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No dia 12 de março de 2009, inauguramos o Banco da Poesia, que pretende ser mais um ponto de apoio para essa modalidade literária nem sempre valorizada  em nossa cultura. A essência da poesia está em todas as artes, fundamentais  para a própria vida. Só quem sonha pode criar. Só quem cria faz o mundo evoluir. E quem provoca a evolução da sociedade, gera maior comunicação e reunião solidária entre as pessoas. Fernando Pessoa já vaticinava, há mais de 50 anos: O maior poeta da época moderna será o que tiver mais capacidade de sonho. Para ler mais, clique aqui.

 

“A infância deixa rastros em nossa memória, como sulcos num rosto ou num campo lavrado”.

A frase é do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850), que gerou outro belo achado: “A criança é pai do homem”, registrado por muitos como de autoria de Sigmund Freud, mas que teria apenas sido por ele citado em seus trapalhos de psicologia.

Na verdade, somos o que fomos. Nada existe em nossa vida adulta – nossos sentimentos, nosso caráter, nossas aptidões, nossos medos, nosso relacionamento social – que não tenha sido estruturado nos primeiros anos de vida. É por isso que é preciso dar importância primordial à Educação, tanto na fase familiar como no prosseguimento escolar e social.

Mas quando pensamos profundamente nas crianças que fomos, para poder entender os adultos que somos?

Fernando Pessoa pensou nisso com lamentação, em uma composição de dois sonetos e uma quadra. Vale a pena ler seus versos, em homenagem ao Dia Universal da Criança, ontem comemorado.

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

22-setembro-1933

José Dias Egipto é o pseudônimo literário de José Carlos Pacheco Palha, nascido em Braga, Portugal, em 1953, em uma família tradicional da média burguesia. Seu pai, médico polivalente durante as guerras mundiais, influenciou-o desde cedo nos valores da solidariedade e deu-lhe uma visão humanista da vida e do mundo. Formou-se em Medicina na Faculdade do Porto e especializou-se em Pediatria e Neonatologia. Passou a exercer funções no concelho de Vila Nova de Gaia, onde permanece até hoje.

Começou a escrever cedo mas só muito tarde os seus poemas foram conhecidos. O seu primeiro livro, O Silêncio das Palavras, foi editado em 1999 pela Elefante Editores de Espinho. No ano 2000 saíu o seu segundo livro, misto de diário e ensaio, sob o título, Pessoal e Transmissível, pela Plural Edições de Espinho. Um segundo livro de poesia, Soletrando o Azul, surgiu em 2002 e recebeu, nesse ano, a única Menção Honrosa do Prémio António Patrício de poesia, da S.O.P.E.A.M. Em 2008 lançou pela Calígrafo, de Braga, um livro de contos intitulado O Último Passageiro. Já recebeu outras menções honrosas em concursos de poesia em Portugal. Colabora com várias revistas culturais e participou também em várias Antologias em Portugal e no Brasil. Mantém uma crônica semanal, Farpas Lusófonas, no portal da Internet Portugal-em-Linha. É sócio, desde a fundação, da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos ( S.O.P.E.A.M.), bem como é o representante, no Porto, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores ( SOBRAMES ). Também faz parte da Associação de Escritores de Gaia.

O Azul Celestino das Pombas

O cheiro doce
da terra já lavrada
atrai os pássaros
em cada madrugada…

A terra vermelha
foi molhada.
Não há nada a perceber
depois das chuvas…

Só mais tarde
a seara
ondulará ao sol
e haverá mel nas uvas…

Agora,
é o triângulo
que une os braços
da charrua ao solo
que semeia as virtudes.
O querer, o saber e o poder
num olho garço imenso
que ilumina
os desígnios das alfaias.

No fogo já extinto
das tardes calmas,
os frutos maduros
serão por fim
oferecidos
às pombas
e desse azulecer
se fará o pão
das nossas almas!

O Azul-Egipto da Volúpia

A encruzilhada
de todos os enganos
ou de todas as graças…

O banquete maldito
da História.
O jogo de cabra-cega
entre o amor e o poder.

A dança macabra
na cabeça do santo.
O festim de granito
entre a graça e a glória.

Salomé
elevada aos cumes
no rigor do carmelo.
Teresa
abrasada na roda
dos ímpios lumes…

O justo deitado nos coxins
dos gineceus.
A vingança de Eros
que abate
a recusa do mundo.

A serpente erguida
que degola a luxúria…

O amor
que amedronta
o asceta,
a despontar
em flor
no colo da alma
de um poeta !…

O Azul Manganês da Chama


Furou-se a noite
e um poço de luz
abriu-se
no deserto
consciente.

Uma chama
ardente
ilumina agora
o pensamento
e os eleitos
ouvem rubras vozes
e azuis de medo
ganham asas.

Na terra fria
e antiga
nasceu o calor
primordial,
a aurora-boreal
do sopro
do Amor.

E o corpo quente
da sabedoria
desce
suavemente
sobre o pasmo
inato,
alojado no coração
do Homem.

Ilustrações: montagens gráficas de C. de A.

O povo é, no fundo, a origem de todas as coisas belas e nobres, inclusive da boa música! [...] Tenho uma grande fé nas crianças. Acho que delas tudo se pode esperar. Por isso é tão essencial educá-las. É preciso dar-lhes uma educação primária de senso ético, como iniciação para uma futura vida artística. [...] A minha receita é o canto orfeônico. Mas o meu
canto orfeônico deveria, na realidade, chamar-se educação social pela música. Um povo que sabe cantar está a um passo da felicidade; é preciso ensinar o mundo inteiro a cantar.

