Dicas de Fernando Pessoa – 01

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Fernando Pessoa é considerado um dos maiores nomes da poesia universal.    Há quem o coloque acima de Camões, dentro da língua portuguesa. Há quem ainda não o conheça e há os que nele pensam apenas como poeta. Mas FP foi um homem preocupado com seu tempo e com o tempo futuro. Ensimesmado, solitário quase, refugiado em várias personas porque não decifrava convenientemente a sua, FP leu muito, escreveu muito e sua geografia era a palavra, assim como sua pátria era a Língua Portuguesa. Pouco viajou pela terra (a grande viagem foi de Lisboa-Durban-Lisboa e nunca mais pisou em grandes navios ou comboios de longa distância). Mas poucos viajaram tanto na literatura e com tanta maestria. FP legou-nos uma arca repleta de anotações, projetos, poemas prontos e outros inconclusos, páginas de crítica literária, reflexões sobre a língua portuguesa, digressões sobre a política de sua época e sobre a realidade daqueles tempos, como o caloroso Ultimatum que dirigiu à sociedade internacional. Místico, grafou mapas zodiacais e dialogou com deuses diversos. Escreveu páginas sobre ocultismo, rosacrucianismo e teosofia, ele mesmo um alquimista da palavra. Deixou páginas sobre filosofia e estética, e traçou teorias literárias. Após sua morte, suas palavras fizeram o que ele nunca pode realizar: viajaram por todo o mundo.

Como todo banco que se preza, o Banco da Poesia buscou em Fernando Pessoa a valia de uma consultoria de alto nível, que poderá ser-nos útil para o direcionamento de nossos depósitos. Claro está que os ricos fragmentos de FP sobre arte, estética, literatura e, sobretudo, poesia que, a partir de hoje, publicaremos em nosso blog, não trazem a marca da coerência. Aliás, como ocorre também no mercado financeiro. Hoje o conselho é tal, amanhã outro diferente. Os compiladores do livro “Páginas de Estética e Crítica Literária” (de onde sairão a maior parte dos fragmentos), Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, expressaram uma advertência sobre ambiguidades de sua obra. Prado Coelho defende essa posição, até porque “os artistas tendem a explorar intencionalmente a ambiguidade, fazendo dela um ‘fim explícito da obra, uma valor a realizar de preferência a qualquer outro’”, como asseveraria, mais tarde, Umberto Eco em sua “Obra Aberta”.

Segue a primeira gota de sabedoria. Para quem não a conhece, saboreie-a. Para quem já a conhece, conselho de televisão: vale a pena ver de novo.

Literatura, Poesia e Prosa

Fernando Pessoa

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Érato, musa da poesia lírica – Painel em carvalho de Simon Vouet (França, 1590-1649)

Encontram-se nesta publicação, que é dividida em Seções ou Títulos, dois títulos ou seções que têm nome Literatura e Poesia. Parecerá a muitos absurdo que se estabeleça o que parece ser uma distinção entre um gênero e uma das suas espécies.
A poesia é, sem dúvida, e no que a boa lógica tem só de boa lógica, uma espécie do gênero literatura. Esta é a arte que se forma com palavras; aquela a espécie dela que se forma com palavras dispostas de determinada maneira. “A prosa”, dizia Coleridge, “é as palavras dispostas na melhor ordem; a poesia as melhores palavras dispostas na melhor ordem”. Assim é, ou quase assim.
A palavra é, numa só unidade, três coisas distintas – o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos. Assim a palavra “alma” contém em si como sentido direto a designação da essência mental do homem, distinta, por um lado, da inconsciência do corpo ou dos corpos, por outro da possível superconsciência de uma consciência abstrata universal. Mas à parte isso, a palavra “alma” sugere um grande número de sentidos acessórios, que variam de indivíduo para indivíduo, conforme as preocupações, a cultura e outros elementos que contribuam para a associação de ideias: para um estará inevitavelmente implícito na palavra o sentido secundário de “ânimo”, “intensidade de caráter”; para outro o sentido secundário de “espiritualidade”, “misticismo”; para um terceiro o sentido secundário de “irrealidade”, “intangibilidade”. Finalmente, a palavra “alma” tem um som, que constitui o seu ritmo e com que colabora no ritmo formado com as palavras que lhe sejam anexas, com ela formando o texto. É por isto que o mais claro dos textos começa, quando é aprofundado ou meditado por este ou aquele, a abrir-se em divergências de íntimo sentido de um para outro: é que, havendo acordo, em geral, quanto ao sentido direto ou primário da palavra, começa a o não haver quanto aos sentidos indiretos ou secundários. No ritmo de novo os indivíduos se aproximam uns dos outros, salvas diferenças de pronúncia e preferências auditivo-mentais.
Decomposta, assim, em três elementos constitutivos para fins lógicos, não os oferece a palavra distintos na realidade da sua vida; são consubstanciados, e a impressão resultante da palavra e, portanto, das palavras dispostas em discurso, provém de uma percepção sintética em que se entrevivem todos três. Isto é importante de notar, sobretudo, quanto à valia e ao alcance do ritmo, que não existe na palavra, como no som, independente e livre, mas preso aos sentidos que a palavra comporta ou sugere. A palavra “César”, em si mesma frouxa de som, tem contudo um relevo rítmico em certo modo imperial, porque imperial é a sua origem e a evocação que a memória dela nos traz. Um alinhamento de palavras sem sentido conjunto, ou de pseudopalavras inventadas com belos sons, não grada por bem que soe: não é mais que música absurda e postiça.
Lembrados sempre desta consubstanciação e interpenetração dos três elementos da palavra, podemos contudo, sem realizar abstrações, distinguir três tipos de arte literária, conforme se olhe mais ao sentido primário da palavra, aos seus sentidos secundários, ou ao ritmo – ou mais propriamente,visto ao que acaba de se ver, à projeção no ritmo da vida inteira da palavra.
A arte que vive primordialmente do sentido direto da palavra chamar-se-á propriamente prosa, sem mais nada; a que vive primordialmente dos sentidos indiretos da palavra – do que a palavra contém, não do que simplesmente diz – chamar-se-á convenientemente literatura; a que vive primordialmente da projeção de tudo isso no ritmo, com propriedade se chamará poesia.

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