Deus para crentes e descrentes

Li no blog espanhol de Francisco Cenamor, Asamblea de Palabras, um poema da mexicana Guadalupe Amor Schmidtlein, mais conhecida como Guadalupe Amor ou Pita Amor (Pita deve ser o diminutivo do diminutivo Guadalupita). Ele faleceu em 2000, no dia 9 de maio, há, portanto, nove anos. Mas sua vida literária foi prolífica, assim como sua participação social em direção à emancipação feminina, na sociedade das primeiras décadas do Séc. XX, que se escandalizava por qualquer coisa.

Pita Amor nasceu no dia 30 de maio de 1918 na Cidade do México. Poeta experta em décimas, sua obra também se caracteriza por cuidadosos textos, influenciados, sem dúvida, por Quevedo, Sóror Joana e Gôngora.

PitaAmorPita cantou Deus, a morte, a solidão, a angústia, o nada. Desde muito jovem, Pita conviveu com artistas e intelectuais do México, graças a sua irmã Carita, colaboradora de Carlos Chávez e fundadora da Galería de Arte Mexicana, que foi instalada no porão da casa de seu pai, por onde desfilaram Rivera, Orozco, Tamayo, Siqueiros, O’Gorman entre muitos outros. Desta época surge a amizade de Pita con Juan Soriano, Cordelia Urueta, Roberto Montenegro, Antonio Peláez. Para todos eles pousou, inclusive para Rivera, que a pintou desnuda, o que produziu grande escândalo na família Amor.

Bonita, apaixonada e polêmica, foi apadrinhada poéticamente por Alfonso Reyes, que sobre ela assim se referiu: “…e nada de comparações odiosas, aqui se trata de um caso mitológico”. Pita, porém, seguiu de escândalo em escândalo, se envolveu em romances com toureiros, pintores, artistas e escritores, mas igualmente foi precursora do que depois se chamaria liberação feminina. “Não sou como muitas mulheres mexicanas”, dizia Pita.

Entre as obras que publicou, se destacam os poemários: Yo soy mi casa (1946), dedicado a sua amiga Gabriela Mistral; Puerta obstinada (1947), Círculo de angustia (1948), Polvo (1949), Décimas a Dios (1953), Sirviéndole a Dios, de hoguera (1958), Todos los siglos del mundo (1959), Soy dueña del universo (1984). Dentro do gênero narrativo: Yo soy mi casa (1957) – seu primeiro texto em prosa, e Galería de títeres (1959).

Sua personalidade a levou a dizer que sua poesia somente podia ser equiparada à de Sóror Joana Inés de la Cruz e Octavio Paz. E em alguma ocasião também afirmou: “Oxalá que algum destes versos possa dar a quem o leia um reflexo modesto de sua angústia, de sua esperança”.

Assim se descreveu:

Sozinha estou e plena de inquietudes;
cada dia me interno mais adentro;
meus defeitos atraem as virtudes;
de um misterioso círculo sou o centro.
O cansaço que tenho é infinito;
toda a dor do mundo tenho provado;
um labirinto de ansiedade habito
e tenteando me revolvo no intricado.

Décimas

Dios, invención admirable,
hecha de ansiedad humana
y de esencia tan arcana,
que se vuelve impenetrable.
¿Por qué no eres tú palpable
para el soberbio que vio?
¿Por qué me dices que no
cuando te pido que vengas?
Dios mío, no te detengas,
o ¿quieres que vaya yo?

***

Yo siempre vivo pensando
cómo serás si es que existes;
de qué esencia te revistes
cuando te vas entregando.
¡Debo a ti llegar callando
para encontrarte en lo oscuro!
O ¿es el camino seguro
el de la fe luminosa?
¿Es la exaltación grandiosa,
o es el silencio maduro?

***

Te quiero hallar en las cosas;
te obligo a que exista el cielo,
intento violar el velo
en que invisible reposas.
Sí, con tu ausencia me acosas
y el no verte me subleva;
pero de pronto se eleva
algo extraño que hay en mí,
y me hace llegar a ti
una fe callada y nueva.

***

Hablo de Dios como el ciego
que hablase de los colores
e incurro en graves errores
cuando a definirlo llego.
De mi soberbia reniego,
porque tengo que aceptar
que no sabiendo mirar
es imposible entender.
¡Soy ciega y no puedo ver,
y quiero a Dios abarcar!…

***

Oculto, ausente, baldío,
hermético, inalterable,
asfixiante, invulnerable,
absorbente, extraño y frío;
así te siento, Dios mío,
cuando sola y angustiada
me consumo alucinada
por lograr mi plenitud,
rompiendo esta esclavitud
a la que estoy condenada.

Dios_Cocijo
Museu Nacional de Antropologia don Mexico
O deus zapoteca Cocijo (deus da chuva) de Monte Albán
(200-500 d.C.)

Versão em português

Deus, invenção admirável,
feita de ansiedade humana
e de essência tão arcana,
que se torna impenetrável.
Por que não és mais palpável
para o soberbo de cá?
Por que me dizes que não
quando te peço que venhas?
Deus meu, não te detenhas,
ou queres que eu me vá?

***

Eu sempre vivo pensando
como serás, se é que existes;
de que essência te revestes
quando te vais entregando.
Devo a ti chegar calando
para encontrar-te no escuro!
Ou é caminho seguro
este da fé luminosa?
É a exaltação grandiosa,
ou o silêncio maduro?

***

Quero encontrar-te nas coisas;
obrigo a que exista o céu,
procuro violar o véu
em que, invisível,  repousas.
Se em tua ausência me acossas
e o não ver-te me subleva;
Mas de repente se eleva
algo estranho que há em mim,
e a ti entrego, enfim,
uma fé calada e nova.

***

Falo de Deus como o cego
que imaginasse o oceano
e incorro em desengano
quando a defini-lo chego.
Minha soberba renego,
porque tenho que aceitar
que não sabendo olhar
é impossível entender.
Sou cega e não posso ver,
e quero a Deus abarcar!…

***

Oculto, baldio,ausente,
hermético, inalterável,
asfixiante, invulnerável,
frio, estranho e absorvente;
assim te sinto, a Deus crente,
se sozinha  e angustiada
me consumo alucinada
para alcançar tua mão,
rompendo esta escravidão
a que estou condenada.

(C. de A.)

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