Heitor VILLA-LOBOS

Há exatos 50 anos morria, no Rio de Janeiro – cidade onde nasceu, a 5 de março de 1887 – o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos. Considerado o maior expoente da música do Modernismo no Brasil, destacou-se por ter sido o principal responsável pela descoberta de uma linguagem misical peculiarmente brasileira, compondo obras que enaltecem o espírito nacionalista, com a incorporaçao de elementos das canções folclóricas, populares e indígenas.

Biografia

Filho de Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, foi desde cedo incentivado aos estudos, pois sua mãe queria vê-lo médico. No entanto, seu pai, funcionário da Biblioteca Nacional e músico amador, deu-lhe instrução musical e adaptou uma viola para que o pequeno Heitor iniciasse seus estudos de violoncelo. Aos 12 anos, órfão de pai, Villa-Lobos passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes. Paralelamente, interessou-se pela intensa musicalidade dos “chorões”, representantes da melhor música popular do Rio de Janeiro, e, neste contexto, desenvolveu-se também no violão. De temperamento inquieto, aos 18 anos sai de casa e passa a percorrer o interior do Brasil, em suas primeiras etapas de um processo de absorção de todo o universo musical brasileiro. Em 1913, Villa-Lobos casou-se com a pianista Lucília Guimarães e fixou-se no Rio de Janeiro. Em 1915 realiza o primeiro concerto com obras de sua autoria.

Em 1922, Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. No ano seguinte embarca para Europa, regressando ao Brasil em 1930, quando realiza turnê por sessenta e seis cidades. Realiza também, nesse ano, a “Cruzada do Canto Orfeônico“, no Rio de Janeiro. Seu casamento com Lucília termina na década de 1930 . Depois de operar-se de câncerm em 1948, casa-se com Arminda Neves d’Almeida, a Mindinha, uma ex-aluna que, depois de sua morte, se encarrega da divulgação de uma obra monumental. O impacto internacional dessa obra fez-se sentir especialmente na França e EUA, como se verifica pelo editorial que o The New York Times dedicou-lhe no dia seguinte a sua morte. Villa-Lobos nunca teve filhos.

Obra

As primeiras composições de Villa-Lobos trazem a marca dos estilos europeus da virada do século XIX para o século XX, sendo influenciado principalmente por Wagner, Puccini, pelo alto romantismo francês da escola de Frank e logo depois pelos impressionistas. Teve aulas com Frederico Nascimento e Francisco Braga.

Nas Danças características africanas (1914), entretanto, começou a repudiar os moldes europeus e a descobrir uma linguagem própria, que viria a se firmar nos bailados Amazonas e Uirapuru (1917). O compositor chega à década de 1920 perfeitamente senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras como a Prole do Bebê, para piano, ou o Noneto (1923). Violentamente atacado pela crítica especializada da época, viajou para a Europa, em 1923, com o apoio do mecenas Carlos Guinle e, em Paris, tomou contato com toda a vanguarda musical da época. Depois de uma segunda permanência na capital francesa (1927-1930), voltou ao Brasil a tempo de engajar-se nas novas realidades produzidas pela Revolução de 1930.

Apoiado pelo Estado Novo, Villa-Lobos desenvolveu amplo projeto educacional, em que teve papel de destaque o canto orfeônico, e que resultou na compilação do Guia prático (temas populares harmonizados).
À audácia criativa dos anos 1920 (que produziram as Serestas, os Choros, os Estudos para violão e as Cirandas para piano) seguiu-se um período “neobarroco”, cujo carro-chefe foi a série de nove Bachianas brasileiras (1930-1945), para diversas formações instrumentais. Em sua obra prolífera, o maestro combinou indiferentemente todos os estilos e todos os gêneros, introduzindo sem hesitação materiais musicais tipicamente brasileiros em formas tomadas de empréstimo à música erudita ocidental. Procedimento que o levou a aproximar, numa mesma obra, Johann Sebastian Bach e os instrumentos mais exóticos. (Ref.: Wikipédia)

Em homenagem à nossa maior expressão musical, postamos alguns videos emprestados do Youtube. O primeiro, o Choro N° 1, composto em 1920 para violão solo, é executado pelo exímio violonista brasileiro Turibio Soares Santos (arquivo Raíssa Amaral & Sergio Napoleão).

No segundo video, Eduardo Lopes conduz a Orquestra Nacional de Lyon (França), que executa o Prelúdio da Bachiana Brasileira n° 4.

E, finalmente, o famoso Trenzinho Caipira (ou Trenzinho do Caipira), parte integrante das Bachianas Brasileiras nº 2, que se caracteriza por imitar o movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra. No video, a música é interpretada pelo conmjunto Boca Livre, em gravação de 2007. Mas a homenagem não acaba por aqui. Como estamos em um blog de poesia, transcrevemos a letra do Trenzinho Caipira, criada pelo poeta Ferreira Gullar.

