Réquiem para o trema

O presente texto foi escrito no final do ano passado para ser publicado no blog Palavras, Todas Palavras. Entretanto, com o recesso sofrido pela publicação do irmão Vidal, ele permaneceu inédito até agora. Mas não perdeu atualidade, posto que as mudanças da nova ortografia da língua portuguesa ainda não estão totalmente difundidas. E muita gente ainda resiste a elas.

Cleto de Assis

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Treme, trema! É quase chegada a hora de partires.
O rei e sua corte de sábios assim ditaram
e a hora do cadafalso se aproxima.
Treme, porque os tribunais já se fecharam para ti,
não tens mais direito a apelações ou a acentuações.
Também os juízes e monarcas d’além mar
Não tiveram piedade e firmaram suas sentenças.

Se te serve de consolo, recordemos tuas culpas,
tantas vezes levantadas nas querelas contra ti,
estas mesmas em que te recusaste a aportar,
qual ungüento escorregadio.

Mas não te livraste dos qüiproquós.

Lembremos a ambigüidade dos lingüistas que
freqüentam as academias, intranqüilos,
com argüições grandiloqüentes, porém de qüércica acidez,
contra esses dois míseros pontinhos
de que és formado. Todos a gritar:
“Apropinqüemos sua morte!
Averigüemos suas culpas, pois ele não mais agüentará!
À forca com esse delinqüente!”

Mais atrapalhaste que ajudaste.
Chegaste da velha Grécia, via Gália e Lusitânia,
Para simbolizar um buraquinho na gramática.
Aliás, dois orifícios, para que ninguém te confundisse
com o indefectível ponto, de falsa modéstia postado aos
pés das frases, mas sempre a determinar seus fins.
Tu ganhaste o pináculo, acima delas e em cima de gordinhos us,
quase como bolhas de champanha a transbordar da taça.

Mas quantos vestibulandos levaste ao desespero!
Quantos parlamentares enganaste em ambíguos  discursos
plenos de obliqüidades!

Muitas vezes seqüestraste a inteligência de
Poetas, jornalistas, bacharéis e multilíngües mestres,
Que, distraídos, esqueceram de ti e preferiram
Levar-se a sonhos e incompletudes
com teus três tranqüilos irmãos penserosos…

Mais felizes, por certo, foram teus irmãos franceses,
Ainda a cavalgar, qual eqüestres sinais de la grammaire,
sobre muitas vogais e consoantes.

Mas os lusos, que te copiaram dos vizinhos gauleses,
foram os que deram a ti a primeira coroa espinhenta da ingratidão,
ao retirarem-te, há mais de cinqüenta anos,
Da palavra saüdade, na qual sentias tanta vaïdade.

Talvez uma de tuas maiores culpas é a de não seres
amigo do povo inculto, que não vê razões
para andares embarcado no lombo de desmilingüidas lingüiças
e de pingüins de geladeira.
Vieste para dividir,  meu dierético amigo,
e não para unir. E este é um tempo de solidariedade
no qual pouca serventia têm sinais que semeiam confusão,
embora, às vezes, sejas tão elucidativo.

Em ti sinto pena de nossos irmãos autóctones
Que, sem conhecer a língua dos missionários,
Já te pronunciavam em tão belas palavras naturais.
Que será feito, a partir de alguns poucos dias,
Do canto do güyarapuru, que já soa bonito só ao ser nominado?
E os birigüis e sagüis não poderão mais saltar nas árvores e fugir de Anhangüera?

Aproveite, pois, teus últimos dias do verão brasileiro
E das outras estações em que vivem os demais lusófonos,
pois teus dias estão contados.
Pelo menos os de freqüência nas gramáticas e dicionários de Português,
que serão liqüidados nas livrarias por tua culpa,
tua máxima culpa.

Breve virão novos gramáticas e novos léxicos
Para fazer o povo esquecer-te completamente
E começar a mudar algumas palavrinhas onde eras necessário.

Consola-te: nós aqui ficaremos para cuidar das vogais
que recusam a se transformar em ditongos
com a coleguinha do lado, como a u e a i da recém escrita palavra.
E, nos dias que se esvaem, pense que ainda poderás estar conosco
De vez em quando
Em estrangeiras palavras.

Aproveita bem este final de ano e tenha um bom Natal:
a partir daquele dia de graça terás apenas um qüinqüídio de vida.
Requiescat in pace.

Curitiba
27.out.08

Uma resposta para “Réquiem para o trema

  1. manoel de andrade

    Genial, Cleto, genial. Só você, com teu requinte gramatical, para transformar, poéticamente, este TREMOR em poesia.

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