Arquivo do mês: abril 2010

Confissões de L. Rafael Nolli

O leão nosso de cada dia

L. Rafael Nolli, Araxá

Para Cássio Marcos Amaral

Hoje, sou exatamente aquilo que tenho:
centavos que não compravam felicidade alguma
uma úlcera metafísica,
que não me acompanhará ao infinito
dezenas de poemas sobre a exaltação do homem
………..e a felicidade tola dos desvairados.

Hoje, sou tudo que tenho:
um sonho de primavera
amadurecendo o coração dos brutos
um gosto de beijo nunca dado
uma iluminação repentina e irremediável,
………..que me levaria ao céu, se o quisesse.

Hoje, nada além dos meus pertences é o que sou:
uma dor de cabeça debutante
migalhas de pão presas à barba
um projeto de poesia
que me remediará de todo o mal do mundo —
depois de escrito me trairá covardemente,
por não saber nada além
………..do que suas palavras dizem.

Hoje, sou exatamente o que tenho:
………..mas é nu que espero o amanhã.

Sem perguntas. É o que pede José Dias Egipto

DesSolidão

José Dias Egipto, Portugal

Não me perguntes porque vivo.
Sirvo a Natureza no seu redemoinho.
Sou ninho de esperança nas árvores mortas.
São tortas as veredas da vida!

Não me perguntes porque escrevo poesia.
A alegria não se explica nem se descreve.
A verve surge do infinito do cosmos, subitamente.
E, humanamente, as palavras divinas diluem-se…

Não me perguntes no que, deveras, creio.
É a estrada do meio que procuro.
A luz ou o clarão por dentro do escuro.
A Natureza com o hálito de Deus bem no seu seio.

Não me faças perguntas no ar.
Não perguntes às águias se voam.
Não me façam perguntas
porque não são respostas o que desejo dar….

Homenagem a Nice Braga

Na página de Crônicas, gravei uma homenagem a Nice Braga, esposa de Ney Braga, que faleceu na última segunda-feira, 26 de abril. Uma exceção aos temas deste blog, mas necessária pela importância de uma grande dama que sempre soube, em sua sóbria elegância, ser amiga de todos. (C. de A.)

Manoel de Andrade em prece ao alvorecer

Aurora

Manoel de Andrade, Curitiba

Não direi que me encantas mais do que o silêncio
porque é assim que despertas as aves e os caminhos.
Meus olhos também nascem pelo parto da esperança
porque vivo na imortalidade renascendo em cada dia.

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida
porque tua luz é sempre uma catarse.
Teu olhar estende as linhas do horizonte
e toda a paisagem é então uma ventura
e já não és mais nada
porque desfaleces no seio da beleza.

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido
mas como é grande o que em mim te contempla.
Para renascer basta-me apenas teu momento
tua humilde majestade
tuas pétalas de fogo
e essa corola ardente
porque não peço nada mais que a tua luz
inaugurando o mundo em cada alvorecer
e que nunca me encontres cego ou vencido.

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Curitiba, abril de 2004 – Em Cantares

Inéditos de Cássio Amaral, em nova praia

Cássio Amaral deu um pulo no mapa do Brasil: mudou-se de Araxá, MG, para Barra Velha, em Santa Catarina. E seu novo endereço não poderia ser melhor para um poeta: Rua dos Crisântemos,Condomínio Lagoa Azul. bairro Quinta dos Açorianos. De lá nos manda alguns depósitos, já com sabor de sal do Atlântico catarinense. Quem quiser recordar os depósitos anteriores, ver aqui e aqui.

Elevação científica

Cássio Amaral, Barra Velha


O cúmulo na prancha
surfar Foucault
na economia de Bérgson
deixar dentro do corpo
Hendrix  sabatinar o povo
Olha, olha lá!
A onda vem dobrando
a maré num hipertexto de Rousseau
com Thomas S Kuhn:
“A Estrutura das Revoluções Científicas”
A areia tem pegadas de Newton?

Tributos

pagar as contas dia 10
na metida
do mês.

26/04/2010

Salut Navarro viaja à África

África

Salut Navarro Girbés, Valencia, Espanha

Hoy estuve en África, como tantas otras veces
Manos emprendedoras
se afanaban
en construir escuelas,
sembrar campos,
vivir miserias.

Hoy estuve en África, como en muchas ocasiones
Compartí sonrisas,
juegos,
algarabía pueril,
muñecas de trapo
y un sol que no tiene fin.

Hoy estuve en África, como infinidad de días
Corazones nobles,
vidas intensas
les aman.
Vacunas y mosquitos,
enfermedades se sacian.

Hoy estuve en África, como todas las noches
Los ojos de una niña
preguntaron
con curiosidad,
si era yo su madre,
no quiso el azar.

Hoy estuve en África
Y una mirada clara
me perseguía.
Observada por una sonrisa
que recorre el mundo.

Un profundo corazón.

Profundo como la misma África.

Hoy estuve en África, como siempre he estado.
Dormida,
entre abrazos
de niños, hombres, mujeres
de almas desnudas,
y cuerpos quemados.

Nunca he estado en África ni lo estaré jamás.
Niña mía,
dile a tu mirada
que no interrogue más.

ÁFRICA
Cuida de mí.
Lágrimas de amor
resbalan
en mi corazón infantil.

África

Hoje estive na África, como tantas outras vezes
Mãos empreendedoras
labutavam
a construir escolas,
semear os campos,
viver misérias.

Hoje estive na África, como em muitas ocasiões
Compartilhei sorrisos,
jogos,
algaravia pueril,
bonecas de pano
e um sol que não tem fim.

Hoje estive na África, como em uma infinidade de dias
Corações nobres,
vidas intensas
lhes amam.
Vacinas e mosquitos,
enfermidades se saciam.

Hoje estive na África, como todas as noites
Os olhos de uma menina
perguntaram
com curiosidade,
se era eu sua mãe,
não o quis a sorte.

Hoje estive na África
E um olhar claro
me perseguia.
Observada por um sorriso
que percorre o mundo.

Um profundo coração.

Profundo como a própria África.

Hoje estive na África, como sempre estive.
Adormecida,
entre abraços
de crianças, hommens, mulheres
de almas desnudas,
e corpos queimados.

Nunca estive na África, nem lá estarei jamais.
Minha menina,
Dize a teu olhar
que não interrogue mais.

ÁFRICA
Cuida de mim.
Lágrimas de amor
resvalam
em meu coração infantil.

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Versão: Cleto de Assis

Brasília nos conformes do candango de Roberto Klotz

Muitas homenagens literárias foram feitas a Brasília pela pasagem dos seus cinquenta anos. O  Bar do Escritor também fez sua festa e reuniu várias colaborações de poetas e escritores brasilienses. Um texto despertou-me a atenção, pois descreve muito bem o que é a cidade e a relação que mantém com seus moradores. Conversei com o autor, Roberto Klotz, um engenheiro/escritor que trocou São Paulo por Brasília. Ele autorizou a publicação no Banco da Poesia e seu texto já está lá, na página de Crônicas. É a de nº 7. Boa leitura!