Choro n°. 1, executado por Turíbio Santos


Prelúdio da Bachiana Brasileira n° 4 – Orquestra Nacional de Lyon, conduzida por Eduardo Lopes

Trenzinho Caipira – Conjunto Boca Livre

________________________

Trenzinho caipira

Letra de Ferreira Gullar

á vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra, vai pelo mar

Cantando pela serra ao luar
Correndo entre as estrelas a voar
Luar, no ar, no ar, no ar

O povo é, no fundo, a origem de todas as coisas belas e nobres, inclusive

da boa música! [...] Tenho uma grande fé nas crianças. Acho que delas

tudo se pode esperar. Por isso é tão essencial educá-las. É preciso dar-lhes

uma educação primária de senso ético, como iniciação para uma

futura vida artística. [...] A minha receita é o canto orfeônico. Mas o meu

canto orfeônico deveria, na realidade, chamar-se educação social pela

música. Um povo que sabe cantar está a um passo da felicidade; é preciso

ensinar o mundo inteiro a cantar.

HeitorVILLA-LOBOS

O Muro

Cleto de Assis

Berlim, 9 de novembro de 1989 – Aos brados de “Wie Sind ein Volk – Nós somos um só povo” – berlinenses do Leste e do Oeste derrubaram a vergonhosa barreira que, durante 28 anos, separou as famílias alemãs.

Queda do Muro

O Muro aparta e afasta
o irmão do próprio irmão.
O Muro, dura concretude,
vergonha suntuosa
da segregação.

O Muro divide cérebros
e cria fossas abismais onde vermificam as idéias unitárias,
malcheirosas, corrosivas, infectantes.
E os cérebros, necessariamente bilaterais,
dividem-se em hemisférios esquerdo e direito irreconciliáveis.

Oh, Muro sem qualquer estética,
Feito de pedras amontoadas às pressas pela ira e pelo medo,
de concreto armado pela tecnologia fratricida,
de arames coroados de espinhos lacerantes!

Oh, Muro estático, bélico, fanático,
ereto monumento da estupidez!
Oh, Muro que, uma vez construído, destróis e desconstróis…

Ah, muros nacionais do desentendimento,
muros internacionais a toda hora germinados,
Muro da Cisjordânia, Muro do México, Muro do Paralelo 38,
o projetado Muro das favelas cariocas,
filhos todos da parvoíce politicante,
não tendes direito a orações nem boas-vindas
porque, embora linhas inertes,
dividis, isolais, amedrontais e matais a vida e a liberdade.

Muro de Berlim, pai e mãe de todas as vergonhas,
ainda gerador de filhotes desavergonhados,
The Wall, Le Mur, Die Berliner Mauer,
poliglota e polinéscio, bendizemos a tua queda
e saudamos, com festas e más lembranças, a tua morte vintenária.
Pena que, uma vez no chão,
desfeito em cacos de memória,
transformado em preciosos souvenirs,
não calaste nos corações humanos
a energia do fraterno congresso.
Pena que o esforço gasto em tua construção
e na de teus bastardos filhos
não tenha sido usado para a ereção de templos do saber
e das idéias sem barreiras.
…………………………………………………………………….
Um dia, o martelo afastou-se da foice e desmantelou a rocha insensata.
Caiu o Muro. Mudou o Rumo?

__________________________________________________________

Nota histórica A queda do Muro de Berlim, como chegou à memória de nosso tempo, não foi um ato inesperado de demolição das paredes da vergonha. Já enfraquecida politicamente diante do governo soviético, à época governado pelo primeiro-ministro Mikhail Gorbachev, a República Democrática Alemã. Depois da passagem, por Berlim oriental, de Gorbachev, que deixou seu recado de abandono do protecionismo da Rússia à RDA, muitos alemães passaram a refugiar-se nas embaixadas da Alemanha ocidental em vários países do bloco soviético e a manifestar-se ostensivamente nas ruas de Berlim, exigindo livre passagem pelas rígidas barreiras construídas já havia mais de duas décadas. Mas a real queda do muro foi causada por um erro de comunicação de um membro do Politburo da RDA, Günter Schabowski, que, na tarde do dia 9 de Novembro de 1989, reuniu a imprensa para uma entrevista e anunciou a decisão do conselho de ministros de abolir de imediato as restrições de viagens ao Oeste. A entrevista, assistida pela televisão por milhares de habitantes de Berlim oriental, antes que a decisão fosse regulamentada, provocou uma corrida, naquela mesma noite, de milhares de berlinenses do Leste às fronteiras, principalmente ao posto da rua Bornholmer, a pedir a abertura dos portões onde nem as unidades militares, nem o pessoal de controle de passaportes haviam sido instruídos.

Formou-se o tumulto e muitos cidadãos rasgaram seus passaportes, em sinal de protesto. Outros pontos da fronteira também foram assediados e, diante das manifestações, os atônitos guardas tiveram que deixar passar as multidões.

Registra a história: “Os cidadãos da RDA foram recebidos com grande euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro espontaneamente serviram cerveja gratuita, houve uma grande celebração na rua Kurfürstendamm, e pessoas que nunca se tinham visto antes cumprimentavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental subiram no muro e passaram para as Portas de Brandenburgo, que até então não eram acessíveis a eles. O Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento e os deputados espontaneamente cantaram o hino nacional da Alemanha”.

O Muro havia caído. A sua demolição final, que prosseguiu, nos dias seguintes, em meio a festas de reencontro entre tantos alemães separados por força da estultícia política, foi um grande ato simbólico de um dos episódios mais marcantes do Séc. XX. Talvez o verdadeiro fim da segunda Guerra Mundial, pois a divisão de Berlim havia sido resultado da pilhagem dos vencedores do conflito mundial que, mais tarde, iriam separar-se em dois grandes blocos conflitantes e protagonistas da chamada Guerra Fria, também aniquilada com a derrubada do muro.

