Como ressurgir das cinzas, por Marilda

Fênix

Fênix
Engana-se quem pensa que não amo.
É que quando amo, não componho.
Ponho-me em estado de estupor,
como num sonho.
Sou um mata-borrão
que absorve a emoção do universo.
Nenhum verso escapa.
Inflo. Flutuo.
Vago prenha de extrato de poesia abstrata.
Mas, cuidado!
A embalagem é frágil.
Basta um só arranhão
para que eu rompa e me desmanche
em palavras duras e concretas.
Antes de cair, choro.
Vazo pelos poros.
Chovo.
Encho jarros de poemas desconexos.
Depois, espremo o coração até que rache
e da brecha, verta o veneno da raiva.
Ferida, torno-me nociva, peçonhenta.
Assumo: ninguém me aguenta.
Sumo.
Trato-me do meu jeito.
Rejeito antídotos e corpos estranhos.
Entranho-me pela fenda
e dreno meu próprio pecado.
Desbasto-me até que o cerne fique exposto.
Hiberno para que meu inferno queime o rosto.
Daí espero a primavera e renasço
inteira para um novo amor.

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Ilustração: C. de A.

2 Respostas para “Como ressurgir das cinzas, por Marilda

  1. Ah, Marilda, acredito bem que não é tão extremista assim…
    Pessoa dizia que o poeta é um fingidor. Quem faz poesia com este arrebatamento é tão sensível que nunca seria capaz de destilar tanta raiva. Acredito, isso sim, nas explosões de
    sentimentos que devem chegar ao rubro, mas não passam disso mesmo: explosões… Mas quando passam, tudo é esquecido, até mesmo os amores, os desamores, as paixões, tudo… É característica daqueles que vivem noutros espaços.
    Sim, acredito que nesses interlúdios, a inspiração se vá…É a fase do ateamento das chamas que fazem arder a Fénix até
    transformá-la em cinzas. Mas quando renasce dessas mesmas cinzas, de certeza que vem mais forte do que nunca, para nos brindar com poemas lindos como este.
    Vera Lucia

  2. Oi Vera! Obrigada pela leitura e pelo comentário. Você conhece a alma dos poetas… você é poeta…
    É claro que não é sempre assim. Mas é assim também. Eu tenho um problema: Arranjo mais tempo pra escrever e ler quando estou
    purgando alguma dor. Por isso pareço mezzo amara nos textos e as pessoas acham que sou infeliz. Não sou não. Só dedico mais tempo à poesia quando estou triste… fazer o quê? Me acostumei a ser assim. O renascimento está demorando cada vez mais… é a idade… um grande beijo pra você, moça.

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