Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

No início de vida do Banco da Poesia, publiquei  o poema A Arte Poética, de Paul Verlaine. Encontrei na Internet um pequeno artigo do poeta goiano Gilberto Mendonça Teles sobre o poema (ver aqui), que deu maior expressão à publicação, no contexto da obra do poeta francês. Como não havia pedido previamente autorização de Gilberto Teles para publicar seu texto, enviei um e-mail para ele, após descobrir seu endereço em um dos tantos sites que reverenciam seu trabalho. Dei notícia da criação do blog, da publicação de seu texto e pedi autorização para publicar outros trabalhos seus.

Mensagem encaminhada que mereceu resposta poucas horas mais tarde: “Meu caro Cleto de Assis, espero que seu Banco de Poesia não entre em falência. Gostei do site. Você tem toda autorização para divulgar qualquer texto. Mande o seu endereço postal para eu lhe enviar a Hora aberta, edição de meus poemas reunidos. Abraço do Gilberto Mendonça Teles“.

Pouco tempo depois me vi, extasiado, diante do volume de Hora Aberta, que encaderna mais de mil páginas, editado pela Vozes, com os poemas reunidos de Gilberto Mendonça Teles e muita informação sobre sua vida e obra. O livro nos conta, por exemplo, que o poeta tem 20 livros de poesia publicados; cinco antologias com seus poemas (três das quais publicadas no Uruguai, Portugal e Espanha); 14 ensaios; 16 obras em colaboração; mais de uma centena de apresentações de livros; também centenas de entrevistas; mais de 400 conferências no Brasil e no exterior. Sobre ele se escreveram 24 obras e centenas de estudos sobre seus livros, inclusive dissertações de mestrado e teses de doutorado. Sua fortuna crítica incluí riqiuíssimos depoimentos de literatos e intelectuais consagrados. Por exemplo, Tristão de Athaide (nome literário de Alceu Amoroso Lima), diz de G. M. T.:

“… anos atrás consegui a proeza inédita de receber, simultaneamente, dois primeiros
prêmios de posesia e de crítica, no concurso anual da ABL, no vem dessa Geração de 45, lançada em nossa história literária pela dupla incomparável de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. E veio a ser, sem favor, um dos ases dessa geração pós-modernista, em sua reação antimoderna”.

Gilberto Mendoça Teles entre Carlos Drummond de Andrade e Plinio Doyle (RJ, 1971)

Mas a grande homenagem veio de Carlos Drummond de Andrade, a quem o poeta goiano dedicou vários de seus trabalhos. Foi o responsável pela edição de 1971 da Seleta em Prosa e Verso, de Drummond, para a editora José Olympio. No ano anterior, havia publicado o ensaio Drummond – a Estilística da Repetição, que também foi sua tese de doutorado, defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Por esse trabalho também recebeu, em 1971, o Prêmio Silvio Romero, da Academia Brasileira de Letras e a Medalha Carlos Drummond de Andrade, em 1997, da União Brasileira de Escritores. O poeta de Itabira já havia falecido, mas Gilberto foi seu amigo e dele recebeu dois poemas.

No primeiro, faz referência ao ensaio de Gilberto, que conhecera antes da publicação.

Repetição

Repito aqui – repetição
é meu forte ou meu fraco? – tudo
que floresce em admiração
no itabirano peito rudo
(e em grata amizade também)
ao professor, melhor, ao poeta
que de Goiás ao Rio vem,
palmilhando rota indireta,
mostrar – com um ou com dois eles
no nome – que ciência e poesia
em Gilberto Mendonça Teles
são acordes de uma harmonia.

Apelo

Ouvi da Guanabara às margens plá-
cidas o de Gilberto comoven-
te apelo e, dando o plá, aqui lhe tra-
go esta palavra bem sincera e quen-
te, pois para ele, mens praeclara, é certo,
minha estima há de sempre transar rima,
porém quanto eu lhe devo em cortesia
na prosa já não cabe, ou na poesia.

Aliás, Drummond sempre esteve no caminho de GMT, como uma boa pedra. Além de organizar para a José Olympio, em 1971, a Seleta em Prosa e Verso, do poeta mineiro, em 1994 preparou, para a Nova Aguilar, as Obras Completas de Carlos Drummond de Andrade, publicadas em 2002, com fixação de textos, fortuna crítica  e bibliografia organizada por GMT.

E quem é este poeta, homenageado por Drummond, já famoso há tanto tempo por sua profícua obra, que concede parar seu comboio poético, simpaticamente, no Banco da Poesia e se torna nosso correntista? Ele mesmo se define:

Geração

Sou um poeta só, sem geração,
que chegou tarde à gare modernista
e entrou num trem qualquer na contramão,
e vai seguindo sem sair da pista.

A de quarenta e cinco me tutela,
me trata como a um filho natural.
Eu chego às vezes tímido à janela
mas vou brincar no fundo do quintal.

Na poesia concreta, a retaguarda
é que me vê brincando de arlequim.
Às vezes fujo à rima e lavo um fardo
de roupas sujas, não tão sujo assim..

A de sessenta e um foi de proveta,
foi mágica de circo para um só.
Ninguém me viu caçando borboleta
ou pescando escondido o meu lobó.

Quem fez letra, cantou e usou bodoque
que se fez marginal pela cidade,
será que fez poesia ou fez xerox
ou apenas tropicou na liberdade.

Parece que a reação de Gilberto ao apelo do recém nato blog de poesia de Curitiba é parte intrínseca de sua personalidade, onde predomina o homem simples do interior goiano, que brinca “no fundo do quintal”.