Momentos da História

A Queda do Muro de Berlim

Ainda não fui ver a Mostra Cinema e Direitos Humanos (ver post abaixo). Vou à noite. Mas para amanhã se anuncia uma produção premiada, que vale a pena ver. Refiro-me a Pro dia nascer feliz, de João Jardim (2006, 88 min). Transcrevo abaixo uma crítica bastante positiva, colhida no blog A Voz do Cidadão e publico o trailer do filme. Aproveitem.

pro-dia-nascer-feliz-poster01

Sinopse

As adversas situações que o adolescente brasileiro enfrenta dentro da escola.
Meninos e meninos, ricos e pobres em situações que revelam precariedade, preconceito, violência e esperança. Em três estados brasileiros, em classes sociais distintas, adolescentes falam da vida na escola, seus projetos e inquietações numa fase crucial de sua formação. Professores também expõem seu cotidiano profissional, ajudando a pintar um quadro complexo das desigualdades e da violência no país a partir da realidade escolar. Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado, 2006. No mesmo festival: Prêmios da Crítica e do Juri Popular, além do prêmio de MelhorTrilha Sonora. Melhor Documentário na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (escolhido pelo Juri Oficial e pelo Juri Popular). Melhor Fotografia de Documentário, concedido pela Associação Brasileria de Cinematografia. Prêmio Especial do Juri do 10º Cine PE, Recife.

 

Pro dia nascer feliz

Documentário de João Jardim

Um dos mais impressionantes documentários sobre a realidade nacional. No caso, um rico, vasto e sensível painel do estado da educação no Brasil através de depoimentos emocionantes de jovens do ensino médio e de professores de três diferentes regiões brasileiras. Da menina Valéria que recitava poesias no longínquo sertão nordestino, lutando contra toda sorte de adversidade social, mas com um sentido de criação que chega a nos enrubescer.

Pois o que temos de reclamar por não realizar um projeto sem condições objetivas diante de tanta escassez de tudo? É emocionante o depoimento de Valéria, que afirma que ninguém na escola acreditava que era mesmo ela quem compunha seus poemas.

No extremo oposto da esquizofrênica pirâmide social brasileira, o diretor colhe, com admirável sensibilidade, as angústias dos jovens de classe média alta dos tradicionais colégios confessionais do Rio de Janeiro e São Paulo, superexigidos por pais, professores e amigos. Um painel de recursos
tecnológico-educacionais abundantes, muita expectativa de competição e muito pouco afeto.

Mas em meio a estas extremidades, o diretor João Jardim nos surpreende com a realidade mundo-cão das escolas das favelas das periferias do Rio e São Paulo. Escolas dantescas largadas à incúria das autoridades públicas, dentro do tradicional quadro de irresponsabilidade política e de ausência de
cidadania característico de nossa cultura de impunidade e de pastiche. Professores que fingem ensinar e alunos que fingem aprender, aqueles cativos do terror de alunos delinquentes e estes do narcotráfico que coabita muro a muro com a escola e alicia os jovens para o ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação consumista da mídia.

Os depoimentos que se seguem são de cortar o coração de qualquer cidadão que tenha um filho em idade escolar. Os jovens favelados, menores de idade, afirmam com escárnio que não tem lá muito problema roubar alguém ou até mesmo matar se for para livrar a cara, pois o máximo que vão pegar é três anos na Febem. Além do que sai na televisão todo o dia, que os políticos roubam muito mais e não são presos, o que justifica  a criminalidade geral da sociedade, são justamente seus políticos.Basta ligar a televisão e está lá: o crime no Brasil compensa!

Grande e dura aula de cidadania brasileira para tomarmos ciência o quanto antes que, se a educação e as instituições jurídico-políticas estão sucateadas no Brasil, só sobra mesmo a mídia para salvar o país da barbárie. Até por que o círculo vicioso da violação legal e da violência social não interessa mais a ninguém, sobretudo aos mais abastados que falam tanto dos entraves e gargalos da economia e se omitem do dever de dar o exemplo da iniciativa e da participação política.

Trata-se, pois, de um documentário imperdível para os cidadãos verem e recomendarem!

O trailer


4ª. MostraCinema e Direitos Humanos

Hoje (3.nov.2009) tem início a 4ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. A programação vai abaixo. Para ver os filmes, é preciso chegar cedo, pois a Cinemateca de Curitiba, que sedia o evento, tem apenas 105 lugares.

O Banco da Poesia dá uma “mostrinha” da mostra, com o trailer de uma das produções brasileiras, O Signo da Cidade, filme de 2007 com direção de Carlos Alberto Ricelli e roteiro de Bruna Lombardi, exibição programada para quinta, 05/nov, às 14 horas. Drama com Bruna Lombardi, Juca de Oliveira, Eva Wilma, Denise Fraga, Graziella Moretto e Malvino Salvador.

