A volta do boêmio

Capa do livro "Emílio de Menezes, o último boêmio, de Raimundo Menezes. Livraria Martins Editorta, 1956

Capa do livro "Emílio de Menezes, o último boêmio, de Raimundo Menezes. Livraria Martins Editora, 1956

Não, não se trata do melancólico samba-canção de Adelino Moreira, imortalizado por Nelson Gonçalves. Refiro-me a Emílio de Menezes, cujos versos e momentos satíricos foram postados aqui dias atrás.

Um curioso livro, publicado no Brasil em 1932, resultado de trabalhio psicográfico do médium Chico Xavier, reuniu poemas de vários autores já falecidos, sob o título de Paranaso de Além Túmulo. Entre os poetas da inusitada coletânea, aparece o nosso Emílio, que demonstra não ter perdido a graça, mesmo depois de morto. Mas, nas entrelinhas, confessa-se curado do humor sarcástico de seus tempos de boêmia terrestre, conservando, entretanto, a veia cômica que popularizou seus versos por aqui, em tempos idos.

São dois sonetos de contrição bem humorada que, verdadeiros ou não, preservam, sem dúvida alguma, o conhecido estilo do poeta paranaense.

Eu mesmo

Eu mesmo estou a ignorar se posso
chamar-me ainda o Emílio de Meneses,
procurando tomar o tempo vosso,
recitando epigramas descorteses.

Como hei de versejar? Rimas em osso
são difíceis… contudo, de outras vezes,
eu sabia rezar o Padre-Nosso
e unir meus versos como irmãos siameses.

Como hei de aparecer? O que é impossível
é ser um santarrão inconcebível,
trazendo as luzes do Evangelho às gentes…

Sou o Emílio, distante da garrafa,
mas que não se entristece e nem se abafa,
longe das anedotas indecentes.

AnjoEmilio

Aos meus amigos da Terra

Amigos, tolerai o meu assunto,
(sempre vivi do sofrimento alheio).
Relevai, que as promessas de um defunto
são coisa inda invulgar no vosso meio.

Apesar do meu cérebro bestunto,
o elo que nos unia, conservei-o,
como a quase saudade do presunto,
que nutre um corpo empanturrado e feio.

Espero-vos aqui com as minhas festas,
nas quais, porém, o vinho não explode,
nem há cheiro de carnes ou cebolas.

Evitai as comidas indigestas,
pois na hora do “salva-se quem pode”,
muita gente nem fica de ceroulas…

Eu mesmo [Emílio de Meneses] 
 
Eu mesmo estou a ignorar se posso
chamar-me ainda o Emílio de Meneses,
procurando tomar o tempo vosso,
recitando epigramas descorteses.
 
Como hei de versejar? Rimas em osso
são difíceis... contudo, de outras vezes,
eu sabia rezar o Padre-Nosso
e unir meus versos como irmãos siameses.
 
Como hei de aparecer? O que é impossível
é ser um santarrão inconcebível,
trazendo as luzes do Evangelho às gentes...
 
Sou o Emílio, distante da garrafa,
mas que não se entristece e nem se abafa,
longe das anedotas indecentes.
 
 
Aos meus amigos da Terra
 
Amigos, tolerai o meu assunto,
(sempre vivi do sofrimento alheio).
Relevai, que as promessas de um defunto
são coisa inda invulgar no vosso meio.
 
Apesar do meu cérebro bestunto,
o elo que nos unia, conservei-o,
como a quase saudade do presunto,
que nutre um corpo empanturrado e feio.
 
Espero-vos aqui com as minhas festas,
nas quais, porém, o vinho não explode,
nem há cheiro de carnes ou cebolas.
 
Evitai as comidas indigestas,
pois na hora do "salva-se quem pode",
muita gente nem fica de ceroulas...

Uma resposta para “A volta do boêmio

  1. para mim esses sonetos parecem uma tentativa bem precária de imitação do emílio de menezes. assim como os demais poemas do parnaso do além-túmulo são inferiores em qualidade e técnica, em comparação às poesias que os autores supostamente psicografados escreviam em vida..

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