o utopista, sempre a defender, com veemência e extrema coerência, os seus pontos de vista. Podíamos até discordar dele, mas o respeitávamos inteiramente por sua honestidade intelectual.

Quando, há poucos anos, retornei a Curitiba, Walmor foi uma das primeiras pessoas que encontrei, em um domingo pela manhã, quando fazíamos compras no Mercado Municipal. Um papo descontraído e rápido — Onde você andava?E você, o que está fazendo? — mas era mais uma amizade recuperada, apesar dos anos de separação.

Mais recentemente, estivemos juntos em um encontro de poetas no Bar Stuart, junto com Manoel de Andrade, J.B. Vidal, Marilda Confortin, Vinicius Alves e o artista plástico Attila Wensersky. Em meio aos ruídos de palavras e música, ainda tivemos um momento de conversa paralela e trocamos informações para atualizar nossas vidas. Ele, então, me deu um CD com o texto do primeiro caderno de sua novela Ulciscor (“Não chega a ser ensaio, porque lhe falta o convencimento das origens: definir objeto, clareza expositiva, argumentação dialógica, pertencimento científico, ainda que insinue referências e pretenda indicar fatos. Não chega a ser ‘ficção’, porque a sua escritura, conquanto sobreleve pessoas e momentos, é de verificação basilar e a exponência narrativa não se dispõe inteiramente ao ficcional. Não é obra de história, porque os fatos organizados estão dispostos muitas vezes em algaravia e carentes de informações, com cortes e flashbacks ao sabor de um cruzeiro de memória e sentido. E como poderia este excerto de biografia analítica ainda assim despertar atenção e interesse dos leitores – amigos, confrades e consócios na reconstrução ideológico-política da realidade – constrangidas na ação e mais estendidos na comunicação de cada um, eu me socorro deste artifício, ademais me apresentando humilde conviva nesta sociedade do espetáculo”.

A última reunião com Walmor – Da esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Fonto de J.B. Vidal.

A última reunião com WalmorDa esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Foto de J.B. Vidal.

Walmor pretendia iniciar um diálogo com seus leitores/amigos sobre seu texto e, ao mesmo tempo, associar-se a eles na futura publicação da novela. Não sei a quantas andava seu projeto, até o momento em que nos deixa. Daquele texto retiro a epígrafe, uma frase de Seth Báratro: “Não tenho todo o tempo do mundo, mas quanto é esse tempo?”. Hoje Walmor Marcelino conseguiu medir, como todos nós faremos um dia, a dimensão do tempo que nos é dado para viver.

Faço a homenagem do Banco da Poesia com um texto de um amigo comum, Aramis Milarch (que deve estar na comissão de recepção a Walmor, lá do outro lado), publicado no dia 1º de maio de 1986. E, abaixo, um poema de sua lavra, que consta no texto de Ulciscor. C. de A.

Quem diria, Walmor Marcelino, um romântico?

walmor marcelinoJornalista dos mais atuantes na imprensa paranaense há 30 anos, merecedor da admiração e respeito pela coerência e honestidade de seus pontos de vista, de seu comportamento como homem e profissional, Walmor nunca foi de fazer concessões. Em 1964, poucas semanas após o golpe militar de 1º de abril, publicava um corajoso livro de poesias, cujo título já traduzia o nojo que sentia pela ditadura que começava no Brasil: Tempo de Fezes e Traições. Quase que simultaneamente, em outro livro crítico sobre o golpe dos militares (Sete de Amor e Violência), incluía um texto amargo, cruel e profundamente político sobre aqueles dias cinzentos.

Intelectual do maior gabarito, apaixonado pelo teatro e literatura, primeiro encenador a dar uma montagem realmente dialética e política a textos de Camus (Os Justos) e Jean Paul-Sartre (A Prostituta Respeitosa) nos palcos do Guaíra, ao mesmo tempo que se integrava ao então nascente Centro Popular de Cultura, defendendo uma política cultural destinada a levar a arte as camadas mais pobres, Walmor nunca deixou de fazer sua poesia. Uma poesia honesta, verdadeira – mas sempre voltada ao lado político, a razão, a reflexão – escondendo, assim, muitas vezes, o seu lado lírico, amoroso, suave –que também raros viram atrás de sua fisionomia séria, hostil aos chatos e inoportunos –inimigo claro dos coniventes com o poder.