SignoDaCidadeCartaz

O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Ricelli, com roteiro de Bruna Lombardi, promete ser um dos bons momentos da mostra de cinema e direitos humanos

Veja o trailer

 

e as entrevistas

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Cinemateca de Curitiba

(41) 3321-3252
R. Carlos Cavalcanti, 1174 – São Francisco
ENTRADA FRANCA

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Programação

03/11 – terça-feira

14h
YÃKWÁ, O BANQUETE DOS ESPÍRITOS – Virgínia Valadão (Brasil, 54 min, 1995, doc)
A ARCA DOS ZO’É – Dominique Tilkin Gallois, Vincent Carelli (Brasil, 22 min, 1993, doc)
O ESPÍRITO DA TV – Vincent Carelli (Brasil, 18 min, 1990, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
CRUELDADE MORTAL – Luiz Paulino dos Santos (Brasil, 92 min, 1976, fic)
ESTRELA DE OITO PONTAS – Fernando Diniz e Marcos Magalhães (Brasil, 12 min, 1996, fic/ani)
Classificação indicativa: 16 anos

18h
ESSE HOMEM VAI MORRERUM FAROESTE CABOCLO – Emilio Gallo (Brasil, 75 min, 2008, doc)
CONTRA-CORRENTE – Agostina Guala (Argentina, 9 min, 2008, fic)
PARTIDA – Marcelo Martinessi (Paraguai, 14 min, 2008, fic)
Classificação indicativa: 16 anos

20h– Sessão de Abertura
HISTÓRIAS DE DIREITOS HUMANOS – vários diretores (diversos países, 84 min, 2008, doc/fic)
Classificação indicativa: 16 anos

04/11 – quarta-feira

14h
PRO DIA NASCER FELIZ – João Jardim (Brasil, 88 min, 2006, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
NUNCA MAIS!!! COCHABAMBA, 11 DE JANEIRO DE 2007 – Roberto Alem (Bolívia, 52 min, 2007, doc)
DAYUMA NUNCA MAIS – Roberto Aguirre Andrade (Equador, 30 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

18h
TAMBÉM SOMOS IRMÃOS – José Carlos Burle (Brasil, 85 min, 1949, fic)
Classificação indicativa: livre

20h
GARAPA – José Padilha (Brasil, 110 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

05/11 – quinta-feira

14h – Audiodescrição
O SIGNO DA CIDADE – Carlos Alberto Riccelli (Brasil, 96 min, 2007, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual
Classificação indicativa: 16 anos

16h
DEVOÇÃO – Sergio Sanz (Brasil, 85 min, 2008, doc)
PHEDRA – Claudia Priscilla (Brasil, 13 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

18h
SENTIDOS À FLOR DA PELE – Evaldo Mocarzel (Brasil, 80 min, 2008, doc)
PUGILE – Danilo Solferini (Brasil, 21 min, 2007, fic)
Classificação indicativa: livre

20h – Audiodescrição
NÃO CONTE A NINGUÉM – Francisco J. Lombardi (Peru / Espanha, 120 min, 1998, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual
Classificação indicativa: 18 anos

06/11 – sexta-feira

14h
MOKOI TEKOÁ PETEI JEGUATÁ – DUAS ALDEIAS, UMA CAMINHADA – Arial Duarte Ortega, Germano Beñites, Jorge Morinico (Brasil, 63 min, 2008, doc)
DE VOLTA À TERRA BOA – Mari Corrêa, Vincent Carelli (Brasil, 21 min, 2008, doc)
PRÎARA JÕ, DEPOIS DO OVO, A GUERRA – Komoi Paraná (Brasil, 15 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
À MARGEM DO LIXO – Evaldo Mocarzel (Brasil, 84 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

18h
O SIGNO DA CIDADE - Carlos Alberto Riccelli (Brasil, 96 min, 2007, fic)
OS SAPATOS DE ARISTEU – René Guerra (Brasil, 17 min, 2008, fic)
Classificação indicativa: 16 anos

20h
CORUMBIARA – Vincent Carelli (Brasil, 117 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: livre

07/11 – sábado

13h30
O CAVALEIRO NEGRO – Ulf Hultberg, Åsa Faringer (Suécia / México / Dinamarca, 95min, 2007, fic)
Classificação indicativa: 14 anos
15h30
BAGATELA – A NECESSIDADE TEM CARA DE CACHORRO – Jorge Caballero (Colômbia / Espanha, 74 min, 2008, doc)
MENINO ARANHA – Mariana Lacerda (Brasil, 13 min, 2008, doc)
MENINOS – Gonzalo Rodríguez Fábregas (Uruguai, 14 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

Descartianas descartáveis

Cleto de Assis

Não há nada que dominemos inteiramente a não ser os nossos pensamentos. René Descartes
Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias. Fernando Pessoa

 

Descartianas

René Descartes - montagem de C. de A.

 

 

I

Penso logo. Existo?
Sentimos, logo existimos.

A sensação é caos,
O pensamento é ordem.

A sensação liberta,
O pensamento oprime.

O pensamento é linear.
A sensação é multidimensional.

A sensação é agora.
O pensamento é ontem e amanhã.

A sensação é nós.
O pensamento é eu.

A sensação expande.
O pensamento esconde.

O pensamento é inação.
A sensação é movimento.

O pensamento é humano.
A sensação é cósmica.

O pensamento prende.
A sensação transcende.

O pensamento é lógica.
A sensação é mágica.

A sensação é emoção.
O pensamento é razão.

II

Diga e não diga
atento siga
até a curva
que não existe.

Depois prossiga
vá ao limite
do passo incerto.
Pare, olhe, escute.
Se ouvir o silvo
ou o apito
esconda o grito
recolha o espanto
longe do pranto.

