Poemas encadeados

Manoel de Andrade costuma dizer que não existem coincidências. Tudo estaria mais ou menos encadeado e grande parte dos eventos deste mundo estão programados em outra parte, aguardando apenas que possamos confirmá-los ou modifícar o fado, segundo nosso livre arbítrio. Mas há coincidências significativas, como a que ocorreu hoje.

Ao fazer um comentário sobre o poema Espera-me, de Konstantin Simonov (ver abaixo),  Deborah O’Lins de Barros lembrou que ele combinaria com Unchained Melody (Melodia desencadeada ou desacorrentada) , música de Alex North e letra de Hy Zaret, cantada por Elvis Presley.

E onde está a coincidência? Diz sua biografia: “Em 16 de Agosto de 1977, Elvis chega a Graceland (a casa onde vivia) alguns minutos após a zero hora. No portão há vários fãs, um deles é Robert Call, que tira uma foto de Elvis. A última foto de Elvis em vida. Às 15:30 deste mesmo dia Elvis é declarado morto vitíma de um ataque cardíaco. A necrópsia revelou a ingestão de oito ou mais drogas (entre outras, morfina, valium e valmid), responsáveis por sua morte“.

Mas onde está a coincidência? Primeiro na letra, que se assemelha ao tema de Simonov: um homem apaixonado que se vê distante da amada e lamenta essa distância. Vejam a letra, no inglês original, encadeada à tradução em português.

Elvis

xxxxxxUnchained Melody

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered for your touch,
xxxxEu tenho ansiado por seu toque,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto,
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxxEu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

xxxxxxxLonely rivers flow to the sea, to the sea,
xxxxRios solitários seguem para o mar, para o mar,
xxxxxxxTo the open arms of the sea.
xxxxPara os braços abertos do mar.
xxxxxxxLonely rivers sigh,
xxxxRios solitários suspiram,
xxxxxxxWait for me, wait for me,
xxxxEspere por mim, espere por mim,
xxxxxxxI’ll be coming home, wait for me.
xxxxEstarei chegando em casa, espere por mim.

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered, hungered for your love,
xxxxEu tenho ansiado, ansiado por seu amor,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by, so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto.
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxx
Eu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

Notaram a coincidência do espere por mim, por mim grifada? Segundo, porque foi uma das últimas músicas cantadas por Elvis Presley, em show realizado no dia 21 de junho de 1977. O que quer dizer que, no próximo domingo (21/06/2009), a última apresentação daquele concerto, com Unchained Melody – a mesma lembrada por Deborah – estará completando 22 anos.

Mas, ao contrário do que se divulga na Internet, aquele show não foi o último de Elvis. A última vez que ele pisou em um palco foi em Indianápolis,  no dia 26 de Junho de 1977, no Market Square Garden. Portanto, niver na próxima sexta-feira.

De qualquer maneira, junho é a grande coincidência. Não sei se Deborah lembrou a data (ele devia ser muito pequena, na ocasião), mas não deixa de ser significativa a lembrança da música tão próximo a esses aniversários. Abaixo, o vídeo daquela belíssima composição, que pode, de fato, como sugere Deborah, servir de fundo para Espera-me. A seguir, My Way, outra bela canção cantada por Elvis, também considerada a última apresentação do já mítico cantor. A maneira como Elvis encerra essa apresentação e se despede do público dá a impressão de que se trata, realmente, de uma last song. Vejam que ele repete o gesto de dar o seu cachecol branco para alguém do público. Parecia ser parte do roteiro, pois, na segunda música, um auxiliar de palco põe o cachecol no pescoço de Elvis, quando ele termina de cantar e se prepara para sair.

Convocamos os Sherloques da rede para irem atrás de mais informações.

Mas, como diz a televisão, vale a pena ver de novo, pois são duas belas e poéticas canções. Ah, é bom lembar que Unchained Melody foi composta por Alex North para um filme um tanto obscuro feito 1955 chamado também Unchained. E, em 1990, ressurgiu como tema de Ghost (Do Outro Lado da Vida), dirigido por Jerry Zucker e estrelado por Patrick Swayze, Demi Moore e Whoopi Goldberg.

3 Respostas para “Poemas encadeados

  1. Olá!!!

    meu Deus! 🙂 coincidência foi eu ter lembrado da canção do Elvis… 🙂 sei muito pouco sobre o cantor. nasci em 83… Elvis, Lennon e até John Bonham, do Led Zeppelin já tinham morrido. claro, eu conhecia o Rei, mas já tava enjoada de “Blue suede shoes”. faz um mês eu ganhei um disco duplo, bela coletânea do cantor e me apaixonei pelo Elvis Presley, mas o Elvis que cantava “Sweet Caroline” e “Bridge Over Trouble Water”. a última música do disco é justamente “Unchained Melody”, que só então percebi ser a música do filme “Ghost”… e como aquela voz maravilhosa me fez prestar atenção na letra, a grande coincidência foi eu ter associado um cantor pop norte-ameriano a um poeta russo. isso é que é acaso! com direito até a literatura comparada… hehehe 🙂

    abraços!!
    ótima semana!!!
    Deborah

  2. Deborah:

    Desculpe-me a indelicadeza involuntária. No texto sobre o Elvis, escrevi que, em 1977, você deveria ser muito pequena. Mas você ainda nem sequer nascera!

  3. que indelicadeza que nada… a idade tá é na cabeça! 🙂 eu morro de inveja da sua geração. as pessoas estranhas da minha geração são Emo… os loucos da sua foram os beatniks… ligue o rádio hoje e ouça funk e pagode. se desse para sintonizar o rádio nos anos 60, ouviríamos Beatles, Nara Leão, Maysa… sou eu quem pede desculpas!! nasci em 83, mas essa geração não é a minha!!! 🙂
    abração

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