Registram seus biógrafos:

Bela Vista de Goiás

G.M. T. nasceu em 30 de junho de 1931, em Bela Vista de Goiás, GO. Reside há mais de 30 anos no Rio de Janeiro. Fez toda a sua formação acadêmica em Goiânia: o ginásio, no Ateneu Dom Bosco, dos salesianos, e no Colégio Estadual, onde cursou também o científico; o curso de Letras Neolatinas, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Goiás; e o de Direito, na Universidade Federal do mesmo estado. Em 1965, foi com bolsa de estudos para Portugal, obtendo, em Coimbra, o Curso de Especialização em Língua Portuguesa. Em 1969, doutorou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, defendendo também tese de Livre-Docência em Literatura Brasileira.

Em Goiás, foi, durante14 anos, funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e, ao mesmo tempo, professor do Colégio Estadual (Liceu), antes de iniciar sua carreira de professor-universitário. Foi professor-fundador da Universidade Católica e da Universidade Federal de Goiás, onde estruturou e dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros, fechado pelos militares em 1964. Por duas vezes presidiu a União Brasileira de Escritores, secção de Goiás, e o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Atingido pelo AI-5, quando exercia a função de professor de literatura brasileira no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, de Montevidéu, foi para o Rio de Janeiro, onde reside até hoje,  em janeiro de 1970.

Esta página é uma pequena homenagem que o Banco da Poesia faz a um grande poeta. A partir de hoje, 4 de março de 2010,vamos alimentar este espaço para divulgar a bela obra do poeta goiano e informações sobre sobre o tanto que já construiu em sua vida. Ou, como se diria em Goiás, seus cantos, contos e causos.

__________________

Hora Aberta

Este poema epigrafa a antologia Obra Aberta


À Linha da Vida

A que, visível, se interrompe
na palma da máo, decisiva:
a ultrapassagem do horizonte
pelo lado avesso da escrita.

À Linha do Universo

A que, invisível, se deleita
no olho sensual da fechadura:
a letra (aleph) e seu pentelho
no espaço-tempo que se enruga.

E, anjo ou demônio, pinta o sete
mas tão relativo e medroso
que o tom azul logo se perde
na linha de fundo do esboço.

À Linha-d’água

Visível enquanto invisível,
compõe seu ritmo avergoado:
a imagem se imprime no nível
do que está deste e do outro lado.

Por sob a carga o sonho e o medo
de haver perdido e haver ganhado:
no contrabando do segredo
o contrapeso do sagrado.

E o que ficou quase perdido
(o que me deixa envergonhado)
ainda viaja sem sentido,
meio à deriva,
xxxxxxxxxxxe bem calado.

Rio, 1986.

__________________

Outro poema autodescritivo, que mostra o gosto pelas coisas simples, em linguagem bem humorada

Locus Amoenus

Sou homem do mato e meio bugre:
falo pouco e penso enviesado,
usando sempre expressões populares.
E, por gostar de fazer arte,
ando morto de amor,
mas vivinho da sílvia.

Às vezes sou até meio exibido:
mato a cobra e mostro logo o pau,
enquanto os deuses brincam
no lugar mais ameno da floresta.

Daí talvez o meu gosto e inclinação
pelas coisas mais simples:
cheiro de flor, resina, zigue-
zague de borboleta e barulhinho
de folha seca nos trilheiros,
além do indispensável gole de cachaça
que faz muito bem depois do poema.

O que não se explica é este jeito de sombra,
este balanço do corpo nos atalhos
e este sestro de chupar a ponta da língua
e extrair a polpa de uma fruta
no meio do cerrado.

É daí que aprecio melhor
o pisco repentino de uma estrela.

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No seguinte poema, G.M.T. dá mais algumas pinceladas para revelar a alma despojada que habita seu corpo.

Locus Amoenus


Sou homem do mato e meio bugre:
falo pouco e penso enviesado,
usando sempre expressões populares.
E, por gostar de fazer arte,
ando morto de amor,
mas vivinho da sílvia.

Às vezes sou até meio exibido:
mato a cobra e mostro logo o pau,
enquanto os deuses brincam
no lugar mais ameno da floresta.

Daí talvez o meu gosto e inclinação
pelas coisas mais simples:
cheiro de flor, resina, zigue-
zague de borboleta e barulhinho
de folha seca nos trilheiros,
além do indispensável gole de cachaça
que faz muito bem depois do poema.

O que não se explica é este jeito de sombra,
este balanço do corpo nos atalhos
e este sestro de chupar a ponta da língua
e extrair a polpa de uma fruta
no meio do cerrado.

É daí que aprecio melhor
o pisco repentino de uma estrela.

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7 Respostas para “Gilberto Mendonça Teles

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  2. Pingback: Dia da Água « Banco da Poesia

  3. Ailton Bezerra de Lemos

    Um poeta puro que nos transfere tudo o que é poesia,o soltar da alma.

    Ailton Lemos

  4. adorei seus poemas tudo mais

  5. itaney campos

    Bela homenagem….Gilberto é, além de um dos mais eruditos teóricos da literatura, um poeta de mão cheia e alma em plenilúnio…há poemas seus de dimensão universal. A ABL perde em ainda nào tê-lo integrado aos seus, porque imortal ele já se tornou….Aqui, de Goiás, lançamos nossas saudações ao notável poeta e consagrado professor!..Itaney

  6. Isso é cultura! Curti os poemas!

  7. José Natal Barbosa

    Caro prof. Gilberto. há anos, fui seu aluno de português num curso especial em Goiânia, em 1965 ou1966. O tempo passou e nunca me esqueci das aulas e do poeta. Agora, escrevi um livro de contos e fiz-lhe uma dedicatória. Gostaria de enviá-lo. O Sr tem um endereço em Goiânia onde possa deixá-lo? José Natal

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