Raul Pough, novo correntista

raulpough2Segundo texto enviado pelo próprio, “Raul Pough é um poeta paranaense, de umbigo pontagrossense e alma gaudéria. Apaixonado pela literatura minimalista, sua praia são os poetrix, os haicais, os tercetos, os dísticos, os epigramas e as combinações de tudo isso. Poemínimo, textículo, poema-minuto, poema-miojo, não importa o nome que se dê a estes escritos onde o autor usa e abusa dos vícios e figuras de linguagem, especialmente da ironia, das metáforas, dos trocadilhos, beirando – quase via de regra – a marginalidade. Seus textos são breves, precisos e certeiros – a marca da concisão. Como diria Cláudio Feldman, para ler na escada rolante. Raul Pough já tem um livro lançado (2008), o Síndrome de Hipotenusa – Poemínimos e também publica seus textos na Internet e antologias. É superfã de Paulo Leminski“.

Bem vindo seja, Raul, ao Banco da Poesia. E continue enviando seus depósitos. Hoje publicamos o primeiro, que conheci n último sábado (15/maio), na reunião do Bar do Mato. Marilda Confortin viu nele um inventário. Eu imaginei um testamento. Mas, no final, você explica o destino de tantas memórias recolhidas no cenário vital, ofertando-as a um destino esperançoso. Eis aí seu Dote.

Dote

Dote
minhas fotos de criança, uns trocados na poupança
meus planos, meus cinquenta anos, meus enganos
livros importantes, cd’s interessantes, sonhos distantes

meus trancos e barrancos, quatrocentos e poucos francos
uma caneca amarela, três alfinetes de lapela
meus poemas, meus dilemas, aquela pesquisa de cinemas

uma fé qualquer, uma medalhinha du sacre couer
a aposentadoria precoce, umas pastilhas pra tosse
um velho videocassete, uns arquivos em disquete

uma garrafa de vinho branco, umas dívidas no banco
um bilhete da megasena, duas mamárias e uma safena
primeiros socorros num estojo, um pacote de miojo

minhas orações, minhas ereções, minhas opiniões
uma lupa, um lugar na minha garupa
um suvenir parisiense, uma camisa do fluminense

uma fivela de caubói, minha vocação pra super-herói
umas cicatrizes, alguns deslizes, decisões infelizes
filtro solar, um ferro-de-passar, baterias de celular

minhas fotos de paris, dois ternos risca-de-giz
defeitos reais, fantasias sexuais, alguns postais
minha coleção de calendários, meus dicionários

um computador, um ebulidor, um despertador
um pouco de incenso, outro tanto de bom senso
um aparelho de TV, um exame negativo de HIV

um certo espelho, um grampeador vermelho
meus medos, meus segredos… contados nos dedos
um modem banda-larga, duas canetas sem carga

uma cafeteira, uma lapiseira, uma cadeira
meu radinho portátil, minha esperança volátil
meus vídeos, um medo danado de aranha-marrom

umas revistas de turismo, um pouco de astigmatismo
recordações da infância, emoções em abundância
um dinheiro a receber, descobertas por fazer

uns poucos amigos, uns objetos antigos
as minhas andanças, as minhas lembranças
um bom balde-de-gelo, ainda bastante cabelo

uma gravata, marmelada em lata, software pirata
meu humor, meu sabor, meu calor, uma garrafa de licor
dois guarda-chuvas dobráveis, alguns hábitos saudáveis

meu sul, um ursinho azul, uma cisma com istambul
meu norte, meu passaporte, minha sorte
um chico bento sorridente, uma filmadora gradiente

um passado errante, uma estante, um endereço mutante
nem tudo tão bom assim, mas também nada tão ruim
meus beijos especiais, com gosto de quero mais

minhas novas idades, um montão de afinidades
meus talentos, meus momentos, meus pensamentos
aquele indiozinho, o meu cheirinho, o meu carinho

e o meu amor, enquanto eu viver…
quer ficar comigo?

Uma resposta para “Raul Pough, novo correntista

  1. Pingback: Novos poemínimos de Raul Pough « Banco da Poesia

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