Não corra:
pé ante pé
percorra a rota
não decidida
na sua vida.

Não ponha em ordem
seus pensamentos
e nem logique
as sensações.
Há mil razões
pra se viver
na desrazão.

Tenha certeza
da incerteza
que tudo cerca.
Por isso, irmão,
não metodize
um céu brilhante
ou o instante
da flor singela.
A vida é bela,
não pense: exista.

Bakun, cem anos

BakunRetrato

Miguel Bakun

Início da década de 60. A arte paranaense entra em ebulição, após um longo período de trevas, onde só o academicismo tinha entrada permitida. Anos antes, Frans Krajcberg, polonês que vivia em Monte Alegre (atual Telêmaco Borba, no Paraná) expôs suas pinturas abstratas em Curitiba e foi duramente criticado. Desiludido, chegou a retalhar quase todos os seus quadros, após a exposição fracassada. Mas, em 61, apesar de Curitiba, participou da Bienal de São Paulo e foi premiado.

Claro que alguns artistas mais avançados, como Guido Viaro e Theodoro de Bona, ainda percorrendo as águas do impressionismo, eram respeitados por suas funções de mestres. Mas nenhuma colher de chá para expressões mais modernas.

Alguns artistas do Paraná já tentavam sair das amarras da academia. Havia a pintura de Loio Pérsio, de Alcy Xavier, de Fernando Veloso, de Domício Pedroso, os dois últimos com passagem pela França, onde foram aperfeiçoar sua arte. E uma nova geração invadia a velha Escola de Música e Belas Artes, onde também estudava Nilo Previdi, dono de uma pintura mais arrojada para a época. E Luiz Carlos de Andrade Lima, que também já mostrava um forte expressionismo. Da geração de 60, sairiam Fernando Calderari, João Osório Brzezinski e, logo a seguir, Juarez Machado, só para citar alguns exemplos.

É claro que havia outros “insurgentes”, que tentavam mostar outras formas de arte, abrindo caminho para uma renovação das artes plásticas paranaenses. Entre eles, quase à deriva, passava Miguel Bakun, a quem todos dirigiam encômios, mas não era reconhecido entre os mais consagrados. Porém ele insistia, quase teimosamente, em pintar e pintar e pintar. Com os luminosos amarelos vangoguianos, que também lhe traziam preocupações místicas.

Em um dia qualquer do início daquela década, estávamos, João osório Brzezinski e eu, na Confeitaria Schaffer, na rua Quinze, quando surgiu a figura simpática de Bakun, com quem encontrávamos, de quando em quando, nas raras ocasiões em que ele passava pela Galeria Cocaco, na rua Ébano Pereira. Fora até a confeitaria para comrpar alguma coisa e, em pé, falamos com ele por alguns minutos. Já o encontramos nervoso, sem sabermos que suas lutas interiores eram, então, mais intensas. E foi a última vez que o vi, que o ouvi. Algum tempo mais tarde, bem próximo àquele último encontro, Nelson Matulevicius, frequentador do Centro de Gravura do Paraná, que funcionava, sob a batuta de Nilo Previdi, no subsolo da EMBAP, passou pela escola, bastante nervoso, para nos dar a notícia da morte de Bakun, imolado em uma corda. Encontrou-se finalmente com Van Gogh? Só ele poderia nos dizer, se fosse possível.

Como toda pessoa que morre, de repente Miguel Bakun se transformou em um gênio. Todos procuraram esquecer a humilhação a ele involuntariamente infligida quando, ao buscar um galardão em um Salão Paranaense, foi contemplado com um prêmio quase de consolação – uma caixa de pintura oferecida por uma loja de produtos artísticos. Mas Bakun foi, logo após a sua dolorida morte, transformado em um gênio incomparável. Coisas da vida, recompensas da morte.

Hoje são festejados os cem anos do nascimento de Bakun. Muitas homenagens, todas justas, embora muitas tardias. Vamos a elas.

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Migauel Bakun - Cais do Porto, Paranaguá

Homenagem ao centenário de Miguel Bakun

Miguel Bakun era filho de Pedro Bakun – natural da cidade de Sokal – Ucrânia e Juliana Maksymowicz – natural da aldeia de Ripniv – Ucrânia. O Embaixador da Ucrânia no Brasil Volodymyr Lakomov vira de Brasília a Curitiba para as solenidades organizadas em comemoração ao centenário de nascimento de Miguel Bakun.

No dia 27 de outubro, em razão das comemorações do centenário do artista paranaense Miguel Bakun (1909-2009), a Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Coordenadoria do Sistema Estadual de Museus (COSEM), promove uma série de atividades para celebrar a vida e obra do artista. Neste dia, acontecem na Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro) o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, apresentações de grupos folclóricos ucranianos, dos quais o artista descende, e a projeção de um filme sobre ao artista, de Sylvio Back.

Os eventos começam pela manhã, às 10h30, com uma solenidade póstuma no Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco). Lá, o público poderá assistir a apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno, uma missa em rito bizantino, além de visitar o túmulo de Bakun.

Na parte da tarde, às 16h, a Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915, centro) irá realizar o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, de vínculo com a rede do Sistema Estadua de Museus do Paraná. Durante o lançamento, o grupo folclórico ucraniano Poltava irá apresentar o espetáculo com banduristas, instrumento típico eslavo.

