Vem lá de Angola

Conheci Vera Lúcia Kalahari por meio dos amigos J.B. Vidal e Manoel de Andrade. Disseram-me que ela, além de poeta, era uma agitada jornalista que se aventurava pelas terras da África e do Oriente Médio. Entrei em contato com ela pela Internet, mas sua resposta demorou a chegar, pois durante logo tempo ela esteve em lugares longínquos, onde nem sempre a modernidade da rede eletrônica está presente.

Dias atrás, recebi rápida comunicação, com a promessa de que maiores notícias logo viriam . E chegaram, em simpática mensagem na qual ela relembra amigos comuns brasileiros e aceita colaborar com o Banco da Poesia. Para sua estréia aqui, publicamos dois poemas seus.

Vera Lúcia Kalahari ou Vera Lúcia Pimentel Teixeira Carmona, jornalista, poeta e escritora portuguesa, nasceu no Namibe, em Angola. Trabalhou nos jornais “O País”, “O Dia” e “Diário de Notícias”, e nas revistas “África Hoje”, “Família Cristã”, “Gazeta das Aldeias” e “País Agrícola”. Foi também copywriter no Departamento Comercial da Rádio Renascença (Intervoz). Após alguns anos de dedicação à poesia e à literatura juvenil “refugiou-se” na aldeia de Sortelha, do conselho de Sabugal, onde, em ambiente pleno de serenidade e misticismo se inspirou para escrever o romance A Casa do Vento que Soa que concluiu recentemente. Terminou também a série juvenil Os Primos (O Diamante Real, O Incendiário Tenebroso, O Quadro Misterioso e O Enigma da Aldeia das Broas). Quem quiser conhecer melhor seus trabalhos, acesse http://infinito-kalahari.blogspot.com/

Bem vinda seja, Vera Lúcia!

Livre

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Ser livre…
Deixar para trás os meus desejos
e todos estes loucos preconceitos
e partir,
partir e ter o ensejo
de ser aquilo que não sou
e que sempre ansiei ser.
Poder caminhar sem um destino
como errante, pobre peregrino
tendo apenas como amigas as estrelas,
contando os meus sonhos só a elas.
Misturar-me com os negros nas sanzalas
comendo sem rodeios do seu pão,
ver dançar as chamas das fogueiras
e dormir na dureza duma esteira.
Poder saber por onde vou
e marcar a cada hora o meu dia
sem sentir a cada passo o grilhão
de se seguir apenas a razão.
Poder provar de cada fruto
que encontrasse nascendo nos pomares
e poder misturar-me com os miúdos
descalços, livres, vagabundos,
que vagueiam às portas dos casais
sem vãos temores e sem barreiras.
Por este vida simples mas verdadeira,
eu daria a minha vida só de incertezas
e todos os meus sonhos de grandeza.

Ilustração de Cleto de Assis

Ilustração de Cleto de Assis

Viagem

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Criei o meu mundo irreal e distante…
É lá que vivo, calma e sozinha,
isolada de tudo, no tempo que parou,
como se andasse pelos vales silentes da lua,
nas crateras d’algum astro ignorado,
nas vertigens dum meteoro
uu vagueasse nas paisagens submersas de Ís…
Não chegam lá o ruído, o movimento
dos mares e dos ventos, das cidades e dos campos.
Tudo é silencioso, calmo e sobrenatural,
na sombra do mistério que m’envolve e qu’esconde
como numa ilha de bruma, o meu mundo à parte…
Será terra? Ou céu? Ou mar? Ou astro? Ou nebulosa?
Não sei, não vejo, não sinto
o cenário impalpável e informe que me cerca.
Vivo em mim, tudo sou eu, em mim mesma…
só as minhas mãos estendidas, a minha boca muda,
meus cabelos esparsos que m’envolvem como algas,
como nuvens, e ocultam meus seios,
frementes d’amor, palpitantes e ardentes…
a ânsia duns braços num abraço sem fim…
Meu coração pulsando junto a outro, tão confundidos
como nosso hálito, nossa epiderme, nossas almas…
Tudo sou eu, nesse mundo que criei, perdido,
rolando pelo espaço, entre poeiras de astros,
turbilhões de estrelas, ondas de azul, harmonias…
O meu mundo fulgurante e longínquo
a milênios de luz da terra desprezível,
de onde sairei de mim, sozinha e forte
e pararei a vida, num instante imortal.

2 Respostas para “Vem lá de Angola

  1. Manoel de Andrade

    Vera Lúcia,
    este recanto terá ainda mais encanto com o teu canto
    traga-nos os líricos rastros das tuas aventuras
    tua liberdade errante e peregrina
    teus mistérios e a amizade das estrelas
    queremos e amamos este teu rosto sereno e solidário
    por sabermos que nele tuas mãos seguram tambem a face da esperança.
    Traga-nos esse teu mundo irreal
    tua ilha de silêncio e o mistério que te esconde
    para que possamos te abraçar nessa magia
    e aguardar teus versos, sempre e cada dia,
    já que estás tão longe
    e só podemos te abraçar na poesia.

  2. maria josé praça

    Vera Lúcia,
    Ando por aqui neste acordar do dia em que me sinto ao longe…
    Tentei “buscar-me” sem amarras e li-te…
    GOSTO!!!
    Beijinhos d’eu.

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