Hoje, sem arredar um pé de suas convicções, mas por certo com a sabedoria que o virar da casa dos cinqüenta traz, nas 28 páginas de seu mais recente livro (Confabulário, Dom Quixote, Edição do Autor), deparamos, já na primeira página, com um Walmor otimista – a partir do próprio título do poema – Esperança .

xxxxEu não sei por que não somos
xxxxdesbravantes, caminheiros.
xxxxPassageiros da utopia
xxxxmãos dadas, companheiros

Em cada novo poema de Walmor Marcelino, há um encontro com uma sensibilidade extrema, que, anos atrás, não seria comum em ler em sua obra. Como neste Um Verso:

xxxxO verso ai
xxxxEu e tu, ai
xxxxNos cruzamos
xxxxBailando ao vento
xxxxO verso escreve
xxxxnão fala, ai
xxxxque nos amamos
xxxxUm verso vive só
xxxxo que pensamos
xxxxO verso vem depois
xxxxque nós vivemos

Walmor nunca buscou aplausos ou elogios em sua obra extremamente pessoal. Nunca se filiou a escolas ou gerações. Faz e trabalha a poesia como trabalha e age em sua vida: uma coerência extremamente pessoal. Possivelmente, não quer interpretações críticas a este seu Confabulário (aliás, nem há críticos em Curitiba para tanto). O que importa é que, a sua maneira, ele dá um recado de força, vigor e integridade poética – numa realização plena, trabalhando com as palavras como o melhor entalhador o faz com a madeira. Aramis Milarch

Walmor, segundo Marcelino

Político insciente, poeta menor, teatrólogo sem nomeada, promotor sem significância expressiva e “maestro” convicto de comunicações sociais e debates políticos, ainda que em difusos opúsculos, cadernos e livros de edição própria. Itinerário jornalístico: Diário da Manhã (SC), Correio do Povo (RS), Diário do Paraná (PR), Última Hora (PR), Tribuna da Luta Operária (BR). Presença em livros e peçasPoesia Quixote (Porto Alegre); no Paraná, Os Fuzis de 1894, Os Idos e os Ódios de Março (teatros); Fráguas, Mágoas e Maçanilhas (Travessa dos Editores), Toda a Poesia, Próximas Palvras (poesias); A Guerra Camponesa do Contestado, Contribuição ao Estudo da AP no Paraná (esboços críticos); etc.

Nós acrescentamos: extrema humildade, valor de um homem bom e grande.

Memorial

xxxxxxxxWalmor Marcelino

Memorial

Assim um estilete no ouvido
furando o pensamento
e seu fio de memória exposto
ao tempo. Fosse dor atravessada,
nunca no curso interrompida
e consecutiva; roída morte
movendo-se em corpo,
entropia perdida no espaço.
Perfurante itinerário
até a luz nascente das coisas
com a escuridão
de seus propósitos.

3 Respostas para “Até mais, Walmor

  1. Infelizmente,eu que pertenço a um país tão distante do vosso, não tive oportunidade, neste nosso curto deambular pela terra, de conhecer o vosso amigo Walmor. Foi pena, porque tenho a certeza de que teria ficado mais rica. Mas mesmo sem o ter conhecido aqui, penso, tal como vocês, meus amigos ,deverão pensar, que esta interrogação que passo a fazer, deverá ser feita por todos nós:”…Onde?
    …Quando?…Até sempre, Walmor.”
    Um abraço a todos. Estou convosco.
    Vera Lucia

  2. Manoel de Andrade

    Obrigado, Vera Lúcia, pelo teu aceno fraterno. É realmente essa é a pergunta que todos devemos fazer diante do fenômeno da morte física. Porisso o Walmor terá que rever, nesse Mundo Maior onde agora se encontra, o seu conceito pessoal de finitude, porque há uma dimensão da vida em que os laços do coração, sublimados pelo amor ou pela legítima ideologia, se reatam na imortalidade. “Quando?”…, isso depende das atitudes mentais de cada um, de nossas ações e omissões e portando dos nossos merecimentos, por que a morte não muda ninguém e não nos torna santos, num passe de mágica.

    Quanto aos que ficamos é triste dizer que, com as cinzas do Walmor incineraram-se também um poco dos nossos sonhos e das esperanças pelas quais lutamos no passado. Os velhos camaradas estão mudando de residência (como dizia, da morte, Vitor Hugo) e nos ficamos apenas com os rastros indeléveis dos seus gestos, a imagem da sua coerência e com a memória das bandeiras que empunhamos.

  3. MARILDA CONFORTIN

    Oi Cleto. Que bela matéria você fez sobre o Walmor. Pela importância dele em Curitiba, mereceria as primeiras páginas de todos os jornais. Mas, não fossem vocês, os amigos mais próximos, sua passagem passaria em branco como foi a da Bia de Luna. Eita cidade que não valoriza o que tem!
    A escrita e os diálogos dele eram demais pro meu caminhãozinho. Eu me limitava a lê-lo, ouví-lo e admirá-lo.
    Esse lado mais romântico, mais leve e esperançoso do Walmor eu só vi nesse último ano.

    Que seja bem recebido por lá!

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