No final do dia, 18h, ainda na CAM, o público terá a oportunidade de assistir ao filme O Auto-Retrato de Bakun (1984), dirigido e produzido por Sylvio Back. Após a projeção, que terá a duração de 43 minutos, o cineasta irá participar de um bate-papo com a platéia. A produção foi contemplada com o prêmio Glauber Rocha de “Melhor Filme”, na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia.

Museu Virtual

Colocar as obras do artista na internet foi o caminho encontrado pela COSEM para divulgar e facilitar o acesso do público geral ao trabalho e legado artístico de Miguel Bakun. “Claro que não substituem um espaço museológico físico, mas complementam, apoiam a área da museologia por divulgar acervos e contribuir para o conhecimento”, explica Eliana Réboli, coordenadora da COSEM.

Os trabalhos que estarão em exposição na internet tiveram curadoria da equipe da própria COSEM, por intermédio de uma grande pesquisa bibliográfica em conjunto com grupos de estudos do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC). “O Museu será sempre alimentado com outras obras e dados sobre Bakun”, garante Eliana.

Programação do Centenário do Nascimento de Miguel Bakun, dia 27 de outubro 2009

  • 10h30 – Solenidade Póstuma
  • Visita ao túmulo do artista
  • Oferta de flores
  • Apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno – Católica N.S. Auxiliadora
  • Cerimonia Ucraniana em rito bizantino
  • Placa em homenagem ao centenário de nascimento do artista
  • Local: Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco)
  • 16h – Espaço Miguel Bakun
  • Apresentação Capela de Banduristas Fialka do Grupo Folclórico Poltava
  • Lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun vinculado à rede dos Sistema Estadual de Museus do Paraná (SEEC)
  • Local: Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)
  • 18h – Exibição do filme, O AUTO-RETRATO DE BAKUN (1984). Roteiro, direção e produção de Sylvio Back; participação do pintor, Nelson Padrella. Co-produção: Embrafilme, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Cultural de Curitiba. Prêmio “Glauber Rocha”, de “Melhor Filme” na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia. Duração: 43 min.; cor/PB. Após a projeção, conversa com o cineasta Sylvio Back. Local: Casa Andrade Muricy(Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

O que dizem, agora, de Miguel Bakun

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Miguel Bajun - autoretrato

Com uma pintura de acentos pós-impressionistas e expressionistas, Miguel Bakun é considerado um dos pioneiros da arte moderna no Paraná. Filho de imigrantes eslavos, ingressa na Escola de Aprendizes da Marinha, em Paranaguá, no ano de 1926. É transferido para a Escola de Grumetes do Rio de Janeiro em 1928, onde conhece o jovem marinheiro e artista ainda desconhecido José Pancetti (1902 – 1958). Estimulado pelo amigo, começa a desenhar, seguindo sua inclinação de infância. Realiza desenhos nos diversos períodos em que precisa ficar de repouso por causa de acidentes. Em 1930 é desligado da Marinha por incapacidade física, em conseqüência de uma queda do mastro do navio. Transfere-se para Curitiba, onde trabalha como fotógrafo ambulante. Logo conhece os pintores Guido Viaro (1897 – 1971) e João Baptista Groff (1897 – 1970), que o incentivam a pintar. Autodidata, dedica-se profissionalmente à pintura até o fim de sua vida. Em busca de um ambiente cultural mais propício, volta ao Rio de Janeiro em 1939. Reencontra Pancetti e realiza uma série de paisagens da cidade, principalmente no morro Santa Tereza. Mas diante das dificuldades encontradas em se estabelecer como pintor, retorna em definitivo para Curitiba no início de 1940. Instala ateliê em prédio cedido pela prefeitura e passa a conviver com outros artistas avessos ao academismo, como Alcy Xavier (1933), Loio-Pérsio (1927), Marcel Leite e Nilo Previdi (1913 – 1982). Esse contato permite que Bakun conheça os valores plásticos da pintura. A surpreendente emotividade dos quadros que pinta supera as deficiências de sua formação, sendo logo notado pela crítica. Em texto de 1948, o crítico Sérgio Milliet (1898 – 1966), após visita à cidade, aponta para o espírito van-goghiano de Bakun, ressaltando que lhe falta noção da tela como um todo e há excesso de empastamento. Contudo, conclui sua crítica dizendo: “o entusiasmo do pintor, sua participação intensa na obra tornam, entretanto, simpáticos os seus próprios defeitos”. A partir de então a comparação com o artista holandês se torna recorrente, tanto com relação à pintura de Bakun quanto por seu temperamento melancólico e depressivo. O próprio artista a aceita, reconhecendo sua admiração por Vincent van Gogh (1853 – 1890), cujos quadros conhecia em reproduções ou pessoalmente. Outro ponto de semelhança entre ambos é uma certa religiosidade mística em conflito com um sentimento de profunda solidão, que de modo e intensidade diversos manifestam-se em suas obras. A década de 1950 é a mais produtiva de Bakun, que se dedica à pintura de retratos, naturezas-mortas, marinhas, mas, sobretudo, à pintura de paisagem, cuja temática mais recorrente são os arredores de Curitiba, com suas matas e casas simples e a intimidade dos fundos de quintal. É nesse último gênero que encontra seu melhor desempenho artístico. O desconhecimento das leis canônicas da perspectiva para a construção do espaço pictórico faz com que o artista invente de modo prático e intuitivo suas próprias soluções.

MarinhaBakun

Miguel Bakun - Marinha

A elaboração de um espaço quase sem profundidade e pontos de fuga, construído pela corporeidade da tinta, singulariza suas paisagens. Apesar de utilizar esboços a lápis na tela ou no papel, o desenho não comparece em suas pinturas. As formas são criadas mediante o manejo da própria matéria pictórica. Sua paleta restringe-se a tons de azul, verde, branco, por vezes laranja e vermelho e, a cor preferida, amarelo. A variação entre áreas densas e outras ralas, chegando às vezes à ausência de tinta, constitui a espacialização rítmica de suas obras. Os ambientes, em geral familiares e cotidianos como árvores no fundo do quintal, cercas, portas de madeira gastas em casas simples, beiras de estrada, bosques, adquirem um ar de mistério. O misticismo panteísta de Miguel Bakun leva-o a uma profunda vinculação com a natureza. Para ele, Deus está presente em todos os elementos vivos, animais ou vegetais, e as cores podem revelar esse componente sagrado. É nesse sentido que se devem fazer restrições aos críticos que vêem em seus trabalhos um viés puramente expressionista. Se por um lado seu olhar singular manifesta-se com liberdade, por outro o respeito pela natureza não o afasta da vontade de representação do real. O que vemos é um envolvimento entre o artista e a paisagem, no qual homem e natureza são permeáveis um ao outro. Isso se revela na sensação de proximidade espacial proporcionada por suas telas. Em fins do anos 1950 o artista introduz estranhas criaturas no quadro, numa visão animista da natureza ainda que alguns críticos, equivocadamente, vejam influência do surrealismo em seu trabalho. No início dos anos 1960 realiza obras de temática religiosa. Sente-se marginalizado com a chegada do abstracionismo, que começa a dominar as poucas exposições em Curitiba. Sua situação econômica também se torna cada vez mais precária. Esses fatores contribuem para o agravamento de sua depressão, apegando-se como nunca à religião. Em fevereiro de 1963 suicida-se em seu ateliê.

Fonte: ItaúCultural

Raul Pough manda um recado:

Na próxima quarta-feira, dia 28/10, no Paço da Liberdade
(Praça Generoso Marques), terá início uma Oficina de Crônicas,
ministrada pela escritora Gloria Kirinus. Terá duração de quatro semanas (qatro quartas-feiras), no horário das 19:00 às 21:00. Sem custos!
Inscrições no local ou por telefone, 3234-4207, com Elisson ou Liliam.

GloriaKirinusGloria Kirinus é peruana, mas vive no Brasil há muitos anos. Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e mestra em Literatura Brasileira pela PUC-RJ. É autora de diversos livros bilíngües de literatura
infantil e juvenil, entre eles O galo cantou por engano/El gallo cantó equivocado e Tartalira/Tortulira, publicados pela Paulinas na coleção Dobrando a língua. Também publicou o livro Criança e poesia na Pedagogia Freinet.

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Travessia

 Manoel de Andrade, com seus bigodes zapatianos da juventude, passeia nas memórias marítimas de

Manoel de Andrade, com bigodes zapatianos, moldura de sua juventude, passeia nas recordações marítimas

A praia quase deserta
a manhã despertando na luz dos elementos
o céu e o mar buscando os seus azuis
as águas que se iluminam lentamente
o vôo preguiçoso das gaivotas
a serenidade de uma vela na distância
as ondas que se quebram mansamente
o enigma dessa paz que só o mar nos concede.

Meus olhos perscrutam o impossível
na invisível beleza marítima da vida.
Minha alma penetra no âmago majestoso da paisagem
e viaja longamente pelo instante mágico do tempo.

Mar, imenso mar
meu olhar flutua na imobilidade do teu corpo iluminado
nestas canoas batidas pela luz ao largo da baía
nestes pescadores curtidos pelo sol e pelo azul
a recolher, de longe em longe, seus frutos de escamas coloridas.
Beijo-te na salgada madeira destes barcos recolhidos,
te abraço no velho homem remendando sua rede.

Caminho neste estuante cenário de água e areia
recordo-me menino neste banquete de espumas flutuantes
na frescura das ondas que morrem aos meus pés
mergulho no teu ritmo
e danço contigo no encanto desta valsa milenar.

Atlântico, meu Atlântico
águas que não conheço nas distâncias do horizonte
esse mar visto apenas das areias
da foz exuberante das correntes
da barra destes rios que tu acolhes
águas fundas, águas rasas
águas doces que cruzei.

Recortados litorais do sul
meu norte
minha praia
meu idioma açoriano
meu salgado fruto
minha fritura, meu peixe, meu pirão
roteiro prematuro dos meus passos
itinerário incansável em meus pés descalços
íntimos recantos de baías e enseadas
antigo esconderijo dos corsários
história nas estórias de velhos habitantes.

Mar, imenso mar
planície total e palpitante
miragem e sedução
misteriosa superfície nos caminhos do destino
o mar de todas as proas
esse território dos meus sonhos.

Navegar, não naveguei…
as águas do Titicaca foram minha gota de oceano no alto da Cordilheira.
Navegar, como quisera navegar, nunca naveguei…
Rota costeira de Quayaquil a Callao,
minha única travessia
meu mar sem horizontes
minha comovida migalha de aventura.

Curitiba, março de 2004
Do livro Cantares, editora Escrituras, 2007


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